sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Sexta-feira

Helane Carine Aragão.

Bosta de fluxo de consciência! Saco. Bosta, bosta, bosta! Minha mãe me disse que estou com o palavreado muito chulo. Vivo falando saco. Não sei sobre quem escrever, nem sobre o que falar. Ontem fui a uma entrevista de trabalho.

Novo trabalho. O terceiro em dois meses. Fazer o quê? Estou assim, vulnerável. Quem me indicou foi Paloma. Joguei o valor do serviço lá para cima na esperança que ele me recusasse. Ledo engano.

Acordei cedo e fui. Terninho preto, cabelo preso, tudo dentro dos padrões daquelas baboseiras que te dizem como fazer e como agir numa entrevista de trabalho. Não acredito em nada disso, e sei que nem quem fala acredita. Se o entrevistador for com a sua cara, ótimo! Se não, reze para ser aceito na próxima oportunidade.

Então. O cara me deixou esperando cerca de uma hora. Quinta-feira, nem estava com vontade de trabalhar mesmo! Lá fiquei. Enfim, Paloma disse: “Ele mandou você entrar”. Entrei. Entrei e desandei a falar. Ele logo me perguntou se eu era arquivista. Pensei: “Meus pais estão me pagando a segunda faculdade para eu assumir que sou apenas arquivista, pelo amor de Deus!”, disse que não. Discorri sobre minha vida com tanta energia que o cara ficou pasmo, me olhando. Pela cabeça devia estar passando: “Dou logo o emprego a esta criatura e me livro deste falatório”.

Entrou um senhor gordo, muito gordo, sala à dentro. Estava cheio de processos nos braços. Enquanto o cara atendia a ligação ao telefone, o gordo puxou minha mão e a beijou. Eca! Quase vomitei. Era advogado, eu acho. Se não era, carregava consigo um broche da OAB. Perguntou meu nome, eu disse. Perguntou como eu estava, respondi que bem. Por educação, retribuí a pergunta. Ele disse que a manhã dele acabara de se tornar melhor. Nos olhos, vi uma chama de fogo, e ardia. Claro! Na “cabecinha” ele arquitetou um encontro sórdido comigo. “Eca!” De novo.

Enfim, o cara mandou eu fazer um orçamento. Como assim orçamento? Paloma tomou a frente e chutou o preço. Ele fez cara de paisagem. Claro! Ele pensou: “Diante daquela bagunça que ela vai enfrentar, por este valor que ela está pedindo, ainda saio no lucro”! Saí e fui no arquivo ver o que me aguardava. Otário. Ou melhor, otária, eu! Se eu houvesse cobrado o dobro, ele pagaria. Nada de assustar. Umas trinta caixas arquivos, previamente separadas, muito empoeiradas. Eu disse que começaria naquela mesma hora. Coloquei a bolsa no ombro e fui ao cinema. Doce ilusão achar que eu sujaria o meu terninho preto.

Na manhã seguinte, levantei-me e fui ao meu novo local de laboro. Trabalhei. Trabalhei mesmo! Até as três da tarde. Sem comer! E escutei um elogio e até um: “Parabéns!”. Fui embora. Cheguei à faculdade e sentei-me no boteco. Ao chegar, a esposa do proprietário me olhou e pensou: “Hoje é dia!”. Ela acertou. Pedi uma cerveja, outra e depois outra, sozinha. Hora de ir à aula. “Depois eu volto”, eu disse. E voltarei mesmo, com certeza. Afinal, hoje é sexta-feira...

Encontro

Pedro Levindo
Será que aquilo daria certo? A idéia toda o deixava um pouco nervoso. É claro que grande parte desse sentimento se dava de forma natural. Todo mundo fica nervoso antes de um encontro não fica? Fica, bem pelo menos a maioria. Mas e encontro com quem se conheceu pelo Orkut? Nunca acreditara em namoro, nem amizade, nem nada na internet, a não ser compra de livros e pesquisa feita de qualquer jeito. Dois meses de conversa... Até que não foi muito. Como seria o papo? Ela era inteligente, gente fina, pelo menos ao telefone. Essa camisa está ruim, não ficou legal com a calça jeans. Jeans não tá muito despojado não? Não, tá bom. Trocou de camisa, por uma verde. Combina com o olho. Zorra, essa camisa de novo? Se tirar ela sai andando. Mas, dava sorte, é verde, ficou bom, pensou. Se bem que ela já viu o olho, as fotos do site mostravam bem. Afinal, foram as fotos mesmo que a atraíram. Aquela história do livro... Podia até ser verdade, mas... foram as fotos mesmo. Estavam ótimas. Ao contrário das dela, todas meio escuras, fora de foco, pequenas, de parte do rosto apenas. Mas ela parecia ser bonita. Será que era mesmo? Ás vezes foto engana... E se não fosse, como diabos sairia dessa? Não dá pra marcar depois de mais de dois meses de conversa pra não ter nada né. Ou dava? E se ela não gostasse dele? Improvável. Olhou-se mais uma vez no espelho. A camisa verde ficou boa. Penteou os cabelos mais uma vez. Repartido no meio? Não, tá pequeno demais. Repartido pro lado, com um pouco de gel. Muito “mauriinho”?. É. Mas vai assim mesmo, que se dane. Isso. Não era muito vaidoso. Isso se dava, masi do qualquer coisa, pelo fato de que achava-se bem quase sempre, ás vezes um pouco feio, geralmente muito bonito. Olhou-se mais uma vez no espelho. Muito bonito, como sempre. Satisfeito com o resultado, passou perfume, deu uma última olhada no espelho. Tudo nos conformes. não esqueceu nada? Não. De cima da bancada, pegou o que tinha pegar e saiu. Seja o que Deus quiser.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A mente de Raiany dentro da minha

Fluxo de consciência *
Por/Carlos Alberto -Raiany

Que raiva! Nasci há nove anos atrás de um segundo casamento... segundo casamento da minha mãe e do meu pai...Dois irmãos...Não agüento mais desde os meus dois anos de idade, sofrer com tanta briga... tantas pessoas...

Ciúmes...Tranqüilidade....Papai, gosta de ficar com os amigos jogando bola e, baralho quando em dia de folga... Minha mãe não sabe se pelo fato dela ser cabeleira é tão vaidosa... Puxei este lado dela? Sinto-me muito vaidosa para uma menina de apenas nove anos de idade... Escovar meus cabelos... Fazer minha unhas... Comprar até minhas maquilagens em revista de Hermes... Separada de minha mãe, é que não gosto de misturar muitas as nossas coisas... Pago tudo com minha mesada que recebo todo mês do meu avô Pedro...

Mas falando do meu lado emocional, me sinto uma criança madura...Estudar, discutir idéias com meu irmão...Pena que minha irmã não morou com meus pais junto comigo...Hoje então com a separação deles não gosto de ver minha mãe chorando...Procurando Igrejas para restaurar o casamento e nossa família, esta separação me abalou muito emocionalmente, quando lembro do meu pai brincando comigo e, até mesmo com meu irmão...Meu único consolo são minhas bonecas...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O ataque de “Garga”

Por Márcia Barreto

Um homem negro, 1,90 de altura, magro, olhar perdido. O seu look predileto é bermuda, camisa branca e por cima um saco de lixo plástico preto cortado como se fosse uma camisa. Carregando sempre uma pá ou barra de ferro ou de madeira. Nunca anda de mãos vazia. Como se estivesse sempre preparado para o ataque. Transita livremente pelas ruas sem nenhuma restrição. Gargamel é o nome. Não é do desenho “ Os smurff”, mas é tão temido e odiado quanto ou até mais.

Dia 11 de agosto de 2007, por volta das 15 horas. Lilí, como é conhecida entre parentes e amigos, abria o portão de seu ateliê para que seus clientes fossem embora. Após conduzi-los até o carro e despedir-se dos clientes, avistou de longe Gargamel. “Meu DEUS!!! Tenho que correr. Entrar e fechar logo esse portão que aquele maluco ta vindo ali. Nossa ele está se aproximando cada vez mais. Tenho que correr. Acelerrou os passos mas não deu tempo. Ele esta andando muito rápido. Que medo!!!”.

Enquanto pensava na rapidez que ele se aproximava, andava rápido também com o objetivo de alcançar o portão do atelier e se livrar da possibilidade do ataque. Quando estendeu o braço e colocou a mão na maçaneta do portão para abrir e entrar foi surpreendida com a mão dele no seu cabelo e um puxão que a jogou na rua. Foi quando se deu conta que ele já estava ali. “Meu DEUS e agora!!! Me ajude!!! Esse homem vai me matar!!!Preciso de ajuda!!!Ruan!!! Ruan!!!”.

Lili começou a gritar o marido com pedido de socorro:

- Ruan socorro!!! Ruan!!! Ruan!!! Ruan socorro!!! Ruan!!!

O maluco começou a falar alto:
- Vou te matar! Você destruiu minha casa! O Meridian acabou. Culpa sua!!!

Falava o maluco se referindo ao antigo hotel Meridian(Rio Vermelho) que hoje é Pestana. Segundo informações ele morava em baixo do hotel e quando foi vendido o novo proprietário expulsou todos os moradores daquele local.

Lili ainda muito confusa com toda aquela situação. "Não entendia direito o que estava acontecendo. Sentindo os tapas, os murros que o maluco dava por todo o seu corpo. Em pânico com muito medo de morrer". Continuava gritando. Pedindo ajuda:

- Socorro!!! Alguém me ajude!!! Socorro!!! Socorro!!! Socorro!!! Socorro!!!Socorro!!!...

Enquanto pedia ajuda entrou em luta corporal com o maluco. “Meu DEUS, por que ninguém me ouve!!! “Meu DEUS!!! Esse homem vai me matar. Meu DEUS!!!”
Foi quando Gargamel puxou o óculos de Lili, "tudo escureceu". Não teve tempo de pensar em mais nada. Caiu no chão desmaiando. Permanecendo ali caída no chão com o maluco em cima dela puxando seu cabelo e batendo naquele corpo frágil e desprotegido.

Ao lado estavam seu marido e seu irmão lavando o carro. Quando ouviram os gritos de socorro correram até o local. Ela caída no chão e ele em cima dela batendo com muita força. Foi a cena presenciada por seu marido e seu irmão.

Naquele instante o marido completamente transtornado. Pulou em cima do maluco e começou a bater nele. "A raiva era visível em seu olhar". “Vou matar você!!! Largue minha mulher seu cretino!!!”
Aos gritos começou a chamar o nome da esposa. Na esperança de que ela reagisse.

- LILI,LILI,LILI!!! Meu DEUS!!!

Enquanto batia no maluco ordenava que ele saísse de cima de sua mulher:

- Larga ela seu filho da puta desgraçado!!!”.

O irmão e o marido dela juntos bateram nele. Até que conseguiram tirar ele de cima dela. O maluco saiu correndo em disparada.


Nesse momento várias pessoas correram para o local. Inclusive sua mãe. Que no ato de desespero correu ao encontro do corpo da filha estendido no chão. “Meu DEUS!!! Ajude minha filha”. “Meu DEUS!!! Ajude minha filha”. Sem entender direito o que havia acontecido ali!!! Ajude minha filha”. “Meu DEUS!!! Ajude minha filha”. “Meu DEUS!!! Ajude minha filha”.


O marido e o irmão dela carregaram na e levaram para dentro de casa. Que fica no andar em cima do seu ateliê. Deitaram ela na cama e colocaram para cheirar álcool, alho até que ela acordou:

- O que aconteceu?!?O que aconteceu?!?

Perguntava Lili sem lembrar o que tinha acontecido. "Aos poucos foi lembrando, as imagens vinha feito filme. Em um ato de desabafo começou a chorar". Seu marido abraçou com força e disse:

- Calma meu amor está tudo bem. Vou te levar a um hospital para fazer uns exames e verificar se está tudo bem.

Ela não parava de chorar. Amparada pelo marido seguiram para o hospital.

A mãe, o marido, o irmão e ela entraram no carro e foram para o hospital. Chegando lá ela foi submetida a vários exames. Quando retornaram para casa já era noite. A sensação era de alivio por não ter acontecido nada de mais grave.

Com escoriação pelo corpo, ainda meio confusa tentava organizar seus pensamentos e agradecia a DEUS por ter sobrevivido. “Meu DEUS obrigada!! Aquele maluco quase me matou. Se não fosse meu marido e meu irmão!!! Meu DEUS o que teria sido de mim? Foi o senhor DEUS que os enviou para me salvar !!! Obrigada”. Sempre que pensava no acontecimento lágrimas corriam-lhe o rosto.

Quando chegaram em casa estava a irmã, os três irmãos, o pai, os tios e as tias aguardando seu retorno. Ao entrarem em casa andando todos sentiram um alivio no coração e enchiam eles de perguntas:

- O que foi realmente que aconteceu? Aquele desgraçado fez o que com você? Você esta bem?

Ficou difícil sabe quem perguntava o quê.
Aos poucos foram se acalmando. E Lili explicou tudo com a ajuda do marido, do irmão e da mãe.

Nos dias seguintes Lili não andava sozinha na rua.
Assustada não ficava na porta do próprio ateliê. E quando tinha que sair sozinha, movimentava a cabeça olhando para todos os lados e pensando desesperadamente: - “Meu DEUS tomara que aquele maluco não apareça nunca mais”.

Todos ao encontrá-la na rua perguntavam como tinha acontecido aquilo? Após a narração do fato, as pessoas ficavam estarrecidas.

- Como é que um maluco desses vive solto pelas ruas? A polícia não faz nada? Os dirigentes do Estado e Município não estão preocupados. Isso é um problema de saúde pública e de polícia.

A mulher ainda muito assustada nada respondia.

Depois de um mês já estava mais tranqüila. E ria ao lembrar daquelas horas de horrores.

Os parentes e amigos passam por ela e gritam:

- Cuidado LILI !!! Garga ta vindo ai!!! Cuidado com Garga!!!
Ela ri e repete as frases.

- Cuidado!!! Garga ta vindo!!! A próxima vítima pode ser você!!!

Assim aprende a conviver com o medo. “Meu DEUS, não quero mais cruzar com aquele homem. Me proteja DEUS”.


Desabafo: Gargamel continua solto e impune pelas ruas. Desde criança ouço histórias horríveis a seu respeito. Dizem que matou a própria esposa com uma pá. Detalhe só ataca mulheres. Como ele é muito alto, quase dois metros de altura, e forte causa pânico.
Ontem dia 23 de setembro de 2007, fui na Perini – Pituba com meu namorado, na rua em frente, estava ele gritando por alguém na porta de um edifício como se fosse uma pessoa de bem. A rua estava com pouca iluminação. Ao perceber sua presença senti pânico, raiva, revolta e uma sensação de impotência por ter certeza de que temos de conviver com ele. E se fizermos algo com contra ele, a justiça fica contra nós. Alegando que ele não tem o juízo perfeito. Mas quem tem? A justiça? Que garante a um ser dessa espécie que ameaça, bate e mata as pessoas? Ele terá que fazer mais quantas vitimas para que alguém tome uma posição? Que país é este? Que leis são essas que garantem a esse sujeito a liberdade? Enquanto que para nós fica o medo, pânico. Acho que maluco somo nós? Ele transita livremente pelas ruas. E se nossos caminhos estiverem no mesmo sentido procuro um abrigo por medo dele.
Cadê o meu direito de ir e vir quem vai garantir???

Caso de saúde pública

Márcia Barreto

O vigilante usa boné, calça azul e camisa amarela. No rosto, chamam a atenção duas máscaras brancas de feltro, que davam a ele uma beleza mascarada. No movimento de abrir e fechar o portão, de ferro pintado na cor branca, o trabalhador não descuidava das máscaras sobrepostas. A todo o momento, ele ajustava a proteção que, na verdade, sintetizava uma realidade, uma denúncia. O homem negro protegia suas narinas da contaminação e do mau cheiro que estava sendo exalado. Um odor forte, oriundo de ferimentos abertos, carne podre e sangue, junto com uma mistura de gente sem tomar banho, dava o toque do ambiente. Desesperança e revolta eram os sentimentos perceptíveis nas pessoas que estavam naquele local, na manhã do dia 21 de setembro de 2007. Onde estamos? No Hospital Roberto Santos – Salvador – Bahia - Brasil.

Na frente da emergência, o cenário era confuso. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Aproximadamente 20 pessoas, entre pacientes e acompanhantes, aguardavam ansiosos o destino de parentes e amigos. Nenhuma satisfação da direção do Hospital ou da Secretaria de Saúde sobre o que era aquilo que mais parecia um pesadelo. Cenas de um campo de guerra, com muitos enfermos e poucos profissionais, espaço físico quase impossível de acolher a todos.

A porta interna da emergência não só estava fechada, como trancada. Acompanhantes e funcionários usavam máscaras. Um fedor insuportável, vindo do interior da sala trancada, denunciava que algo de errado estava acontecendo naquele local.

O destino dos enfermos que amanheceram ali era incerto. Os burburinhos eram inúmeros. Todos se queixavam das condições de tratamento dado aos pacientes, que eram as piores possíveis. Sem critério de avaliação do problema, da resistência desses enfermos, eles eram mandados para casa sem resolver o problema ou orientados a procurar outra unidade de saúde. Muitos não agüentavam andar. Eram pacientes internados há dias na esperança de uma cirurgia que não aconteceu.

Pacientes e acompanhantes saíam pelo portão - branco, de ferro -, da emergência, que era aberto pelo segurança mascarado. Pessoas que pareciam formiguinhas carregando alimento, só que essas formigas estavam carregando seus doentes.

A paciente Robéria aparentava uns 47 anos. Negra, com a cor da pele pálida quase branca - da doença, uma fisionomia triste, a dor estampada na cara. Cabelo preso em total desalinho, mal conseguia fica de pé, demonstrava dificuldade em falar, e quando conseguia, sua voz saia baixinho que quase não dava para escutar. Camisa laranja com listras branca, saia preta, jaqueta jeans, sandália de dedo – baixa, cobria aquele corpo magro, sofrido que adentrara aquela emergência em busca de Socorro!!!Socorro!!! Socorro!!!Socorro!!!Socorro!!!

Robéria era mais uma que havia sido mandada para casa sem resolver o problema. Conduzida por sua vizinha, Miriam Conceição, que tinha a indignação, a revolta e a desesperança estampada no rosto. Transtornada com aquela situação de abandono, gritava:

- Ele já está aqui há 18 dias aguardando uma cirurgia de vesícula e nada foi feito. Agora mandaram ela ir embora. Marcaram uma consulta para o dia 13 de dezembro de 2007. Isso se ela estiver viva!


Diante da indignação da vizinha e da sua situação no hospital, de total abandono. 18 quilos a menos, Robéria demonstrava otimismo, esperança e acreditava que teria seu problema resolvido.

- Vou estar viva sim! Vai dar tudo certo! Vou ficar boa! Vou resolver o meu problema!

Nesse clima de indignação Robéria era conduzida pela vizinha até o carro que a levaria para casa. Onde aguardaria a determinação de um futuro incerto.

O desespero, a indignação e a revolta na frente da emergência continuou. Sempre lotada com pacientes, acompanhantes que aguardavam ali uma posição que chegou sem muito convencimento do Secretário de Saúde. Que virtude da super lotação os pacientes estavam sendo liberados.

Maria Oliveira domestica procurou a emergência do Hospital Roberto Santos com enjôos, tontura e dores na cabeça. Saiu de lá sem resolver o problema. Recebeu orientação para buscar atendimento em outras unidades de saúde. Indignada falava:

- Para ser atendido aqui tem que ter tomado um tiro, ou facada!
Assim foi durante 1h30min de permanência naquele local. Abandono era a impressão daquele lugar, sombrio e fétido.
Difícil de imaginar gente tratando gente dessa forma

domingo, 23 de setembro de 2007

Infância sobre mesa

Por Isis Santana

Na toalha branca com detalhes de frutas coloridas, em meio a farelos de pão do café da manhã e manchas do molho do macarrão servido no almoço, uma pequena lata de doce de leite. A iguaria foi feita de improviso, através do cozimento, em banho-maria, de uma lata de leite condensado.- Quer mais moreninho ou mais branquinho?, pergunta, Ana, a dona da casa, para fazê-lo de acordo com o gosto da visita. É só uma questão de tempo. Se cozinhar mais, mais moreno; menos, clarinho.
Sentadas em volta da mesa retangular da cozinha, Ana e Terezinha (amigas de mais de duas décadas) jogam suas histórias, servem-nas como se servissem as coxinhas e os doces que são capazes de fazer. Promovem uma festa de criança, sem ocultar os traumas inevitáveis da fase.
Conheceram-se numa manhã em que Terezinha bateu à porta da casa de Ana, a seis quadras da sua própria, para vender roupas, o que fazia diariamente pela vizinhança. Com um semblante sisudo, que pouco combinava com sua aparência de serenidade, Ana, uma matrona corpulenta de estatura baixa, tez alva e olhos castanhos contornados como os de uma indiazinha sapeca, recebeu-a sem esconder o mau humor, e tampouco a barriga da gestação avançada.
- O que você quer?
Vendedores na porta de sua casa a irritam.
- Não preciso vender, não, mas quero saber o que acontece pra esse mau humor. Você tá com a graça de Deus aí, e tá desse jeito. Podemo conversar se quiser.
- Então entra pra tomar um café podre, disse Ana, risonha, pelo gracejo que ousara, e já amolecida.Ana abriu a porta de sua casa e, senão comprou nada naquela dia, compraria em muitas outras oportunidades. Era apenas o início de uma madura amizade, que ganha mais um encontro nesta tarde de domingo outonal, ensolarado, mas não quente.

Aniversário Secular

Alice Coelho

O domingo oscilava. Ora o sol se expunha, ora se escondia por trás das nuvens que passeavam pelo céu. Era uma data especial para a família Veloso. A matriarca Canô Veloso completava cem anos de vida.

O tempo parecia corresponder aos sentimentos de Dona Canô. Vestida toda de branco, óculos redondos e uma pequena bolsa branca nas mãos, aqueles olhos verdes expressavam felicidade e emoção.

- A senhora tá feliz? – pergunta uma das repórteres que lhe cercavam desde cedo.

- Eu não sei explicar. Eu não sei se é felicidade, se é alegria, se é tristeza. Sei que estou sentindo tudo de uma vez.

Os cabelos brancos e a pele enrugada de Dona Canô Veloso lhe dá o direito de não saber definir o que sentia. Apenas de viver.

Canô passou o dia cercada por repórteres, artistas, políticos e pessoas comuns da cidade de Santo Amaro da Imperatriz. O dia parece não cansar a aniversariante. Com disposição de invejar qualquer jovem de 20 anos, é acompanhada por três de seus quatro filhos, em direção à igreja matriz de Santo Amaro da Imperatriz, onde vai ser realizada missa em sua homenagem.

A igreja está lotada. Aquele espaço parece não ser suficiente para tanta gente. Em um ambiente de pouca e luz e pouca ventilação, é válido utilizar-se de qualquer coisa que faça vento, inclusive o folheto da missa.

A música escolhida para o momento da entrada de Dona Canô na igreja, é de autoria do filho Caetano. Grande parte das pessoas que lá estão, escolheram se vestir de branco. O branco que, em terras baianas, pode simbolizar a paz, Nosso Senhor do Bonfim ou até mesmo Oxalá.

A aniversariante parece não fazer distinção dos que ali estão e cumprimenta a todos a quem seu olhar alcança. A missa, celebrada pelo arcebispo Dom Geraldo Magela tem um momento especial. Emocionada, a mãe de Caetano e Bethania, recebe das mães do arcebispo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Populares e famosos tentam traduzir em gestos e palavras o que aquela senhora significa para a comunidade baiana. O Ministro da Cultura, Gilberto Gil, diz que ela é uma pessoa “Canonizada em vida”. Um grupo de menino cantores fazem uma homenagem singela: cantam uma música feita especialmente para ela.

Canô Velloso não é artista, mas é famosa. Embora pareça não compreender o porquê de tanta homenagem, os seus 100 anos significam para a comunidade de Santo Amaro muito mais do que um século de vida.

Superlotação em hospital de Salvador

Por Verena Cerqueira

Cabelos já grisalhos e magra, aparentava fraqueza e devia ter mais de 50 anos. Com uma jaqueta azul, uma saia preta e uma blusa listrada, Dona Robéria é uma mulher já idosa, e, com dificuldades para andar, saiu do hospital com a ajuda de sua acompanhante.
Com uma pedra na vesícula e 15 quilos a menos, Dona Robéria aguardava 18 dias no Hospital Roberto Santos para ser operada. A cirurgia não só não aconteceu como foi adiada para, somente, dezembro.
"Se ela estiver viva até lá, faz a cirurgia", disse sua acompanhante desapontada. Dona Robéria, com esperança nos olhos afirmava para si mesma que ia resistir até lá e se curar.
A idosa foi somente uma, entre diversas pessoas que se encontravam ontem no Hospital Roberto Santos em busca de atendimento.
Localizado no bairro do Cabula, o Hospital Roberto Santos fica após a subida de uma longa ladeira. A emergência do hospital fica separada, e foi lá, especificamente, que, 150 pessoas aguardavam atendimento no qual só tinha capacidade para metade.
Aparentando ótimas condições visto de fora, e ainda mais por se tratar de um órgão público, o Roberto Santos denunciava justamente o contrário no seu interior.
Apesar de a porta principal, grande e de cor branca, ter sido mantida fechada, ao entrar na emergência podia-se ver diversas pessoas, entre médicos, funcionários, doentes e acompanhantes, circulando no local devido a entrada não ter sido proibida por ninguém.
A desorganização era enorme. Pessoas com cortes profundos e ferimentos graves circulavam entre acompanhantes e doentes. Muitas usavam máscaras devido ao mau cheiro causado por essas pessoas de ferimentos graves, que, ao invés estarem em salas separadas, encontravam-se juntamente com os acompanhantes a espera de atendimento.
O funcionário da secretaria de saúde Manolo Domingues, homem aparentando seus 50 anos, pele branca, cabelos quase totalmente brancos e barbudo, admitiu que a situação não era normal e que já estavam sendo tomadas providencias para amenizar a situação. Disse ainda que somente as pessoas com ferimentos mais graves estavam sendo atendidas e já estavam tomando as providencias para a transferência dos demais feridos e doentes para outros hospitais da cidade.

Um século de história

Midiã Santana

Uma aparição com as madeixas soltas publicamente é quase impossível, seus cabelos brancos estão sempre cuidadosamente penteados, geralmente um coque básico. O rosto é sereno, o andar é lento, a pele já está enrugada da idade, mas a lucidez e a agilidade para cuidar do que a pertence se tornam raridades para alguém que já vivi a tanto tempo, como é o caso de Dona Canô. Afinal de contas, o fato de uma pessoa completar um centenário, e esbanjar alegria e sensatez, não é algo que aconteça com freqüência.

Na pequena e pacata cidade de Santo Amaro da Purificação, todos já conhecem a casa azul e branca de número 179 na Avenida Ferreira Bandeira. É ali que há mais de 60 anos é a casa dos Veloso, da Dona Claudionor, a famosa Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, cantores importantes no cenário musical do Brasil.
A cidadezinha de Santo Amaro, muito simples, com cara de centro histórico, já teve tempos de glória graças a cana - de- açúcar, mas após a queda do açúcar, a cidade parou no tempo, e não teve mais nenhuma grande evolução financeira. E nessa cidade calma, e sem muitas opções de lazer, Dona Canô que já brigou por inúmeras questões para melhorar a cidade, incluindo a revitalização do Rio Sumaré, usou da sua “fama”, para pedir aos governantes que reconstruíssem o teatro da cidade. E como “Dona Canô chamou”, eles foram e o restauraram. Esse é um dos exemplos que fazem esse povo, que ela diz não entender porque a admiram tanto, terem amor e gratidão por ela.

Não era um dia qualquer ...

Tudo indicava que era um dia comum de sol e pasmaceira, mas na verdade não, era o aniversário da pessoa mais importante da cidade. A festa de comemoração do Centenário de Dona Canô, que começou com uma procissão da população pelas ruas da cidade, com a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, levada de São Paulo especialmente para a comemoração. Depois seguiram para a Igreja de Nossa Senhora da Purificação onde a aniversariante foi recebida pelos fãs e amigos, com uma missa celebrada pelo Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Geraldo Magella Agnelo e pelo Monsenhor Gaspar Sadoc.
A filha Maria Bethânia, também prestou homenagem a mãe, e com lágrimas nos olhos cantou a música Romaria.
Um dia marcante para a “mãe da cidade”, uma senhora muito religiosa, e que já viu muito da história do país, da cidade, da própria vida, e que ficará marcada na história de Santo Amaro.




sábado, 22 de setembro de 2007

O que será das marias, mauras, e robérias?

Uma imponente construção erguida no vasto terreno do bairro do Cabula, em Salvador, gera indignação, revolta e desespero. Sintomas como dor de cabeça, um possível câncer e pedras na vesícula não são respeitados. Cerca de 150 pessoas com estavam passando por uma triagem rigorosa devido ao aumento no atendimento da emergência do Hospital Roberto Santos. Com capacidade para atender 75 pessoas por dia, na última quinta-feira, 20 de setembro, o hospital abrigava 150. Marias, Mauras e Robérias vão para casa porque não sofreram nenhuma facada ou tiroteio.

Durante 18 dias, Robéria espera por uma cirurgia na vesícula. Com aspecto frágil, e com 15 kg a menos, foi ao Roberto Santos não para perder peso, mas para realizar uma cirurgia de retirada de cálculos na vesícula. Voltava para casa vestindo uma saia preta e uma blusa laranja com listras brancas, e com um casaco jeans aparentemente folgado. Além disso, um pequeno detalhe, imprescindível: todas as suas pedras ainda na vesícula. Se ainda estiver viva, como afirma Miriam Conceição, vizinha da paciente, Robéria volta mais uma vez para estadia no “spa estadual” em dezembro. Até lá, vai conviver com as dores abdominais, que não deve ser muita coisa, afinal, os médicos a deram alta! O otimismo produz a única: ela voltará.

E haja otimismo! Ainda temos as Marias e as Mauras em busca de atendimento. Isso, é claro, se Jorge Solla, secretário da Saúde, explicasse realmente o que estava acontecendo para haver uma triagem tão rigorosa em um hospital público que, mesmo sempre movimentado, atendeu a população do Estado.

Mas aonde tem podridão há um odor bem forte. E é esse odor que denuncia toda a agitação da emergência e explica a utilização de máscaras por funcionários. Pacientes diabéticos, com pernas necrosadas, justificam o mau cheiro na emergência. Faltam cirurgiões para amputar, afirma Maura Barreto, que na espera de atendimento, explica o fedor que exala do local.

Robéria voltou para casa, Maura ainda espera. E as Marias? Maria Oliveira, coitada, só estava com dor de cabeça, também não deve ser nada (?), foi mandada embora. E a outra Maria de Lourdes, 59, nada grave, ela só está com suspeita de câncer (!). Vai vê que é assim mesmo. É mais fácil morrer em casa e não assumir a culpa do que no próprio hospital. Ai já viu, o escândalo seria maior, e o Jorge Solla mais uma vez não saberia explicar.

Emergência Superlotada

Por Ana Paula Paixão

Um verdadeiro caos é a forma de resumir a situação em que se encontra o Hospital Roberto Santos nos últimos dias. Por causa da superlotação a emergência do hospital não tem condições de atender à demanda. O número de doentes chegou a dobrar durante o dia segundo a direção. O hospital possui 75 leitos e chegou a 150 a quantidade de enfermos. Pessoas carentes de muitas regiões de Salvador esperam na porta da instituição em busca de melhorar a própria saúde ou de seus amigos e parentes. O que se vê é uma cena de luta pela sobrevivência. Indivíduos à espera por sanar seus problemas físicos.
No cenário uma lotação. Pessoas amontoadas, debilitadas, ansiosas e sofridas. Sobreviventes como a doméstica Maria de Oliveira. Ela chegou ao local com enjôo, tontura, porém não foi atendida. Seu caso não era considerado urgente. Maria de Lourdes com fortes dores no abdômen ficou sem resposta. Portas Fechadas. A direção não permite entrada de jornalistas. Pelo vidro das janelas se vê os funcionários estão usando máscaras. Impacto. Isso seria um procedimento normal em hospitais mas o uso das mesmas não é comum de se ver no dia-a-dia. Porém isso se dá por conta do mau cheiro provocado devido a ferimentos graves de alguns pacientes. Alguns com os membros já condenados à amputação, na espera pela vaga para cirurgia. Jorge Solla, secretário de saúde, afirma que a sala de espera se encontra trancada para controlar a entrada de acompanhantes até que a situação seja normalizada. Quem recebeu alta esperava do lado de fora , de pé, pelo transporte.
Manolo Domingues, funcionário da Secretaria de Saúde, assegura que os enfermos estão sendo atendidos dentro do possível e que a prioridade está sendo dada aos casos graves. Uma ambulância chega. As portas se abrem. Um homem chega carregado numa maca com um ferimento grave provocado por um prego que perfurou parte do seu olho. Foi levado às pressas para dentro. Quem já esperava há tempo apenas se pôs a observar a agonia daquele senhor. A demora garante que ele foi atendido e não será mandado embora sem assistência. Esperança para os que anseiam por atendimento.
Robéria Fortes, vinda de Mar Grande, Ilha de Itaparica, magra, vestida numa roupa simples, calçando chinelos. Aparência frágil. Há 18 dias internada com dores. Atravessou a Baía de Todos os Santos em busca de solução para seu sofrimento, confiando na misericórdia da saúde pública. Voltou para casa e uma nova consulta foi marcada para Dezembro.“Se ela ainda estiver viva”. Desola-se a aposentada Miriam Conceição, sua acompanhante. Uma senhora forte, que segura todo o tempo o braço de Robéria de forma caridosa e firme. Dona Miriam suspeita que Roberia sofre de vesícula. Já a enferma mostra que tem a perseverança típica dos mais humildes: “Estarei viva sim”. Responde.

Sorte

por Pedro Levindo

O Hospital Roberto Santos, público, aparenta, do lado de fora, uma certa calmaria. O prédio é bem-pintado, as instalações são limpas. A Unidade de Tratamento Intensivo é considerada uma das mais modernas da cidade. No anexo onde funciona a emergência, a situação não é muito diferente. Mas essa tranqüilidade acaba quando uma das portas é aberta. Apenas uma fresta basta para se ter idéia do mundo diferente que existe lá dentro. A idéia cristaliza-se na cabeça com os relatos de quem tem a sorte – ou o azar – de sair de lá.

Dona Robéria foi uma dessas pessoas. Usava uma blusa laranja com listras brancas, uma saia preta e uma jaqueta jeans - o frio lá dentro é grande. Saiu amparada, pois sua locomoção, devido aos problemas na vesícula e ao estado debilitado de saúde em geral, está comprometida. Ela anda com a ajuda de uma vizinha, que foi quem a levou ao hospital 18 dias atrás. Foi esse o tempo que a senhora de meia-idade precisou ficar internada para descobrir que a cirurgia de retirada da vesícula, necessária em seu caso, vai ter de ficar para daí a três meses, em dezembro apenas.

A capacidade de atendimento da emergência do hospital é de 75 pacientes por dia. Essa semana, contudo, esse número tem chegado facilmente ao dobro. Os médicos priorizam, naturalmente, os casos mais graves. Dona Robéria, com o semblante cansado, visivelmente debilitada, não teve a sorte de ter o seu caso classificado como grave ou urgente.

Seu estado de ânimo não aparenta revolta, transmite apenas resignação. A revolta ficou a cargo da vizinha e amiga Miriam, que a ajudava a andar. Vestida de forma simples, com um vestido estampado - tão caro a senhora de sua idade - ela mirou a câmera por trás dos óculos grossos e de haste escura e, com o olhar preocupado, disse para a equipe de TV que elas voltariam daí a três meses. “Isso se ela estiver viva até lá”. “Estou indo pra casa, mas tenho certeza que amanhã vou ter que voltar”, completou. Apesar dos pesares, Dona Robéria parece otimista. Resumiu-se, no entanto, a dizer “Vou estar”. Isso, como diz o dito popular, só Deus sabe.

Para quem acredita no Todo-Poderoso, será um caso para Sua providência. Para quem não crê, ou já conhece os meandros da emergência do Hospital Roberto Santos, será apenas mais um caso, onde fica a questão, um tanto quanto prosaica: será que Dona Robéria, daqui a três meses terá de novo a sorte de voltar, e sair, viva, de lá?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Proibido para mim!

Karina Oliveira
Agora mais arrumada, perfumada, maquiada e cheia de más intenções, observo meu alvo. Tento controlar-me, para que os outros não percebam que não consigo parar de olhar e, desejar alguém dentro daquela sala... Os movimentos são controlados... Cada olhar, cruzadas de pernas, mordidas nos lábios... Qualquer coisa para chamar sua. Porém, tudo é em vão... Existe um abismo que nos separa. Mas, eu não desisto. Insinuo-me e tento despertar nele o mesmo que estou sentindo... A preocupação em manter o segredo a salvo dos outros, faz com aquele momento torne-se cada vez mais tenso, parecido com os filmes de ação, o mínimo de descuido pode estourar a bomba e os destroços poderão ser visto por todos... Aquela situação sufoca-me e fico num dilema. Contar para as amigas o que está acontecendo, ou guardar este sentimento proibido.
O tempo passa... A vontade de realizar os desejos mais secretos aumenta e deixa-me confusa... Às vezes, me domina e, sem que perceba deixo a mostra. Assim como um pedaço de sua barriga quando levanta o braço para escrever lá no alto... Alto não, pois é baixinho... Então, olho para os lados e tento disfarçar o que alguns perceberam...Tento entrar no clima da aula, mas não tem clima com tanta gente ao seu redor,disputando sua atenção...Por que ele não me nota? Pergunto-me o tempo todo... E o clima está tão bom, já que estamos no verão... Tempo de amar e entregar-se aos amores proibidos... Ele não me nota e, em meio à multidão pareço transparente... O que fazer para despertar sua atenção?
O desespero toma conta de mim... E aquela confusão de sentimentos faz-me pensar sobre o que esta acontecendo... Gritar para todos seria uma boa idéia, mas não quero que todos saibam... Talvez, surrar ao “pé” do ouvido... Não, não... Está tudo errado! Por que o amor é tão confuso, difícil e dói tanto?... Poderia ser que nem pedir uma pizza. Pegar o telefone, escolher e... Ponto! A espera abre o meu apetite e, sinto vontade de devorar... Devorar-te com os olhos, com as mãos e com a boca... O desejo não passa... Continuo tentando satisfazer minhas vontades... Qualquer migalha pode saciar-me. Mas você não percebe, não vê... Então, aprecio outros pratos.

Aniversariante centenária

Silmara Miranda

Há um século atrás nascia Claudionor Vianna Telles Velloso, um metro e cinqüenta de altura e quarenta e nove quilos. Dos oito filhos, dois são conhecidos em todo o país, mas no dia 16 de setembro a notícia era só ela.
Para comemorar o centésimo aniversário de dona Canô, foi realizada uma missa em seu nome por nada menos que o cardeal arcebispo Dom Geraldo Majella Agnelo. Dona Cano merece. É uma defensora e luta por melhoria no bairro em que mora. Por isso, já poderia ser bem querida por todos os moradores, mas a humildade e simpatia por ela distribuídas só fazem aumentar o número de fãs que tem o privilégio de tê-la como vizinha na Avenida Ferreira Bandeira, número 179, pequena Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano. Para quem está de passagem, torna-se uma parada obrigatória para um pedido de fotos com a famosa dona Canô.
Em cem anos de estrada dona Canô já viu tudo acontecer. A chegada dos primeiros automóveis, guerras, prisão do filho na época da ditadura, a morte do marido, conheceu países, ... mas hoje a obrigação maior é com a igreja, quando vai religiosamente às missas na igreja da Nossa Senhora da Purificação.
No dia de seu aniversário, ela estava radiante, e os filhos Maria Bethânia e Caetano Veloso estavam como deveriam de estar, no papel inverso de suas vidas, dessa vez, aplaudindo mais um ano de vida do show de carisma que só dona Canô sabe dar!

Centenário: uma comemoração cada vez mais rara

Por Emerson Santos

Os sinos da igreja tocam com um som diferente, dando o sinal de um novo dia que se inicia na cidadezinha tranqüila, que é Santo Amaro da Purificação. Sob os raios do Sol, que não se intimida em aparecer para iluminar e aquecer esse dia mais que especial, o 100º aniversário de Dona Canô. Com um semblante nos olhos oscilando entre felicidade e cansaço, Dona Canô, uma das matriarcas mais conhecidas do Brasil, não se desanima em dizer que o segredo para se chegar aos cem anos é “procurar ser feliz”.
A comemoração do centenário de vida de Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, foi um marco muito importante para o povo baiano, principalmente para a população da cidade onde reside, pois, ela é considerada a mão dos santo-amarenses. Um exemplo de mulher guerreira e tranqüila, que sempre agarrou os seus sonhos, como faz uma leoa para proteger seus filhotes. Foram muitos e muitos anos de batalha. Sempre lutou para melhorar a cidade. Em Santo Amaro, não há quem não saiba onde fica a residência de Dona Canô, uma casa branca e azul, onde os Veloso residem a mais de sessenta anos.
Até hoje, ela é quem cuida dos assuntos da casa. Organiza a decoração, o cardápio, assina os cheques e paga as contas. Sempre foi vaidosa, raramente é vista com os cabelos soltos. Um santuário que fica estrategicamente montado na entrada de seu quarto é um dos locais mais preferidos de sua casa. Nele, podem ser encontradas várias imagens religiosas, muitas delas são presentes de amigos, como Nossa Senhora Aparecida e o próprio Santo Amaro. A comemoração de um centenário nos dias de hoje, é cada vez mais raro. Dona Canô é privilegiada por isso, visto que, não é todo dia que se chega aos cem anos firme, saudável e forte. Parabéns Dona Canô.

Dona Canô - A centenária

Carlos José Costa

Através de trancos e barrancos, novenas e trezenas, lavagens e muitas lavagens, eis que a velhinha mais famosa do Brasil, dona Canô chega aos seus 100 anos. A mãe de Bethânia e Caetano teve sua festa de centenário, muito bem celebrada na sua cidade natal Santo Amaro da Purificação. Mesmo com a aparência de muito cansada, está bem lúcida. Fala sobre qualquer tipo de assunto e não se embaraça nem um pouquinho.
Por morar toda sua vida numa cidade do interior a simplicidade transborda ao redor de dona Canô que se sentiu muito emocionada ao beijar a Nossa Senhora, que fora trazida de São Paulo especialmente para a sua missa de aniversário. As pessoas ao redor pareciam se sentirem irradiadas, talvez pelo símbolo que a considerada matriarca do estado da Bahia, representa.
Ser mãe de dois artistas tão respeitados no mundo das artes, especificamente o da música, também é mais um motivo que faz com que a mesma tenha mais um diferencial em relação a qualquer outra velhinha que venha chegar a completar seus cem anos. Este é um ponto bastante evidente. Os dois, corujas ou não, falaram que Canô sempre foi uma mãe dócil, cuidadosa, maravilhosa.
A festa para conterrâneos da centenária, artistas e outros foi celebrada num hotel fora da cidade que parecia mais existir só ele, no meio de uma grande mata. Afinal é bem a cara do interior mesmo, aquelas cidades pacatas, e que fora do centro só existe mata. E assim foi marcado o centenário de dona Canô repercutido em toda mídia nacional como um marco histórico.
O diferente de 20 e poucos anos.
Carlos Costa


As vezes me pergunto porque sou tão diferente. Porque não gosto das mesmas coisas que os outros da minha idade gostam? Afinal os 20 e poucos anos de uma pessoa é a fase mais áurea de sua vida, de um modo geral. As pessoas dizem que não me falta nada, mas com certeza me falta muita coisa. Sei disso. Gostaria de me comportar como o Marcos o cara mais famoso da empresa em que eu trabalho. Ele sim tem seus 20 e poucos anos e sabe bem aproveitar. Têm namoradas, é bastante comunicativo, vai à balada, bebe, enfim tem muita lábia. As pessoas olham para ele e sempre diz você é o cara.
Ah, eu também sou comunicativo, na medida do possível, vou à balada, não todo o fim de semana, não tenho namorada e não bebo. Então as pessoas dizem “Ah não, o Caio é diferente.” Por que? Só por que sou quieto e só falo quando me perguntam? E quando falo todos olham como se eu fosse a voz da experiência? Sim sou elogiado, muito elogiado, mas sempre o elogio final tem de ser, ele é diferente. Falo sobre qualquer assunto que me perguntarem e me expresso muito bem. Mas ao me elogiarem me sinto mais velho, mais experiente e acabo sendo diferente.
Vejo outras pessoas que são diferentes, e o pior é que de tanto os outros falarem já me sinto o mais diferente. Paulinha é paraplégica, é minha colega de trabalho também, mas seu humor é têm uma espontaneidade tão grande, que o fato de ela está em uma cadeira de rodas, não abate ela nem um pouquinho. As pessoas não dizem que ela é diferente. Denis, outro colega de trabalho, é gay, fala de sua vida abertamente para os outros, leva até o namorado para o trabalho para apresentar para nós e também nunca ouvi ninguém dizer que ele é diferente. Virgínia adota um visual dos anos 80 até hoje, e olha que ela assim como eu e os outros também têm 20 e poucos anos. As vezes chego até a achar estranho vê-la com aqueles sapatos de salto com plataforma na frente lembrando a época de Dancin´ Days, como ela mesma fala. Mas enfim como os outros ela também não escuta o jargão que me circunda, o de ser diferente.
Sei que as pessoas não são iguais, mas eu não queria ser diferente ou talvez o que me incomode mais é ser o diferente. Sei lá, soa para mim muito estranho, como extra-terrestre ou sei lá o que. Já pensei em seguir o estilo diferente de ser de muita gente, mas acho que tenho medo de me tornar mais diferente ainda.

Vasculhando o armário

Por Deny Nascimento



Lágrimas lavam meu rosto e limpam minha alma. Não sou louca e tão pouco passo por um momento de perda, entretanto, essas lágrimas também não são de felicidade. São 9h de uma sexta feira ,dia comum, dia comum para todos , mas para mim um dia inesquecível. Acordei cedo e resolvi mudar a minha rotina. Desliguei os celulares, coloquei uma camiseta velha e enorme que me faz sentir tão segura e tão acolhida como os braços de minha mãe. Sentei , pensei, pensei e percebi que precisava organizar a minha vida. Precisava voltar a ser responsável com os estudos, ser mais companheira dos meus amigos e principalmente: ser fiel a minha liberdade. Refletir que deveria fazer tudo isso foi fácil, porém tornar meus pensamentos realidade com certeza daria muito trabalho. Mesmo assim, contrariada pela normalidade do comodismo, saltei da cama resolvi começar a transformação.
Mas começar por onde? Fui tão desleixada, que minha vida está uma bagunça total. Pensei em ligar para meus amigos ,que por conta da rotina pesada do trabalho eu havia me afastado, afinal, com a ajuda deles, concretizar essa minha metamorfose seria muito mais fácil. Peguei o telefone comecei a discar 3... 3... 8... 4...NÃO ! vou fazer melhor, escreverei cartas pedindo desculpas, como nos velhos tempos. Mas onde estão meus papeis de carta? Hum.... no armário! Abri o bendito armário... estava tão arrumadinho, que 70% das coisas que estavam lá caíram nos meus pés. Era um problema a mais para eu resolver mas ... é a vida.
Sentei no chão catei os papeis e as cartinhas começaram a me chamar a atenção . Comecei a lê-las, uma por uma e a emoção tomava conta de mim. Cartinha de desculpas , de declarações de amor, amizade, rascunhos de cartas para namorado, papeizinhos eu eram trocados no meu das aulas.Eram tantas coisas de uma pessoa tão deferente do que eu sou hoje. Eu sei que transformações fazem parte de nos , mas eu mudei tanto, e em relação aos meus sentimentos, não foi para melhor. Naquela época eu não sofria dos males de hoje, não tinha vergonha de dizer eu te amo, de passar uma tarde inteira papeando e muito menos de fazer o que meu coração pedia. Agora eu sou o inicio do que eu sempre jurei que não seria: uma adulta manipulada pelo sistema.
Chorei muito ao ler trechos de minhas antigas agendas, (não tão antigas assim, de dois três anos atrás), percebi que eu era uma assassina. Assassinei muitos sentimentos e o pior, fiz com que o que de melhor eu tinha, minha ingenuidade, fosse apagada de minha memória. Não consigo entender como pude me transformar desse jeito em tão pouco tempo. Não sei como pude abrir mão dos meus maiores tesouros... Era hora de mudar.
Peguei papel, caneta e repetindo o gesto que era natural a menina que fui a dois anos atrás, deitei-me de bruços no chão e comecei a escrever, as palavras já não eram tão ingênuas como as de antes, mas já havia valido a pena , meu coração já sentia algo. Era uma espécie de dor, medo, arrependimento, felicidade,amor e angustia, e foi e sentimento mais intenso e mais profundo que eu já senti.
O mundo lá fora já não me interessava mais, eu tinha que colocar meus sentimentos em forma de palavras. Passei minha tarde escrevendo ,e ressuscitando o meu eu em mim.
“ ... amiga querida, sei que há muito tempo eu não demonstro o amor que sinto por você. Sei também que tenho sido incapaz de te ligar no meio da madrugada só pra saber se deu certo o seu plano de conquista ... muita coisa mudou. Mas hoje eu resolvi resgatar os meus tesouros, estou fazendo reviver o meu velho eu ... amiga eu te amo.
... sei que talvez o meu resgate de mim mesma não seja o suficiente para que eu acumule forças e a entregue um dia essa carta ... não importam os fins mas os meios dessa minha transformação já valeram a pena."


O dia se passou, escrevi muitas outras cartas. Resta- me agora o amanhã que me dirá se a minha volta ao passado valeu a pena.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Ah... um emprego !

Emerson Cunha
Acho que essa já é a terceira ou a quarta entrevista de emprego que faço. Não me recordo mais em quantas fui exatamente, só sei que perdi em todas. A última, até acreditei por um segundo que conseguiria, mas, como sempre, na última etapa fui eliminada.
O que que eu to fazendo de errado? Será que eu não tenho competência suficiente pra trabalhar? É...só pode ser isso! Não guento mais sair de casa pra uma entrevista, e quando tudo parece que vai dar certo e finalmente vou conseguir a bendita vaga...Que ódio que eu tenho daquela menina que na última entrevista que participei não me deixou falar hora nenhuma! Foi por causa dela eu não passei! Mentira. Não foi por causa dela, foi porque eu sou burra mesmo e nunca vou conseguir um emprego!
Queria tanto parar de depender dos meus pais, entrar logo numa faculdade pra minha mãe não ficar falando que eu não faço nada, que eu tenho que estudar mais pra poder entrar na faculdade. Mas como eu vou estudar nessa casa que não para. O telefone vive tocando, sempre chega alguém na minha casa, tem sempre um falando alto, ouvindo som, fazendo barulho... É impossível se concentrar nessa casa.
Essa semana me ligaram pra mais uma entrevista de emprego. Lá no Itaigara. Não sabia como chegar lá, daí eu pedi pro meu namorado me levar lá. A gente até discutiu um pouco porque eu queria que a gente saísse bem cedo pra não correr risco de atrasar, mas ele teimou dizendo que não precisava sair tão cedo porque o ônibus não demorava pra chegar onde nós iriamos. Mas discussões à parte, nos encontramos para ele me levar lá e chegamos no horário certo, sem atraso nem muita espera. Ele ficou comigo lá até começar a entrevista. Queria me esperar, mas eu achei melhor não, porque ele poderia esperar muito, então ele foi assim que eu fui chamada.
Até que não me sai tão mal nessa entrevista. A mulher que me entrevistou perguntou meu nome, onde eu morava, essas coisas básicas de uma entrevista...Pediu também que eu dissesse uma frase, pra avaliar minha dicção. Acho que falei direito. Só me resta esperar, e torcer pra que desta vez eu consiga.

Paparicado por...


Reinaldo Oliveira


Não sei o que acontece com gente grande. Tem horas que eles não percebem que não gosto que me peguem toda hora, me mordam e façam gut, gut, gut. Que saco; parece que sou otário. Ah! Odeio quando pegam em minha cabeça e meu tio Reinaldo faz isso direto pra me pirraçar. Adoro ele e principalmente quando me faz cócegas e minha mãe fala:
-não faz “cosca” nele não. E ele diz: não to fazendo não.
Pra falar a verdade, gosto bastante de ser paparicado por todos eles. Hum... Quando eu tinha três meses, não faz muito tempo, pois, só tenho um ano e um mês, minha tia me acordava na madrugada, pra fazer companhia a ela.
Não gosto quando eles falam mal de meu pai. Sei que ele não é o melhor pai do mundo, vacilou ao deixar minha mãe quando ela mais precisava dele e ainda alega que não é meu pai. Mas, não cabe a nós seres humanos castigá-lo, como diz o ditado: quem faz aqui na terra, paga aqui na terra. Não gosto que falem dele porque, apesar de ser esperto, ainda sou uma criança e não quero crescer revoltado.
Essa história de meu pai é meio doida. Quando minha mãe tava grávida, ele disse uma vez que não era dele. Após meu nascimento, ele ficou todo bobo, parecia mais criança que eu. De repente deixa de ser meu pai de novo. É uma confusão, mas...
Odeio coruja, elas me dão medo. O olhar sinistro delas acho que vai me devorar. Mas minha avó é uma coruja, e adoro minha avó. Ela vai me comer? Não!!! Apesar de ser durona, ela é muito amável.
E, já tava esquecendo de falar de Mauricio, meu outro tio. Este eu não vejo muito não. Só quando ele está de folga. Quase que não o vejo. Mas, quando ele vem aqui pra casa, tiro o atrasado e meu tio Naldo ás vezes se reta comigo. Porque quando Mauricio ou Lú, como o chamamos, vem; deixo Reinaldo escorado. E fico o fim de semana todo no braço de Lú. Rsrsrsrsr não faço isso por maldade, mas, serve para descontar o que ele faz comigo. Às vezes vai pra rua e nem me dá atenção. E no fundo, sinto que ele gosta, pois ele descansa um pouco coitado, fica comigo a semana toda.
Meu tio Nei também é legal. Ele é irmão de meu pai. Gosta de mim e sempre vem me ver. Apesar de meu pai ser barbeiro, sempre corto meu cabelo na barbearia de meu tio.
Será que esqueci de falar de alguém que me paparica? Sei lá. É tanta gente que não dá pra listar todos. Mas só pra citar alguns; Lia, conceição, Cheroso, Marina,..., Bujão.
Não dá pra falar de todos. Mas uma coisa eu admito: adoro ser paparicado.

Adolescente em conflito

Midiã Santana

Mesmo querendo não me sinto bem... Como posso estar namorando alguém e não conseguir esquecer uma pessoa com que eu ficava há quatro anos atrás... Sou a infidelidade em pessoa... Sou má... Amar o errôneo... Sentimento que consome e some... Me faz imaginar que o certo é o que penso, "e quem acredita sempre alcança", ilusão essa de que o fácil é o pior, o fácil sim, às vezes é o melhor... Cabelos cacheados, loiros, desgrenhados... Porque em uma praia ou com o skate no pé, a imagem dele sempre me vem à cabeça... Lembro-me do meu pai, talvez minha incerteza em buscar aquilo que quero seja fruto de tê-lo perdido cedo? Será que a necessidade de alguém mais "maduro", na verdade, é um complexo de Édipo?

Sentimento de vazio e vulnerabilidade. Mesmo com o pé no altar e a casinha de sapê à beira do mar, eu acredito que ele é meu, aquela criatura com falha no dente não pode ser melhor do que eu... Ahhh, a esperança... PALAVRA RIDÍCULA... Esperança, coisa de gente fraca, o momento é agora... Um, dois, três... Como vou cuidar dos bichinhos com um livro em inglês... Medicina veterinária é bem mais complicada do que a humana... Me lembro do dia em que o meu último cachorro morreu, foi bem triste... Cachorro, isso que ele é, um irracional, como ele pode fazer isso comigo, sabendo que o que existe entre a gente é mais do que cumplicidade, é a construção de nossos seres, se eu sou assim é graças a ele e vice-versa... Uma pena ser adolescente e apenas ter questionamentos, onde estão minhas respostas, onde estão aqueles dreads da cor do sol... Era tão bom quando comprávamos vinho São Jorge e nos embriagávamos... Graças a ele tomei minha primeira suspensão... O errado é tão mais gostoso...

Volta ao jardim de infância

Lívia Melo

Turma de Publicidade e Propaganda, primeiro semestre de uma Faculdade qualquer. Amadurecidas pela idade e esquecidas de como era uma sala de aula, quatro moças se sentiam recém saídas de uma caverna e, ao mesmo tempo, em pleno jardim de infância. Com brincadeiras inocentes e muita vontade de aprender, a turma se dividia entre jovens e anciãs. O que fazer no meio de tanta gente capacitada no auge de sua adolescência? Jovens que tão cedo, com pouca idade, têm a oportunidade de ser alguém na vida? Como será acompanhar essa galera fervorosa cheia de gás?

Incapaz e com muito medo é o como se sentia Ivonete. Mesmo com tanta ânsia de aprender, estava ali pra se curar de uma profunda depressão, causada pela perda de sua cara metade. Quanto tempo fora, mãe de família, avó, aposentada, que loucura remeter-se a uma sala de aula, senhora distinta de cabelos grisalhos, sorriso espontâneo, uma simpatia.

Darlene, uma loira engraçada e falastrona, tinha olhos castanhos, baixinha e meio roliça, adorava imitar a maneira dos professores darem aula. Ah! Buscava há tanto tempo um diploma universitário, acompanhar o marido em qualquer de suas reuniões sem se colocar de escanteio por falta de assunto, parecia um sonho! Não ser vista mais como apenas mulher de fulano de tal e sim a publicitária Dona Darlene, como é maravilhoso! Com o marido professor muito bem empregado, fazendo sucesso por onde passa, e sem contar, no leque de amizades bastante ecléticas, queria ser vista pelo que ela representava de fato e não quem ela estava representando. Pra ela, ser uma comunicóloga era inexplicável, afinal, estava tendo um lugar perante a sociedade.

Silvia poderia ser comparada a quase uma Madre Tereza de Calcutá, se não fosse, no final de toda sua bondade, ser observada que a sardinha viria sempre pro seu lado. De quase tudo que falava, metade se desmanchava em choro. Foi eleita líder da sala, com seu jeitinho conseguia o que queria. Muitos sonhos teria realizado se não fosse o que faltava: ser mãe.

Imaginar dia e noite como seria seu rostinho, se seria ele ou ela? Pareceria com quem, mamãe ou papai? Com certeza mimaria muito! Eram os pensamentos de uma jovem com seus 33 anos e inestimável vontade do desejo de ser mãe. Enquanto esse encanto não chega, buscar uma carreira e dar asas à sua imaginação é o que fazia parte do mundo de Silvia.

Já Naza, policial nas horas vagas, tempo é o que lhe faltava, e feito uma menina, pregar peças em seus colegas e cantarolar entre um intervalo ou outro ajudava ela a esquecer metade de seus problemas. Como é suado se dividir em tantas pessoas ao mesmo tempo, ser dona de casa, trabalhar correndo atrás de bandido, tirar plantão, fazer trabalho de faculdade, dar atenção à família, mas não poderia se queixar, pois conseguiu fazer parte da concorrência no mercado de trabalho é bom pra alma. Naza se sentia em casa, mesmo sua vida sendo um tremendo corre-corre, ela estava acostumada, era uma pessoa elétrica.


Para Cassandra, tudo era mais fácil Conhecida carinhosamente pelos colegas como boca de afofo, era uma patricinha, no bom sentido, claro, família classe média, cargo de confiança e estudante dos melhores colégios. Tirava tudo de letra, a não ser o seu “Calcanhar de Aquiles”, as resenhas, das quais ela fugia como o diabo foge da cruz. Ela estava com a bola toda. Não se preocupava nem em época de prova, tudo estava na ponta da língua. Falastrona, para tudo tinha uma história. “Hora, veja só, todo mundo nesta sala gosta de falar muito e somente eu tenho boca de afofo, será que se comunicar demais é tão ruim assim? Não ter medo das reações que provoca nas pessoas, falar o que pensa e estar sempre em contato com tudo e todos?”. Sem se preocupar muito com as opiniões alheias, mandava ver e soltava o verbo.


As dificuldades foram muitas, porém todas tiraram de letra e, no final, fizeram daquele grupo de mulheres experientes, verdadeiras adolescentes em busca de um sonho que já não era mais distante: a independência e o posicionamento na sociedade em ter uma carreira promissora.

Santo Amaro tá que é só alegria!!!

Rafaela Anunciação

- A senhora está alegre? - pergunta a repórter.

- Não sei dizer o que estou sentindo, se alegria, se tristeza, se felicidade...Sei que estou sentindo tudo junto. Não sei explicar.

É assim que Canô Veloso, ou melhor, D. Canô, a pequenina mulher, com um sorriso carinhoso, olhar terno, voz mansa e jeitinho simples de quem mora no interior, define o que estava sentindo num dia tão gostoso, para ela e para aqueles que a conhecem e admiram. Graças a ela, temos o privilégio - para alguns pelo menos - de ouvir a melodia da voz de Caetano e o firme soar das notas cantadas por Maria Bethânia.

Vestida toda de branco, como tradicionalmente, a virginiana mais antiga da família Veloso passeia pelas ruas de paralepípedos desalinhados com a ajuda de alguns amigos e se dirige à igreja Nossa Senhora da Purificação, onde será realizada uma missa de ação de graças pelos seus 100 anos vividos, aparentemente, com muito orgulho.

- Mainha, não encontrei a senhora no caminho! Bença maínha! - fala Caetano, com seu legítimo sotaque de "baianinho arretado de Santo Amaro", bem arrastado e preguiçoso. O abraço é dado logo em seguida e ele precisa quase se ajoelhar para isso.

- Parabéns viu minha mãe!

E ela retribui com um abraço que apresenta um misto de fortaleza, sinceridade, amor e sensibilidade.

E a caminhada prossegue rumo à igreja. Lá, o arcebispo D. Geraldo Magela aguarda a aniversariante para iniciar a celebração. Bênçãos proferidas e pedidos de mais longos e duradouros cem anos concluídos, D.Canô recebe ainda a homenagem de Bethânia que canta junto com o coralzinho da igreja. Emocionada, como não podia deixar de ser, elogia sua mãe com o orgulho de quem ganha um troféu. E realmente ganha, afinal, não é todo dia que alguém pode abraçar uma mãe que completa cem anos.

Gilberto Gil, Regina Casé, Margareth Menezes, Paulo Souto, o governador Jacques Wagner, os representantes da família ACM, marcam presença no aniversário de D. Canô.

A festa é aberta para parentes e amigos íntimos que festejaram com ela toda "intimidade" desse momento.

Minha vida de gato

Acordo tarde, já começa o dia e eu me espreguiçando bastante, adoro dormi na cama dos outros, sou um pouco lento, mais só um pouco, detesto água mais sou muito limpinho, todo mundo quer pegar em mim, mas não gosto muito desse contato o tempo todo, meu banho de língua encanta qualquer um, vivo brincando com a minha bola de lã e quando fico enjoado deito e durmo, como infelizmente não moro sozinho tenho que preservar alguns atos íntimos meus, sou exigente e minha comida tem que estar pronta quando chego do meu passeio diurno, nem gosto de implora por carinho, simplesmente consigo ser dengoso e quando menos esperam, estou deitado no colo ou no sofá de alguém, fico mais próximo de quem mais me dá comida, tempo frio não é comigo, não gosto de sair pra baladas noturnas, é só escurecer que eu já fico deitado no tapete bem quentinho e estirado, sou esperto e faço todos gostarem de mim, pois não dou trabalho, me acho tão esperto e bonito que ficar gastando minha voz de locutor é um desperdício, mesmo sem saber ler esses livros que os humanos lêem, sou bastante inteligente, me tratam tão bem e eu não preciso fazer nada, já o puxa saco do FM, o cachorro que mora na mesma casa que eu vivo, fica o tempo todo no pé pedindo carinho e só recebe carão, sai até na chuva quando os humanos chegam, e se por um acaso tiver um assalto na casa, ele vai ser o primeiro a morrer, vive metendo o focinho onde não é chamado e quer defender Deus e o mundo, até parece! Sou mais eu, se isso acontecer, vai ser o assaltante entrando pela porta e eu saindo pela janela, depois cronômetro um espaço de tempo de três horas pra voltar com segurança e chego como se nada tivesse acontecido, do tipo que fala: Olha o que aconteceu? Nossa que fez isso? Se todo mundo parar pra pensar comigo, vai enxergar que eu não tenho sete vidas a toa.

Sábado também é cotidiano.

O primeiro despertador, como de costume, tocou às 5h40, como também de costume desliguei-o para dormir “só mais um pouquinho”. Então, 20 minutos depois, chegou a vez do segundo e definitivo, aquele que costumo chamar de mãe, já que a minha, todas as noites, toma remédio para dormir por causa do tratamento que está fazendo para a síndrome do pânico. “Doença de rico, chata!”, ela costuma dizer.

Então, quando esse desperta às 6h, de segunda a sábado, de ímpeto levanto-me. Espreguicei-me, olhei para Mustafá, que dormia do lado dele da cama (é sempre o esquerdo), dei um beijo nele e disse:

- Bebê, mamãe ama muito você!

O ventilador continua ligado, pois meu gatinho não gosta de dormir sem o ventilador, não acho justo desligá-lo enquanto ele ainda dorme, até porquê quem tem obrigações ali para cumprir sou eu e não ele (aliás, nem podia, lembro-me nesse momento que ele é um animal). Acendi a luz, peguei a roupa que vou usar, sapatos, acessórios (essa é a parte mais complicada, pois acho que o que completa o meu figurino são os acessórios. E, diga-se de passagem, são umas das minhas “fúteis” paixões), maquiagem, desodorante, hidratante, creme para pentear os cabelos, escova, pente e olho a bolsinha que já tinha arrumado no dia anterior com a revista, uma série de textos que foi emprestado por uma amiga, meu pequeno caderno do banco Bradesco, que levo para onde for. Aí penso que esse caderno serve para todos os tipos de anotações, desde as aulas que assisto na faculdade, de prospecção dos clientes do meu trabalho e até mesmo para anotar as contas que tenho à pagar. Dou um leve sorriso e olho o relógio, já são 6h10, é hora de adiantar.

Vou ao banheiro para fazer as primeiras atividades que faço nele, escovar os dentes, lavar o rosto etc... Saio em direção à cozinha, antes passo na frente do espelho que fica na sala e olho meu rosto: “nossa, que cara de sono”, penso! Ao cruzar o corredor que divide a sala da cozinha e que tem, nas laterais, os quartos da casa, o meu, o da minha mãe e o que era do meu irmão, mas que agora transformou-se na suíte dos hóspedes. Acho um desaforo, minha mãe não deixou que eu trocasse de quarto. Poxa vida, o meu não tem banheiro, eu queria mesmo era ir pra lá. Na verdade, acho que ela tem esperanças que meu irmão volte para casa. Ela ainda não conseguiu aceitar que ele, há três meses, decidiu morar com a esposa e com o filho em um lugar onde tenham privacidade.

Alheia a esses pensamentos em frente ao quarto “dele”, que estava com a porta fechada, fui despertada com essa mesma porta abrindo. Era Júnior, um garoto de 18 anos, que é voluntário, junto com minha mãe, de uma instituição que trata crianças com câncer. Minha mãe tem Júnior como um garoto com quem ela pode contar para tudo. Júnior estava acordando para terminar de limpar o nosso terreno que fica ao lado casa. Ele olha para mim, diz bom dia e vai para o banheiro enquanto eu chego na cozinha para preparar meu café da manhã. Aliás, não gosto desse nome, café da manhã, acho limitado demais, pois não tomo café. Gostaria que o nome fosse suco da manhã, soa até melhor ao dizer.

Abri a porta do freezer e peguei uma polpa de cajá, preparei meu suco sempre com adoçante e, enquanto o liquidificador estava ligando, preparava duas fatias de pão integral com gergelim e queijo minas (gosto muito) e coloquei na sanduicheira. Fui na varanda cumprimentar meus três cachorros, com carinhos na cabeça, e perguntei a Júnior se ele queria tomar café. Ele respondeu que, naquele momento, não. Lembrei que o liquidificador ainda estava ligado, voltei para cozinha desliguei-o. Tirei meu sanduíche, coloquei em um pratinho, peguei o suco que já estava no meu copo cor laranja, que eu adoro, e sentei a mesa da copa. Liguei o rádio, que fica sintonizado na emissora que mais gosto, e comecei a tomar meu café, ou melhor, “suco da manhã”. Naquele instante tocou uma música da qual gosto bastante, chamada Lugares proibidos. Lembrei que, no fim de semana passado, fiquei com o rádio ligado o tempo todo esperando que ela tocasse, pois queria que Sheila (minha amiga) a ouvisse e, é claro, só porquê eu queria muito ela não tocou!

Terminei de comer às 6h25 e fui direto para o banheiro. É claro que não lavei a louça, pois as dorminhocas (minha mãe e irmã) estão em casa e, quando acordarem, vão fazer isso. No banho, levei vinte minutos, adoro tomar banho quente e, às vezes, acabo perdendo noção do tempo. Saí do banheiro e fui para meu quarto. Nessa hora Mustafá acordou, olhou para mim, bocejou e, é claro, começou a miar pedindo que eu lhe trouxesse a ração. Pensei: “que gato folgado”. Voltei para a copa, peguei o pratinho dele com desenhos de cachorrinhos, mas que ele adora, e levei para o quarto. Ele desceu da cama e foi comer enquanto eu começava a me vestir. Em 30 minutos estava pronta para sair de casa, mas não faço isso sem antes entrar no quarto da minha mãe e falar com ela, mesmo que ela não escute. Normalmente, quem responde é minha irmã, que dorme com ela desde que meus pais se separaram há quase sete anos.

Mustafá, mais uma vez, chama minha atenção, dentro do quarto da minha mãe, miando pedindo para que eu abra a porta do banheiro do quarto. Eu, lógico, abro, porque sei que ele vai beber água. Mustafá só toma água do chão do banheiro, não sei porque ele adquiriu essa mania bizarra. Deixei ele lá, fechei a porta do quarto, pois sei que ele vai voltar para a cama e dormir. Dessa vez, ele vai dormir entre minha mãe e minha irmã.

Abro o portão da sala que dá acesso a varanda e brigo com os cachorros, pois eles querem pular em mim. Despeço-me de Júnior e saio de casa às 7h15. Vou para o ponto de ônibus. No entanto, lembro que tenho que passar na casa de Silvia e deixar o alicate de unha que Sheila me emprestou. Quando já estava em frente a casa de Silvia liguei para o celular dela e mandei ela abrir a porta, coitada, eu a tirei da cama. Conversamos um pouco, acendi um cigarrinho e fui para o ponto de ônibus, já imaginando que estava atrasada e que provavelmente o ônibus passara. Começou a chover, pensei: “que droga, até no sábado São Pedro não libera” e ainda para piorar estava sem guarda-chuva, a sorte é que já estava chegando.

No ponto, dei bom dia a um senhor e perguntei se o campo grande já tinha passado, respondeu-me que sim. Não fiquei chateada porque achei que logo outro viria. Fiquei olhando para a praça que fica na frente, olhando os garis recolhendo o lixo de alguma festa inédita que teve lá ontem e que até o momento eu não sabia qual era. Olhei também a estátua de Vinicius de Moraes, dono daquela praça no farol de itapuã. Fui retirada dos meus pensamentos por Valdelice, uma vizinha com a qual não tenho muito contato, mas sempre que nos encontramos temos muito para conversar. Ficamos lá por volta de trinta minutos esperando nossos respectivos ônibus atrasados. Às 8h10 o meu passou, despedi-me dela e vim para a faculdade, pensando que o professor ia me “fuzilar” com os olhos quando eu chegasse.

Sentei-me na cadeira da frente, a que tem apenas um acento. Sei que ela é reservada para deficientes físicos e idosos, mas adoro ficar ali e quando vejo que ela está vazia e que as outras de preferência também estão vou direto para lá. Tirei os textos da bolsinha e comecei a ler alguns sobre jornalismo literário, depois peguei a minha Piauí e li uma matéria sobre um cachorrinho sadomasoquista, dei muita risada.

Quando percebi já estava no Rio Vermelho, guardei meu óculos na caixinha e coloquei a revista na bolsinha, estava perto da faculdade e quando peguei o celular na bolsa para ver as horas, pensei: “que chato, mas estou super atrasada”! Desci no ponto e vim em direção a faculdade, chegando encontrei a colega de Sala Isis, que também estava atrasada. Nos olhamos, demos risadas e comentamos do nosso atraso nos insentando da culpa de chegar atrasada sozinhas! Isis foi direto para a sala e eu passei na biblioteca. Quando entrei, com a maior “cara-de-pau” disse boa tarde, o professor riu e sentei-me no fundo da sala. Perguntei para Isis se ele reclamou com ela, a mesma disse que a cumprimentou com a minha frase. Olhei para o quadro e percebi que ele tinha passado atividades. Sentei-me em frente ao computador e começei a fazer a tividade, esperando o restante do dia pois, como estou falando de cotidiano não poderia esquecer que hoje é sábado e o mundo e os amigos lá foram com toda certeza me esperam...

Uma cunhada ciumenta

Ah, sair com o namorado da minha irmã nunca foi meu forte. Há uns anos atrás tinha ficado atracada na perna de um desses namorados e atrapalhava todo beijo que ele tentava dar nela. Por mim ela não arranjaria nenhum namorado mas se bem que dessa vez é bom porque ela vai vir morar aqui com a gente por causa dele. Ele merece um voto de confiança. Conheci quatro namorados da minha irmã. O primeiro deles foi um com um nome esquisito, lembrava... salmão!Ele também era esquisito mas dizer o que né?!Minha irmã também. Com aquelas calças folgadas que davam três Drielys dentro. Só se vestia de preto, tocava bateria e balançava a cabeça quando ouvia aquelas músicas que doía meu ouvido. Conhecia também o Júnior que me dava marshmallows pra que eu não contasse pro papai das beijocas deles dois. Depois foi o Luis. Não gosto dele. Eu e o papai colocamos o apelido dele de chiclete porque encheu o saco da minha irmã numa vez que ela teve aqui. Mas não guardo mágoas. Só não quero ele como cunhado.Égua!Já até me perdi. Ah,o namorado da minha irmã. O de agora é o Paulo Henrique, que não é tão de agora por que minha irmã gosta dele desde sempre. Lembro uma vez que a gente tava sentada na frente da casa da vovó e ele passou com uma menina. Eras da minha irmã!Chorou muito. Lembro do papai conversando com ela mas não sei o que eles falaram porque o papai não deixou eu ficar lá. Sim eu tenho uma boa memória, mesmo com 11 anos. Tá o assunto não é esse, o assunto é a saída com o namorado da minha irmã.
Fomos para o Castanheira que é o shopping que fica atrás da casa da vovó. Não na verdade a casa da vovó fica atrás do Castanheira porque o shopping não é o quintal da vovó. Tá. Fomos lá para assistir O Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. Minha irmã ia com o Paulo Henrique e a Tiça (prima nossa) aí disse que queria ir também. Papai que não é besta nem nada mandou ela me levar pra fiscalizar ele. Eu que quero ser advogada adorei a missão! Ia poder acusar ele de abusar da minha irmã. Então fomos. Os quatro. A Tiça na frente porque estava chorando e eu não sabia porque. Minha irmã e meu cunhado sabiam mas porque eu sou uma criança ninguém quis me contar. Adultos...acham que escondem tudo da gente. Quando chegamos no shopping eles decidiram entre eles que não iam assistir e minha irmã com todo aquele jeito carinhoso de quem vai contar uma coisa ruim mas não quer que eu fique brava, me disse:

- Minha princesa, não vai dar pra gente assistir

Bom, ela faz isso muito bem. Consegue fazer a cara do gato de botas melhor do que eu a danada. Então voltamos pra casa. No caminho nos perdemos da Tiça. Ficamos sentados no banco do shopping. Eu só olhava pra ele. O cara que estava roubando a atenção da minha irmã de mim. Esperamos um pouco sentados, depois esperamos na frente da parte de trás do shopping. Os três em pé. Ele estava encostado numa cerca de ferro e minha irmã encostada nele. Que ciúme! Aí ela deu um beijo nele e depois me olhou. Rimos juntas porque ela sabia o que estava pensando:

-Vou contar pro papai!

Ele riu também. Não sei se percebeu mas foi a partir daí que fui com a cara dele. Quando fomos embora minha mana com todo aquele jeito de mãe me mandou segurar na mão do Paulo Henrique para não ficar do lado da rua. Aí fomos. Ele e suas duas mulheres. Lembro quando ele disse “to bem hein”. Me senti. Ele não é feio. É ele tava bem,com essas duas gatas ele tava bem. Depois desse dia passei a falar com ele todo dia. E ele sempre sorrindo. Gosto de quem sorri. Principalmente quem faz a pessoa que amo sorrir.

Artimanhas infantis

Alice Coelho

Pensava em como convencer a tia a deixá-la ficar. Já tinha percebido que no mundo dos adultos tudo é mais complicado: uns dias não querem, outros não podem, outros criança não entra, enfim, ela queria só um pouco de atenção e aconchego para matar a saudade. Sabia que, se fizesse a fatídica pergunta, correria o risco de ouvir um "sim, estou ocupada". Então a estratégia tinha de ser outra: Vim ficar com você, te fazer companhia.

A tia que não agüenta um dengo de suas sobrinhas, tão prontamente recebe o carinho, abraçou, beijou, fez cócegas. Emily não parava de dar risada. Naquele domingo monótono, ela tinha que encontrar um espaço para ser feliz. Daí então a consciência apertou e teve que soltar a pergunta que o pai a mandou fazer antes de sair de casa.

-Tia, meu pai disse prá eu perguntar se a senhora estava ocupada", disse ela sorrateiramente.

- Agora não meu amor, responde a tia, já prevenindo que a festa não duraria tanto tempo.

Gostando do aconchego, a menina de 6 anos percebeu que as coisas podiam ficar melhores. E resolveu sugerir de forma bem sutil que ela e a tia assistissem a um filme infantil.

- Tia, eu tenho tanto filme lá em casa. A senhora não quer assistir o filme do Pluto, não?

Na verdade, quem estava ansiosa por re-reassistir o Pluto era a própria. Sim, assistir de novo e de novo, porque ela , como faz com todos os filmes, assiste e reassiste e assiste novamente para não perder o costume.

A tia resolve ceder.

- Tudo bem meu amor, vá buscar seu filme.

Em instantes, com a cara mais moleca do mundo, volta com o DVD na mão. A tia coloca o filme e sai em direção à cozinha. Percebendo que ia sair algo de bom, a menina sai atrás da tia feito sombra. De repente, a figura feminina que seguia a sua frente simbolizou comidas diferentes, balas, refrigerantes e doces. Já pensando como ia pedir, esboça um sorriso maroto e pergunta o que a tia está bebendo. Não é preciso falar mais nada. Pedido entendido.

- Só não pode beber gelado. Espera um pouco, ok?

Para uma criança ficar feliz coisas simples bastam. Um filme bobo, um copo de refrigerante, seguido de balas e doces. Isso é suficiente para que a menina se sinta no céu. E aí resolve compensar a tia. Pensou em fazer uma carta, daquelas cheias de desenho. E fez. Mas isso não bastou. Fez outra e mais outra. Tudo para Emily não pode ser só um. Se for um só não tem graça.

ATIVIDADE OBRIGATÓRIA

CAFÉ COM PROSA DIA 25 DE SETEMBRO, SALA 00, às 18h30, PRÉDIO CENTRAL DA FSBA

NAS FILIGRANAS DO FATO E DA FICÇÃO: REFLEXÕES SOBRE JORNALISMO LITERÁRIO


No cotidiano do processo ensino-aprendizagem na esfera do curso de Jornalismo, é comum estudantes e orientadores depararem-se com dúvidas e angústias relativas à possibilidade de mesclar textualmente técnicas circunscritas ao universo do discurso jornalístico com técnicas literárias. Na tentativa de promover uma discussão mais ampla acerca dessa difícil questão é que o Café com Prosa apresenta uma edição centrada na abertura de possibilidades que a literatura pode oferecer aos padrões insistentemente reproduzidos pela atividade jornalística da grande mídia. Além disso, consideramos que a literatura pode auxiliar no desenvolvimento de alternativas de atitude do profissional de jornalismo frente à realidade.

Convidados:

Prof. Dr. Igor Rossoni
Professor, escritor e ensaísta, possui graduação em Arquitetura, mestrado e doutorado em Letras. É professor de graduação e pós-graduação do Instituto de Letras da UFBA.

Pablo Reis
Jornalista graduado pela Facom/Ufba, repórter do Correio Repórter, do Correio da Bahia, aluno da pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo.

Priscila Natividade
Jornalista graduada pela FSBA, aluna de pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo, desenvolve trabalhos na área fronteiriça entre Jornalismo e Literatura.

Minha dona, minha companheira


Paloma Batista
Au-au... sinto de longe o cheiro de minha dona. Sei que ela está chegando. Meu rabo involuntariamente já começa a balançar. Sei que ela odeia meus latidos, mas não consigo contê-los. Quando percebo a chave entrando na fechadura já começo a pular feito um canguru e quando a vejo começo a pular nela. Ela só me deu um bom dia! Nem fez festa pra mim, como fiz pra ela, foi direto para o seu quarto. Continuo insistindo vou atrás dela... pulo em sua cama... de repente escuto um “desce da cama”. Ela fica o dia inteiro fora e quando chega não me dá o mínimo de atenção, como pode isso? Resolvo não insistir mais, pelo menos por um tempinho. Vou para o meu cantinho ficar quieta... de tanto morder o meu bonequinho, fico com sede... meu pratinho está sem água. Vou até o quarto dela, percebo que está assistindo televisão. Começo a latir pra chamar a sua atenção... subo e desço da cama em uma velocidade impressionante, até que ela resolve se levantar e ir ver o que é. Fico ao lado do meu prato, cheirando, logo ela percebe. Depois ainda dizem que cão não pensa! Na volta já vou com ela para o quarto. Subo na cama e pulo em cima da sua barriga, começo a lhe lamber e a fazer carinho... logo sinto a sua mão passar entre meus pêlos e fico mole... Depois de um tempo ela pára... começo a insistir com a minha patinha pra que ela continue e escuto um “não pode dar a mão que você já quer o corpo inteiro”. Percebo que ela já está com sono e num último movimento ela me abraça, como se eu fosse seu ursinho de pelúcia na infância. Adormeço ali, nos seus braços.

Confissões de um cachorro

Por Emerson Santos



Ai que vidão que eu tenho! Me dão carinho, me dão comidinha muitas vezes na boca e eu adoro, só queria comer mais comidinha de gente, porque aquelas coisinhas em forma de bolinha e ossinhos, são ruins de mais, muito seco!!! durmo a tarde toda e de noite tenho muita energia, gosto de chamar a atenção dos outros, quero carinho, conforto e tudo mais! Poxa, porque não entendem às vezes o que eu quero dizer, eu falo, falo, e ninguém entende, língua mais doidas eles falam, cheio de sons estranhos, minha fala, que eles dizem que são latidos, é mais interessante, eles são é estranhos em? tem horas que eu não tou com saco pra nada, nada mesmo... me tratam como se eu fosse um idiota, bestalhado, eu em! quem entende esses humanos? eu é que não vou me esforçar pra entender eles, que nada!!! Eles não fazem esforço nenhum pra me entender, me dar o que eu quero.... é por isso que eu mordo, mordo forte mesmo... fico estressado, rasgo as almofadas do sofá mesmo, arranho a perna da mesa mesmo, ué!? Ninguém faz o que eu mando!!!! que droga!! O quê?? Au au pra você também cara pálida!! Não me deixam nem eu pegar as cachorrinhas que passam, e o rastro? Marco o meu território mesmo, pra todo mundo ver quem é que manda no pedaço... o gostosão aqui ó? Aqui mesmo, olhando pra você ai em frente a tv vendo as coisas doidas, eu já disse pra não pegar no meu lindo rabo, ai ai ai, que besta meu!! Pega no seu porra, eu em!!! ah sacana... pegou minha comida né seu rato miserável, vou falar com o mimoso, o gato meu vizinho de quintal, ele vai te estraçalhar todo, não vai sobrar nadica de você!! É o que? Pensa que é o Michey Mouse é?? Eu vou te dizer o que vai ser a Disney pra você, o inferno, seu rato de esgoto idiota, você vai ver, seus dias estão contados, vai virar comida de gato!! Fala sério, eu também não gosto de gatos não, eles são muito bobos, imbecis... o único que eu tenho uma certa ligação é o Mimoso, isso só porque ele me ajuda com ratos ladrões... digamos que ele é meu sócio!! Que nada, eu quero é curtir na rua, corta essa de ficar em casa no quintal! Quando saio, é com uma corda no pescoço, se querem me enforcar , que façam de uma vez porra!! Que humilhação!!! acho que dever ser bom ser livre como os vira-latas, é mais eles comem no lixo, tem que dividir entre eles, é elhor eu ficar aqui no meu cantinho mesmo, com minha vida de cão de casa, não de guarda, porque eu não trabalho de graça não!! Ué!! Me deixa latir porra? Ou melhor, falar alto né, fico uivando pra chamar a atenção né, e mostrar que eu tou aqui também na minha área, gente de fora, já viu né? É briga na certa!! Esses cachorros e pessoas de outras bandas, de outros lugares que nem sei onde fica!! tira essa menina daqui!! Que garota chata né, fica me pegando e levando pra lá e pra cá como se eu fosse uma boneca de pano!! Eu quero o meu osso viu? Vou enterrar logo dois, é isso mesmo, esconder, nunca se sabe o dia de amanhã, nem sei quando vou morder outro osso!!! Roer é muito bom, meus dentes ficam afiadíssimos!! Fiz cocô mesmo, agora limpe! Você não fica dizendo que é meu dono! Pera aí!! Não sou propriedade de ninguém, veja isso viu? Ó o meu xixi no tapete ai ó!! É melhor limpar porque senão sua mãe vai ficar uma fera, vai logo vai!! Vou deitar e não quero nenhuma palavra, ok? Pulgas??? Elas são canibais mesmo, fazer o que, nem consigo vê elas direito, coloquem remédio logo viu!!! Depois não reclama... aqui estou eu, na minha casinha apertada, deitado num pano, no quintal!!que vida em?

A borboleta que um dia foi casulo

Era uma vez um casulo muito novo e escuro. Vivia sufocado pela dúvida, a esperar pelo dia que transformaria sua angústia em borboleta. Não sabia o que esperava do lado de fora, mas almejava exaustivamente pela tal mudança. Mal sabia ele que precisaria esperar da natureza a decisão do primeiro bater de asas. Não, o casulo não esperou a ordem natural das coisas e simplesmente seguiu rumo ao inesperado: o dia que se transformara na borboleta Luana. Depois do seu primeiro vôo, ela foi triste. Vivia se culpando pela morte do casulo, até descobrir que foi preciso um fim para sua vida começar.


A história da Lua


Não. Isso não é mais uma fábula. Não falarei que a Lua escondeu-se atrás do sol, para dizer que Luana um dia foi Nivaldo. Nunca foi uma borboleta, mas deu seu primeiro vôo quando ainda era criança. Nunca foi um satélite natural, mas já precisou do calor do sol para se aquecer. Quebrou as asas, sentiu frio.

O pai negou-lhe abrigo ao descobrir que o garoto negro, forte e alto para aquela idade já se desvendara como uma “moça”. Presenciou uma troca de carinhos entre Nivaldo e o filho de seu chefe. Desde então, Nivaldo não tinha mais nada, além de nove anos e uma crise de identidade. Justifica sua história afirmando que “a alma é feminina, coisa que nasce com a gente, sabe?”. A alma não lhe bastava naquele momento. O único apoio veio da mãe. Fez o que pôde para o filho ir morar, pelo menos, com os avós, mas antes algumas surras foram suficientes para que sua mente pueril entendesse que fizera algo incomum. Os avós acolheram. Os avós maltrataram. Até se descobrir como Luana, era mais conhecido como “aberração”. Só depois de alguns anos entendeu que o incômodo de ter aquela aparência, usar aquelas roupas e ter aquele nome tinham outro significado. “Nivaldo morreu desde aquele dia, mas só foi enterrado quando eu tinha uns 15 anos”. Nasce Luana. Morre a avó.

O avô não aceitava o fato de ter um neto que já usava brincos e furtava algumas roupas da falecida avó. Luana não queria mais ter marcas do passado. Saiu do casulo e voou até Nazaré das Farinhas. Ao contar as histórias esforça-se para falar com naturalidade. Retêm a lágrima densa que insiste beirar as pálpebras. Sorri, gesticula. A lágrima cai e a máscara para cílios deixa uma mancha bucólica na face. Ela vira o rosto, como se o passado merecesse morrer de sede. Diz não ter vontade de ver a família novamente, mas quando fala da mãe os olhos ganham um brilho especial. “Ela aceitava tudo que meu pai dizia. Isso é o que me dói”. O tom da voz e o olhar desviado para o solo demonstravam que ela perdoaria a mãe. Hoje muitos quilômetros de distância a separam da dor. A família deve continuar morando em Governador Mangabeira. Luana já escondeu-se na carcaça de um carro velho. Ganhou um novo abrigo no ferro velho da cidade. Um Chevete já sem cor, sem vidros, bancos e sem esperanças. Às vezes ela acordava com um pesadelo ou com um tapa nos pés, que escapuliam para o vazio, onde deveria ter uma porta. Deve ser alguém caçoando daquele personagem singular do conservador interior de Nazaré. Hoje, ela mora num quarto retangular, doado, de alguns metros quadrados dispensáveis: só cabe a cama. É assim que vive Luana, entre piadas e caridades. Movida pela vaidade e pelo deslumbre, ela pede roupas e bijuterias para as madames da cidade. Vez ou outra ganha um belo vestido. Vez ou outra ganha uma risada de deboche. Finge nunca ligar para as desfeitas e oculta-se em críticas. “Você está muito magra!”, disse-me certa vez quando disse não ter um brinco dourado.

Luana também é esguia. Na cintura pouco curvada notam-se alguns músculos indesejáveis que tenta corrigir com doses de hormônio feminino. Os seios querem brotar, mas ainda são murchos, largos e odiados. Ameniza o problema com um sutiã de enchimento. Estica os cabelos crespos e usa-o lambido, escondendo parte da face. Para encobrir o sexo, usa uma calcinha apertada. Esconde dos outros e de si mesma. A anatomia confronta com sua identidade sexual. É um paradoxo inaceitável. Por alguns especialistas ela seria classificada como transexual, mas ela descarta rotulações do gênero. Esconde a carteira de identidade. Por sorte quase não a utiliza. Não tem cartões de crédito, tampouco vale-se do número de RG. Livra-se do sofrimento. “Não, meu nome é Luana!” Responderia aborrecida a maldita pergunta que tanto a maltrata. Algumas beatas da cidade a pirraçam referindo-se pelo nome masculino. Luana simplesmente continua com o seu andar. As “cadeiras” parecem soltar-lhe, o coração parece explodir. Ela chora por dentro.

Tem coração, mas prefere mudar de assunto quando é questionada a respeito. Diz já ter passeado com alguns homens de posse da cidade. A sua introversão é sinônimo de descontentamento. “Sou uma mulher que gosta de homem. Não um homem que gosta de homem!!”, sua fala demonstra uma visão preconceituosa, para quem sofre de tal. Sofre. Sofre intensamente por ser quem não queria, por não ser aceita como queria. Talvez nem todos entendam que Luana nasceu casulo, para, enfim, voar como borboleta.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Palestra "Jornalismo Investigativo" com Leandro Fortes

O correspondente da Carta Capital em Brasília, Leandro Fortes, é o convidado da terceira edição do Pílulas do Conhecimento de 2007. Com o tema "Jornalismo Investigativo", Fortes irá falar sobre os riscos, a ética e as premissas de uma boa investigação. A palestra será no próximo dia 24 (segunda-feira), às 11h, no auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA.Com 21 anos de profissão, Fortes já atuou em Salvador como repórter da Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia e TV Itapoan. Em Brasília, atuou no Correio Braziliense e nas sucursais de O Estado de S.Paulo, Zero Hora, Jornal do Brasil, O Globo, revista Época e TV Globo. Além disso, o jornalista também é autor de livros como "Cayman: O Dossiê do Medo" (2002, Editora Record), "Fragmentos da Grande Guerra" (2004, Editora Record) e "Jornalismo Investigativo" (2005, Editora Contexto).

O projeto Pílulas do Conhecimento é produzido pelo Petcom, o Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBA. Realizado desde 2004, o Pílulas é um evento aberto ao público, que procura trazer convidados para apresentar temas pertinentes à comunidade acadêmica na área de comunicação.

O quê: Pílulas do Conhecimento (Palestra com Leandro Fortes).
Quando: 24/09 (segunda-feira), às 11h.
Onde: Auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA.
Quanto: Gratuito.
Mais informações: (71) 3283-6186 / petcom@ufba.br

O peido no trem

Márcia Barreto
Brás para São Caetano, 17h30. Horário de pico em São Paulo. Um empurra- empurra, trem super lotado, a disputa por um lugar, não dava para mexer o pé. Era o início de uma viagem engraçada, batizada com o nome “o dia do peido de tia Márcia”.

Márcia Barreto, Gabriel Takeo e Camila Pinheiro são primos inseparáveis. Arrumadinhos, cheirosinhos e felizes, iam para o forró no dia 20 de junho de 2003 na cidade de São Caetano/SP. Pegaram o metrô na estação Itaquera, que ia para o Brás, e de lá tomaram o trem rumo a São Caetano. Ainda na estação do Brás, Márcia sugeriu carregar Gabriel, de apenas 3 anos, no colo durante a viagem até São Caetano. Ao lembrar que aquele horário seria difícil fazer a viagem sentados. O trem cheio seria um sofrimento principalmente para Gabriel. Falou Márcia ao “rapaz” Gabriel:

- Biel quando o trem chegar aqui na estação você vai no meu colo.

Ele respondeu irritado:

- Não quero que você me carregue, tia Márcia! Sou único homem e vou tomar conta de você e da minha irmã Camila.

Diante da revolta do pequeno rapaz, Márcia, Camila e as pessoas que estavam na fila acharam engraçada a tamanha irreverência do pequeno e deram risada. Isso deixou Gabriel extremamente aborrecido. Já que se considerava um homem e não queria ser tratado como criança.
Com a chegada do trem as pessoas desembarcaram. Os que estavam na fila só poderiam embarcar após todo desembarque. À proporção que as pessoas desciam do trem a esperança de surgir um lugar para acomodar o pequeno homem aumentava, o coração batia mais forte. Mas na hora do embarque veio à confirmação não tinha lugar e em fração de segundo lotou de tal forma que não dava nem para virar o pescoço. A preocupação com o pequeno Biel foi aumentando a cada passageiro que entrava no trem e as argumentações feitas por Márcia e Camila foram inúmeras.

Tentava Camila convencer o irmão de que aquela seria a melhor solução para ele:

- Biel se você não quer o colo de tia Márcia, venha para o meu. Se você for em pé vai ficar espremido. Podem pisar no seu pé e machucar.

- Venha Biel. Bi, fique no colo de tia Márcia, o trem está muito cheio e vão machucar você.

- Não quero, tia Márcia. Você é chata. Já disse que não vou.

O menino estava irredutível. Mesmo assim, Márcia insistiu várias vezes, calmamente, no intuito de convencer o garoto. Sem sucesso. Os três já dentro doquele trem abarrotado seguiram viagem. O trem sacolejava de lá, de cá. Só quem viajava próxima a janela podia desfrutar da paisagem, apesar de não ter muitas belezas naturais. Durante o trajeto a vista era de fábricas abandonadas, outras em pleno vapor, construções de casas na margem da linha do trem e em muitos trechos o cenário era de extrema pobreza. Ao olhar para baixo, Márcia viu aquele toco de gente espremido naquela multidão disputando um lugar com os demais passageiros, diga- se de passagem, todos adultos. Ele retribuía o olhar com um sorriso lindo no rosto. Uma felicidade. Para Gabriel passear com “Tia Márcia” era maravilhoso, ainda mais em companhia de sua irmã Camila. Era o trio maravilha. Eram parceiros inseparáveis. Tia Márcia por sua vez sempre paciente e amorosa, não via a hora daquela viagem chegar ao fim para tirar o pequeno daquele sofrimento. Gabriel ia curtindo a opção dele de viajar em pé no meio da multidão como um “homem grande”. O trem parou na primeira estação. As portas abriram pessoas embarcaram outras desembarcaram. O máquinista fechou as portas, deu o sinal e partiu. Depois de mais ou menos cinco minutos de viagem o trem chega na estação seguinte. Mais passageiros desembarcaram e embarcaram. O trem deu a partida. Mais uns seis minuto, já bem perto da estação de São Caetano, subiu um mau cheiro. Eis a conclusão: alguém peidou. Quando Márcia sentiu aquele fedor podre só tinha uma preocupação. O pequeno homem que, pelo tamanho, ficava na bunda das pessoas. Logo pensou a Tia, se foi um sacana desse que estar próximo a Gabriel, coitado do bichinho, está recebendo na cara. Naquela altura todos permaneciam paralisados, ninguém olhava para ninguém. Menos o garoto, que tentou mudar de lugar e não conseguiu de jeito nenhum. A raiva foi tomando conta do garoto. Quando Márcia olhou, a raiva pulava dos seus olhos do menino. Márcia num esforço enorme, pisando no pé das pessoas, se espremeu até que conseguiu pegar na mão de Gabriel e disse:

- Venha meu amor, para minha frente.

Com muita raiva, ele gritou:

- Não vou ficar perto de você. Tia Márcia você peidou aqui no trem. Você é chata.

Surpresa, Márcia tentou controlar o menino, que fala, gritava, mas não teve jeito, ele continuava gritando. Tapando o nariz com seus pequeninos dedos. Fazendo movimentos com as mãos para gerar vento e espantar o fedor do nariz. Ao lado Camila, quase sem conseguir falar de tanto dar risada, pedia para o garoto calar a boca insistentemente:

- Gabriel pare com isso. Não foi Tia Márcia que peidou. Cale a boca! Cale a boca! Biel cale a boca! Eu vou te bater.

Ai foi que Gabiel falou mais alto:
- Tia você tá podre. Nossa, que podre você. Não gosto mais de você.

Morrendo de vergonha, porque todos olhavam para a cena, Márcia tentava controlar Gabriel e nada. Até que o trem parou, para alivio da Tia, eles desceram na estação de São Caetano. Com o garoto preso a sua mão Márcia puxou para si, olhou dentro dos seus olhos e falou:

- Nunca mais faça isso. Se acontecer de novo você não sai mais comigo. E não fui eu que peidei.

O pequeno assustado começou a chorar e a abraçar a Tia e disse:

- Me desculpe Tia Márcia? Prometo que nunca mais faço isso. Mesmo que tenha sido você.


Márcia aceitou as desculpas e disse ao sobrinho:

- O que você fez foi muito feio e acontecendo de novo já sabe. Fica em casa!

Assim foram rumo ao forró onde encontraram a mãe e o pai de Gabriel. Dançaram até a madrugada do sábado, como se nada tivesse acontecido. No retorno para casa, o fato foi relatado aos pais do garoto, que indignados, brigam e avisam ao pequeno para não fazer mais aquilo e que ficaria no dia seguinte de castigo. Depois da sentença dada a Gabriel seguiram em silêncio até em casa. Chegando colocaram o garoto na cama dele para dormir. Tia Márcia, Camila e seus pais foram conversar na cozinha. O papo rendeu, a conversa rumou para o incidente do trem e não podia ser diferente, deram altas gargalhadas. E Tia Márcia antes de dormir falou aos pais da criança e a irmã:

- Esse é o nosso “Denis”

Já deitada na cama Márcia, ficou lembrando do peido e deu risada sozinha na cama. Até que adormeceu.



Ahhh, Caraíva!!!

Verena Cerqueira

Era uma tarde de julho. O dia estava lindo, podia-se sentir o sol queimando a pele. Estávamos em uma Sprinter, rumo a Dunas de Itaúnas, cidadezinha no litoral do Espírito Santo. Porém, resolvemos passar em Caraíva antes, cidade localizada em Porto Seguro, que, além de ser famosa por sua beleza, era conhecida pelo forró pé-de-serra também.

Após dez horas até Porto Seguro e mais três longas horas dando voltas pela estrada de barro, cercada de mato por todos os lados, finalmente avistava-se a pequena cidade. A excurssão era somente para Itaúnas, com isso, íamos somente passar por Caraíva, pois lá não tinha hotel, nem nada pago.

Ao avistarmos a placa “Bem vindos a Caraíva”, estacionamos e descemos da Sprinter. O carro teria que ficar naquele ponto, pois o único acesso à cidade era através de um lago, onde só podíamos atravessar em uma canoa. Já era noite quando caminhávamos em direção ao lago. O transporte custava R$ 2,50, pagamos e entramos na canoa. Cinco minutos e já estávamos do outro lado. Descemos e fomos conhecer a cidade.

Incrivelmente linda, sua beleza natural era incrível. Casinhas pequenas se espalhavam por toda a cidade, cada uma de uma cor. Não existia prédio, shopping, clínica, nada. Todas as ruas eram de barro. Apesar de ser conhecida como uma cidade, parecia mais uma vila. Podia-se dar uma volta pelo local em uma hora.

Paramos e fomos logo para uma padaria, a única que existia lá. Morrendo de fome, pedi um café e um misto, ao custo total de R$ 1,50. Quando estávamos todos sentados na mesa, conversando e comendo, de repente, tudo se apaga. Saímos da padaria na esperança de encontrar luz, mas nada. Alguns segundos depois, o dono da padaria avisara que às dez horas a energia de toda Caraíva era desligada. Somente as casas que possuíssem gerador tinham energia. Pensei, “meu Deus, esse lugar fora esquecido pelo mundo”. Logo depois, percebi que esse era o charme do lugar. Os restaurantes eram iluminados por luz de velas, assim como o restante da cidade.

Saímos da padaria e, sem enxergar muito bem, fomos em direção à praia. Caraíva contém a quinta praia mais bonita do Brasil, segundo a revista Veja: a Praia do Espelho. Porém, para chegar lá, é preciso andar um pouco e, como estava tudo escuro, preferimos não arriscar.

Passamos um tempo admirando a praia mais próxima. Sem nenhuma onda, parecia que a água não se mexia, o silêncio era tão grande que quase era possível ouvir o barulho dos peixes lá em baixo. De repente, ouve-se um som. A cidade era tão silenciosa à noite que se podia ouvir o barulho dos mosquitos. Seguimos em direção da música e logo reconheci a voz de um amigo nosso que tocava MPB e tinha uma banda de forró em Salvador.

Chegamos a uma pizzaria. Toda feita de madeira e iluminada por velas e candeeiros, tinha vista para o mar. Nem era preciso aquela quantidade de velas, pois o céu estava tão cheio de estrelas que iluminava o ambiente. No pequeno palco “Trio Cabelêra” fazia o forrózinho. A pizzaria estava cheia, dava pra ver que só tinha turista, até porque os moradores da vila eram quase todos pescadores.

Escolhemos uma mesa. Os bancos eram feitos de troncos de árvores e apreciamos a vista e o forró que rolava. Olhei no relógio, quase uma hora da manhã, o forró de verdade estava pra começar. Havia somente uma casa de show em que só tocava forró, todo final de semana. Quando chegamos na porta, compramos nossos ingressos e ficamos aguardando. Gente ia aparecendo de todos os lugares. “De onde veio todo esse povo?”, foi meu primeiro pensamento. Em pouco tempo a rua estava lotada de gente.

Estava ansiosa para entrar. Todos falavam do forró de Caraíva e eu, como professora de forró, não via a hora de averiguar. Umas duas horas da manhã e todos começaram a entrar. Já estava morta de cansada, a viagem havia sido muito cansativa, e não tomava banho a mais de 24 horas, fora que ainda estava naqueles dias. Duas amigas minhas não agüentaram e voltaram pro carro pra dormir, mas eu não podia perder a oportunidade de conhecer. Deixei o cansaço de lado e entrei na casa noturna.

Era o ambiente mais “roots” que já havia visto. Impossível melhor lugar para se dançar forró. Todo fechado e não muito grande, era enfeitado com candeeiros e coisas de madeira. Um pequeno bar e dois banheiros ficavam do lado esquerdo e, na frente, o palco. O forró já estava começando e eu, bem na frente, dançava sozinha. Não demorou dois minutos e um garoto me chamou pra dançar. Quando olhei, tinha certeza que era nativo, sua roupa e seu jeito não negavam. Fui meio insegura, “será que esse menino sabe dançar?”. A resposta veio em seguida, logo estava girando para todos os lados.

Daí em diante não parei um segundo. Terminava de dançar com um e já tinha outro do lado me chamando. Incrível como todo mundo sabia dançar ali. A noite passou tão rápido que, quando o forró acabou e saímos da casa de show, o sol rachava lá fora. Eram 8h da manhã. Acabada e quase sem forças, voltamos em direção a Sprinter, rumo a Itaúnas. Esse foi um dia inesquecível, um lugar que não existe.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Eita show esperado

Fernanda Borges

Sábado com mais um daqueles shows anunciados meses antes. Uma mistura terrível de forró, pagode e axé pela qual Luíza aguardava ansiosa. Na frente do shopping Iguatemi, estava ela pontualmente às 20h. Tinha marcado com algumas amigas de saírem juntas de lá em direção ao show. Horário marcado e nada dessas meninas aparecerem, ai meu Deus, será que já foram embora? Não, não é possível, eu cheguei na hora! Ah, vou ligar pra Ana e saber onde ela está.

- Amigaaa, cadê você? Já estou aqui na frente e ninguém apareceu ainda.

- Calma criatura, já estou chegando. Espere aí que as meninas também já devem estar a caminho.

Essa calma toda de suas amigas tiram Luiza do sério. Toda vez que marcam algo ela sempre chega antes. E acaba sempre por esperar. Que nada viu, ninguém merece essas meninas. Sempre me deixam mofando. Da próxima vez já sei. Vou chegar uma hora depois, só pra descontar. Minutos passam e chega uma das amigas que aguardaria mais alguns minutos pelo restante do grupo. E, se não bastasse, a van que levaria elas ao show atrasou também. A motorista não atendia ao telefone. Nenhuma satisfação e a ansiedade tomava conta de Luiza.

- Nossa, que irresponsabilidade dessa mulher, nós marcamos com ela e nada dela chegar. Acho melhor a gente pegar um táxi.

- Oxe, você tá maluca é Luiza? Vamos gastar muito mais com o táxi, ai vou ficar sem dinheiro e minhas roskas no show? Ficam como hein?

- Aff, melhor ficar sem as roskas do que perder o show. Fora que quero dançar muuuuitoo. Temos que chegar logo pra eu garantir meu par. Então, liga de novo pra essa mulher aí vai. Já perdemos umas duas bandas, que saco!

Luiza é assim mesmo, sempre muito agoniada com tudo, odeia esperar. E, enfim, conseguem falar com a tal mulher da van. Numa enrolada só, ela diz que outra pessoa irá buscar as meninas na frente do shopping. Seria numa sprinter branca com o nome “reportagem” escrito ao lado. Ai que chique, uma van com o nome reportagem, aí é que vamos chegar já abalando. Vou me sentir a estrela descendo do carro. Quero mais é fazer sucesso nesse show, hoje ninguém me segura. Essa Luiza realmente não tem quem segure.

Será que já chegou muita gente? Ah, tem que sobrar um gatinho pra mim, se não vou me retar. Tanta produção pra nada. Se bem que show de forró geralmente dá muito casal. Ah, mais não quero nem saber, vai ter que sobrar pelo menos um pra mim. Oxe, que nada viu?!! Não que eu esteja indo pra lá só pra isso. Mas também ir pra um show de forró, sem par e não arranjar um por lá, eu num mereço né? Ahh, deixa quieto. Vou me antecipar não. Deixa chegar pra ver o que é que acontece.

Eis que chega a tal van e as meninas seguem rumo ao local da festa. Animadíssimas, cantavam e dançavam dentro do automóvel preparando-se pro tal evento. Poxa, engarrafamento, era só o que faltava, é hoje que não chego nesse show. Tudo contribui pra dar errado, tô pra ver viu?! Ah, que ótimo, pensei que fosse demorar, mas já estamos chegando. Aff, quanta gente, tá bombando, hoje eu vou me acabar e só volto no lixo.

Depois de uma longa espera, Luiza consegue chegar ao seu tão esperado show. Enfim, chegamos. Nossa, já vi que vou me dar de bem hoje aqui. Quanto gato. Vixe, mas também tem muito guri, ih. Ah nem ligo. Também o importante é que estou com minha galera e vou dançar mesmo que sozinha até o amanhecer. Encosta n’eu, dá um cheiro n’eu, seu corpo no meu corpo deixa doido eu...Eita bagaceira.

As meninas conseguem então curtir o show. E Luiza? Ah, ela daria algumas “encostadas”.

Colo de mãe não se explica... só sente.



Silmara Miranda

Foi um simples tocar na cabeça, um afago, um carinho não esperado e ouviu-se um soluço, lágrimas rolaram em sua face. Uma tristeza estava presa no coração, precisando desabafar em um colo aconchegante e que lhe desse segurança. A angústia dos problemas em sua vida dava um nó em sua garganta, por isso não agüentou a mão de Mari em seus cabelos. “mas foi isso que eu sempre quis a vida inteira”, sentia no peito Suse, filha de Mari. Apesar de ter essa ligação de mãe e filha, de ter morado a vida inteira na mesma casa, Suse e Mari sempre conversaram e se entenderam muito pouco.
Suse, 27 anos, acabara de engravidar e sua relação com o namorado não andava muito bem. Mesmo sendo a filha do meio de uma grande família, cinco irmãos, nunca foi de trocar confidências. Os irmãos mais novos se espelhavam nos mais velhos e sempre viam no rosto de Suse a expressão “sou forte e me basto”. Ela sempre foi muito durona e calada em casa, os sentimentos repartia com amigos.
Sempre foi muito querida por todas as pessoas, todos adoravam Suse por ser atenciosa e amiga. Mas em casa mudava. Era distante, diferente, isolada. Em suas atitudes, suas caras, seu desânimo se percebia o “detesto essa casa” por ela nunca dito. Mas em sua casa eram todos assim, todos brigavam. O clima sempre foi de desunião com os pais, casados, e os irmãos.
Mas o tempo passara e, de repente, nessa outra fase de sua vida, ela sentiu a falta de apoio familiar. Amigos ela teria sempre, mas queria um colo do seu ninho, da sua mãe. A rebeldia da adolescência havia passado, ela via que estava completando um ciclo de sua vida, de filha, e agora daria início a outro ciclo, de mãe. Por opção própria, iria sair de casa, casar, construir uma família. Mas estava insegura com a gravidez não esperada e o relacionamento instável. Quando a mão materna pousou em sua cabeça, ela não conteve o choro silencioso “só me deixa chorar no seu colo, preciso desabafar, preciso de força para, a partir de agora, ser mulher para cuidar da minha família”, foi o que disse Suse no silêncio.

Novela do Buzú

Novela do Buzú

Carlos Jose Costa Correia

É, felizmente chegou à hora de eu ir embora para casa. Precisamente para minha cama. Não agüentava mais aquele dia chato, cheio de tarefas no trabalho e, pior ainda esperar a aula chata de Ética que finalmente terminou. Mas, enfim, ainda não era o fim daquele dia. Eu ainda tinha que ir ao ponto de ônibus e claro, esperar um pouquinho, ou melhor, muito, até meu buzú finalmente chegar.
E não é que ele chega! Agora todo mundo já viu e imediatamente todos correm para entrar por uma entrada estreita, que acho que mal dá para uma pessoa naquele desespero. Afinal depois de um dia cheio às 10 da noite, no mínimo você quer ir pra casa sentado.
A novela do buzú começa logo na entrada, quando na correria para entrar de uma só vez uma mulher cheia de sacolas, gordinha e baixinha grita:

- Uai! Quer me derrubar, pra que isso! Pede licença!
Como se ela fosse educada ou tivesse cobrando um bom comportamento. Mas, na verdade a mulher que reclamara, estudante da mesma Faculdade de todos no ponto, se irritou porque um cara passou na sua frente e ela perdia a vez de ser a primeira a entrar no buzú. Imagina o alívio de ser o primeiro a entrar no buzú. Você ter a certeza de que vai viajar sentado até o seu destino. Se for janela, oh glória, não vai ter ninguém se ralando ou esbarrando em você, porque claro, daqui há uns dois ou três pontos ele vai entupir. Sem falar no cochilo básico que agente dá que é uma maravilha.
Então, voltando à entrada do ônibus, eu estava atrás de umas cinco ou seis pessoas, já que o filho da... mãe, do motorista parou bem mas à frente de onde eu dera a mão. Quando cheguei perto da catraca havia uma menina morena, de cabelos encaracolados, com aquelas bolsas no braço direito que você automaticamente pensa, nossa ela deve levar um computador aí dentro. Quando ela colocou o cartão no leitor ouviu o barulho emitido pelo aparelho e atravessou, deixando o cobrador em estado de desespero:

- Olha seu cartão ta esgotado. – disse ele preocupado.
- Eu sei! Só tinha uma passagem. – replicou ela parecendo ter certeza do que estava dizendo.
- Não filha, eu to dizendo que você passou e seu cartão e ele já estava zerado!
- Como assim?! Eu mesma vi quando esse negócio permitiu a minha passagem, ta querendo me tirar como otária é?
- Não você é que deve ta querendo me tirar como otário...
- Se você tivesse prestando atenção no que você estava fazendo você veria que eu estou certa.
Nesse intervalo eu estava passando e não gostei nada, pois olhei pra traz e vi que a única poltrona que restava a menina do cartão acabava de sentar. E a discussão continuou:
- Ei, quer dizer que você não vai me pagar a passagem não né? – Perguntou ele já sabendo da resposta com um tom mais grave na voz.
- Agora! Eu já lhe disse que o meu cartão estava com uma passagem. Nesse mundo só tem esperto, só que besta eu não sou. – Respondeu com um tom de voz à altura do cobrador.
- Besta eu sei que você não é mesmo. Mas dois reais né minha vida não. Só podia ser essa raça de estudante.
- Raça não. Que eu não sou cachorro. Ta pensando o que? Ah meu filho, na minha casa todo mundo estuda, até meu cachorro e ele estuda pra ser cobrador de ônibus!
- Olhe você me respeite! – Ameaçou o cobrador tentando se levantar quando um rapaz tentou apaziguar a situação e até que ele conseguiu.
Acredite, essa discussão durou uns três pontos após da faculdade e o buzú continuava a encher. Eu um pouco mais à frente, com meu guarda-chuva, pra não dizer guarda-sol de tão grande que é, e com minha pasta pesada que ninguém se ofereceu pra segurar. Ôh raiva que me dá! Que custa? Afinal, quando estou sentado sempre me ofereço para segurar. Mas, enfim queria mesmo era chegar em casa e deitar na minha cama.
Ao chegar ao ponto do Farol da Barra, sobe um homem baixo, aparentando ter uns 40 anos, gordinho de óculos, com o bigode do estilo “Seu Barriga” de Chaves, com um cachorro preto dentro de um saco, daqueles bem grandes do Bompreço, com a cabeça pra fora e o resto do corpo pra dentro. Ah e com um guarda-chuva do tamanho do meu. O coitado olhou pra um, olhou pra outro até que um rapaz segurou seu guarda-chuva. Mas ninguém se mobilizou pra lhe dar um lugar. Então ele se agachou e quase sentado apoiou o cachorro no piso do ônibus. Após duas ou três poltronas tinham duas mulheres que riam baixo já em vê-lo com o animal dentro de um saco de pé. Quando ele agachou uma delas deu uma risada que parecia uma hiena no cio. Fazendo automaticamente quase todos no ônibus sorrirem também, inclusive eu. Não demorou muito e uma menina que estava com o namorado cedeu o lugar para o senhor com seu cachorro e sentou-se no colo do namorado.
Junto
Bom depois do barraco do cobrador e da menina da bolsa gigante, até que a história do homem deu um tom no mínimo sarcástico a o buzú que não parava de encher.
Já se passava quase meia-hora e meu ponto estava próximo. Finalmente iria descer daquele G.O.L. (Grande Ônibus Lotado). Então o sinal fechou e de dentro do buzú pude ver o aglomerado de pessoas no ponto, que já se preparava para dar a mão e tentar subir já que naquela a hora ele já estava lotado. O buzú é como coração de mãe, sempre cabe mais um, dois, três... O próximo ponto era o meu e depois de um dia exaustivo ainda tive de aturar uma velhinha que aparentava ter uns 50 anos, usava óculos, de pele clara, cabelos grisalhos e meio corcunda que anunciou ter perdido a carteira no ônibus:

- Motorista eu perdi minha carteira – Disse ela irritada.
- Senhora? – Perguntou ele, parecendo não ter ouvido
- Lembra quando eu subi, te mostrei o passe e agora ela não ta mais aqui na bolsa. Ela deve ter caído ou alguém me roubou.
Neste momento ela já estava de pé e empatava todos na saída do ônibus. Nós que íamos descer pedíamos licença e ela não saia do lugar.
- Senhora se alguém abrisse a bolsa da senhora aí sentada, a senhora veria... – disse uma passageira.
- Minha filha se estou dizendo é porque é verdade. E daqui ninguém desce até eu achar minha carteira!
Imediatamente todos começaram a resmungar no ônibus. A mesma passageira tentou outra vez:
- Senhora, já olhou direitinho?
- Olhe minha filha eu deixei a carteira aqui. – Disse ela abrindo a bolsa e então:
- Ah! Olha que cabeça a minha, ela esta aqui mesmo – Disse toda sem graça
- Ta doida tia?! – gritou um lá no fundão.
Ela se desculpou com o motorista e o pessoal e saltou totalmente sem graça. Então um passageiro disse ao motorista:
- Como é que vocês agüentam?
- Olhe velho nesse buzu tudo é passageiro.

Devaneio

Tâmara Oliveira

Um grito preso... uma vontade de...

Ah! Sei lá. Hoje acordei assim. Cabeça confusa, pensamentos dispersos. Uma hora eu quero sair, noutra quero ficar quietinha no meu canto. E lá vem eles... pequenos burgueses. Mal sabem o que é viver. Será que tenho a mesma essência? Acho que não. Ou será que eu estou em crise?!

Às vezes sinto que não estou bem comigo mesma. Há uma série de ilusões, sonhos utópicos que me consomem. A revolta toma conta da minha alma e tento buscar a perfeição. O que há de errado com o mundo?!

Essa noite sonhei com uma mulher. Ela invadia meu quarto e num acesso de fúria puxou meu braço esbravejando algo. Nossa! Que aflição. Corro pro quarto do meu pai, tento pegar no sono novamente. O dia começa tão sombrio quanto o sonho.

Repensei várias coisas hoje. Será que foi um aviso do subconsciente?! Será um aviso de Deus?!
Subconsciente... Deus... Céu... Inferno... Pecado...

Suspiros no ar. Lamentações. O que foi que eu fiz de errado?

Acho que vou voltar a frequentar a psicóloga. Ou seria melhor visitar um psiquiatra?

O mundo me consome cada vez mais. Mas eu tenho aprendido a conviver com ele. Aprendi a ficar alheia à certas imposições. Aprendi a ser feliz sozinha. A solidão é a nossa melhor escola. Criamos um casulo e permanecemos dentro dele, esperando a grande metamorfose. Ah Kafka! Você tinha que surgir logo agora?! Mas não entrarei nesse mérito. O foco principal neste momento, por mais narcisista que seja, sou eu. EU, que vim ao mundo para escolher o que é melhor pra mim. EU que estou sempre em busca da minha felicidade. EU que posso ser o que quiser e devo ter minhas escolhas respeitadas por todos.

Pequenos burgueses, vocês não sabem o que fazem. Vivem em seus mundinhos cor-de-rosa, embriagados pela futilidade. Nunca vivenciaram a miséria, tentam disfarçar a solidão, sempre em busca de atenção e de amor.

Amor, palavra que se tornou tão efêmera quanto as roupas de marca e os Orkuts da vida. Mas que, no fim, é o que todos buscam para serem felizes. Os vários amores que me rodeiam me completam. Contudo, ainda falta algo. Um pedacinho de mim... alguém pra preencher o vazio.

É... acho que vou comprar um cachorro.

Gente que faz

Lívia Melo

Tem gente que faz de tudo, trabalha, estuda, passeia, faz caridades, esportes, ginástica, se dedica aos filhos, à religião, a família, enfim, na rotina de mais um dia de trabalho, consumida pelo cansaço e agitada para pegar a primeira aula, chega ela a faculdade, Danutta de Araújo Rodrigues. Uma futura jornalista com sonhos de uma carreira promissora.
Nascida em 25 de janeiro de 1984, do signo de aquário, visão futurista é o que não falta, afinal, seu signo está à frente de todos os outros no zodíaco. Dotada de muita atenção às aulas e olhar fixo a tudo que acontece, a jovem de 1,53m, cabelos castanhos escuros na altura dos ombros, e pesando 56 quilos, não deixa escapar nada a sua volta. Sempre sorridente, esbanja simpatia e simplicidade perante seus colegas.
Na maioria das vezes postando uma mochila nas costas de tamanho volumoso, parece uma viajante, podendo até participar do programa “na carona”. Entre uma aula e outra procura sempre estar bem informada dos assuntos e trabalhos deixados pelo corpo doscente. Tímida para quem não a conhece e bem expressiva para os mais íntimos, a futura profissional das comunicações, vê que apesar do crescimento na área do jornalismo, pois a procura pelo curso tem sido bastante pleiteada, se preocupa com a falta de espaço para tantos profissionais.
Todos os dias no mesmo “bate canal” às 18:20, encontramos esta “pequena notável” na Faculdade social da Bahia (FSBA), no tramite para conseguir adequar seu curriculum. O esforço é grande, contudo não existe desmotivação, mesmo cursando matérias de semestres diferentes, que aos olhos dos demais parece mesmo uma salada de frutas.
Danutta por se baixinha, adora um salto alto, gosta de fazer caras de intelectual, tem bons relacionamentos com quem as conhece e segundo suas “falas”, adora ler. Moradora do bairro Costa Azul, mora com os pais, sua pretensão é antes de constituir uma família ser uma mulher bem sucedida, independente, apesar de ver na família a base de todo um alicerce. Numa porcentagem, podemos dividir sua postura, onde 50% de uma pessoa séria, firme, que contrapõe com seus 50% de engraçada, equilíbrio este que ajuda a observar e tomar decisões pensadas, na hora certa.
Como toda mulher para manter a forma, adora malhar, apesar de estar parada no momento, vive sonhando em perder aqueles quilinhos indesejáveis. Ir ao teatro e estar antenada com as novidades faz dela bem informada.
Sentada no fundo da sala, ninguém diz como esta pequenina tem tanta vontade de aprender, crítica, gosta de ser perfeccionista, se não fosse assim, não teria reformulado tantas vezes uma matéria a ser entregue antes mesmo do professor se quer ter olhado. Em conversas gosta de fazer perguntas, ir fundo nas coisas, contextualizar tudo, tendo vocação para repórter sem dúvidas.
O bom de tudo é que a pouco tempo, Danutta pode ser vista como “gente que faz”, amiga nas horas vagas e profissional nas horas precisas. Comunicação ta no sangue e com tanta vontade de conquistar seu espaço, a baixinha ta correndo atrás.

"Muitas coincidências "

Carlos Alberto > Carlos José

Mulato, quase um metro e setenta e sete de altura,cabelos curtos,cortado a maquina um,aparentando ser uma pessoa tranqüila , sempre discreto, meio calado, estilos parecidos,assim é um quase clone da FSBA.
Por incrível que pareça, existem muitas coincidências entre duas pessoas em uma sala de aula. Nos chamamos Carlos, temos as mesmas idades, moramos no mesmo bairro, ah, fisicamente também nos parecemos, assim dizem. Fala sério, o cara até usa óculos...
Ele veio de uma outra Faculdade e, até então, não tínhamos nos conhecido. É mesmo uma ironia do destino cruzar dois vizinhos em uma instituição. Hoje, posso vê-lo como um amigo, sempre estamos juntos, saímos trocamos idéias, estudamos juntos para as provas, nos falamos dentro e fora da faculdade.

Exercício de hoje - dia 17

Hoje é dia de exercitar um texto com fluxo de consciência. Escolha um personagem que você conhece muito bem, situe ele dentro de uma cena e desenvolva o fluxo. Antes disso, visite o site www.pucrs.br/gpt/fluxo.php.

Tente radicalizar a técnica ao máximo. Aqui podemos fazer isso. Mas sempre fiel, ao máximo, à realidade.

Leandro

“Choooorando se foi...”

Pedro Levindo

Já era tarde na cidade de Bremen, carinhosamente chamada pro seus habitantes de “o penico da Alemanha”, devido ao agradável clima gélido e chuvoso que impera por lá não apenas no inverno, mas também no verão, primavera e outono, e em outras estações, se essas existissem.

Embora a temperatura fosse sempre baixa, ao entardecer ela começava a baixar mais, como que avisando que, se você acha que está ruim, pense de novo, pois a tendência é piorar.

Percebe-se também, ao entardecer, a mudança de luz. Embora o sol só se ponha quando já é noite, a claridade já é menor ao entardecer. Essa mudança de luz era observada pela por um dos habitantes de um apartamento na mão muito simpática Kornstrasse. Das janelas da cozinha, enormes, de vidro, dava para toda a rua em frente, ampla e larga, o que permitia sempre o fluxo de uma brisa agradável - para quem acha que cinco graus Celsius é agradável (o tal habitante, de nome Gustavo, achava). Gustavo abriu a janela e deixou o vento entrar. Respirava o ar fresco quando João Carlos, vulgo Joca, Cabecita, Joãozinho e outros apelidos menos publicáveis, do alto de sua delicadeza, gritou: “Fecha essa porra!”. Como não era de ferro – afinal, vento frio tem limites, Gustavo fechou. Gritou de volta dizendo que fechou porque era diplomático, respeitava os colegas, etc. Não era por isso, mas também não custava nada valorizar um pouco.

Ainda na cozinha, Guga abriu o armário que guardava os mantimentos de todos. Assim como na geladeira, cada um tinha sua prateleira, que guardava coisas como pão, bolachas e outros alimentos não-perecíveis. No seu caso, guardava também um estoque de vinho, que hoje, para sua decepção, estava zerado. Ele pegou uma das deliciosas Dopel Keks, bolachas de alguma coisa desconhecida com recheio de chocolate, e comeu. Comeu outra. Decidiu parar em duas, mas terminou por pegar o pacote com mais de quinze, ir para o quarto, e devorá-lo todo lá.

Dividia o quarto com Gabriel, que, junto com ele, era o que provavelmente mais saía à noite. Não que os outros não gostassem de sair, mas Gabriel era o mais assíduo e independente, seguido por Gustavo, que tinha sempre que convencer um dos outros dois a sair com ele, porque sozinho também não dava.

Nesse dia bem que ele tentou. Todos os argumentos foram usados. O principal era que não dava pra ficar o dia inteiro dentro de casa num sábado e não entrar em depressão. Aparentemente Joca e Edu (João Eduardo, o último dos quatro), nesse dia, achavam que sim. E assim recorreu-se a Gabe, que quase nunca negava. “Pronde é que você vai hoje Gabe?”, perguntou Guga. “Sei não, tava marcando com os pernambucanos e com Cá Esponja (apelido não muito abonador de Carol, amiga dos quatro) de ir pra Gleis Neun”, respondeu ele. “Aquela lá depois da Bahnhof (estação central)?”, perguntou Guga. “É” - respondeu Gabe. A boate era meio longe e Gustavo nunca tinha ouvido falar nada de bom dela. Pensou três vezes antes de decidir, mas ao final disse que ia.

Chamou Edu e disse: “Pelo menos no mercado comigo você vai né!”. A cara do outro não foi das mais receptivas mas, ao final, ele concordou. Vestiram-se para enfrentar o frio. Não era preciso muito, contudo, pois o mercado ficava a menos de 100 metros do apartamento. Os produtos a serem adquiridos eram os mesmo de todo sábado à tarde: duas caixas tipo longa vida contendo cada uma um litro do pior vinho já produzido no mundo. Um euro cada. Oito reais ao todo, mais ou menos. Um preço até razoável para a preparação dos divertimentos por vir...

Compraram as duas caixas e voltaram correndo pra casa. Chegando lá, Joca olhou os dois, desceu os olhos para os itens na sacola e balançou e cabeça, como quem diz “já vi tudo...”.

Vira mesmo. O resto da tarde foi por Gustavo dedicada a tomar os dois litros de vinho - devidamente adoçados - na única taça que existia na casa. O ritual só se completava com um Diskman, que tocava músicas de axé, tecno e dance. A cena era ridícula, mas ao mesmo tempo engraçada, e para quem a protagonizava, no caso Gustavo, deliciosa, pois, embora possa não parecer, era divertidíssimo beber aquela porcaria ouvindo música e dançando feito um idiota dentro de casa.

A perfeição era completa, pois ao término dos dois litros Guga estava em ponto de bala. Ponto de bala significava que, chegando na boate, ele ia dançar. E nesse dia, especialmente, dançou.

Após uma pequena pausa para tomar banho no micro-banheiro, em que a pia ficava colada no vaso, que ficava colado no boxe, que só tinha água fervente ou gelada, estava pronto.

Gabe estava terminando de passar perfume. Viram o horário do trem. Três minutos, outro só meia hora depois. Como sempre, correram feito loucos até o ponto, conseguiram entrar pouco antes da porta se fechar e seguiram para a boate. Encontraram o pessoal na entrada. Geralmente tímido, Guga falou com todos, de forma educada mas sem muita intimidade (até porque estava meio bêbado e tinha uma imagem a zelar!).

Lá dentro a animação era completa. Para Guga, o efeito do álcool já começava, por incrível que pareça, a passar (bem, dois litros de vinho é muito, mas quando o ritual se repete por meses a fio, fica-se com uma certa resistência). Resolveu não arriscar nenhum passo de dança até se sentir, digamos, mais seguro. Foi então que Cá Esponja (apelido, vocês já devem ter percebido, naturalmente colocado por ela ter se especializado em absorver quantidades industriais de álcool) apresentou a solução ideal: começar a tomar cerveja, que, no caso alemão, trata-se de cerveja de verdade, não a água que se bebe aqui nos Trópicos. A quantidade também é peculiar por aquela bandas. Bebe-se em canecas, cujo tamanho padrão é meio litro. Essa noite cada um tomou uma, duas, três.

Ao final da terceira, a ponto de chamar urubu de meu loiro, Gustavo afinal resolveu arriscar alguns passos. Todos se divertiam com a música eletrônica quando, de repente, não mais que de repente, o DJ colocou uma música brasileira para tocar. MPB remixada? Pagode? Axé? Funk carioca? Não. A música era um clássico. Da lambada. Seu nome é Chorando se foi, maior sucesso do grupo Kaoma (ainda existe?).

Os brasileiros acharam estranho, pois a onda da lambada havia acabado por aqui há pelo menos uma década. As risadas foram gerais e amplas.

Ampla também foi a cobrança, por parte dos estrangeiros, para que algum dos brasileiros se arriscasse a dançar lambada no palco.

Gustavo nunca havia dançado quase nada, quanto mais lambada, quanto mais num palco. Contudo, dada a insistência geral e o nível alcoólico, eis que, num piscar de olhos a vergonha, a timidez e a insegurança arrefeceram. Num puxão de braço de Cá Esponja, em poucos segundos estavam ele e ela no palco dançando lambada, para o delírio da platéia que assistia. Dançaram até bem, até o final da música. Ainda repetiram a dose com outra canção, hit da mesma época.

Após a performance, como toda grande estrela, os dois desceram, chamaram Gabe e foram embora da boate.

Mico tem limite, e é bom impedir seu crescimento antes que se transforme num gorila...

A despedida

Daphne Carrera


No carro, o silêncio permanecia. A idéia de me despedir de meu primo já me deixava deprimida. E acho que a ele também, pois não trocamos nenhuma palavra durante todo o percurso até o aeroporto de Guarulhos. Meu tio estava ao volante, com seu semblante sempre sério e aqueles cabelos brancos que só ajudavam a denunciar isso. Falou de maneira firme pra meu primo, quando parou o carro na área de embarque da Tam:

- Você vai acompanhar sua prima no check in e levá-la até o embarque. Entendeu Rafael?
- Sim, meu pai. Já sei - retrucou de maneira agressiva.

Rafael, por trás da couraça de bad boy com roupas descoladas e cabelo desgrenhado, é um menino atencioso e carinhoso. Mas ai de quem falar isso.

Já com a voz mais serena, meu tio se virou para mim:

- Dá, foi maravilhoso ter você aqui conosco. Mande um enorme abraço pro Kadinha (apelido estranho pelo qual meu tio se remete a meu pai) e volte sempre que quiser.
- Pode deixar tio. Obrigada por tudo.

Nos abraçamos e, quando saí do carro, Rafael já me esperava com minha mala. Fomos caminhando para dentro daquele aeroporto frio e cinza, nos dirigindo até a área reservada para o check in da Tam, separada por faixas vermelhas. A fila estava um pouco grande, dava tempo para uma última conversa.

- Rafa, você faria uma coisa se eu te pedisse?
- Que é heim? Já fiz tudo por você esses dias – falou, em tom de brincadeira.
- Eu sei besta, mas não é algo por mim. É pela sua irmã. Tenta ser mais compreensível, ela ainda é uma criança e você não se cansa de brigar com ela. Não se mete nos assuntos dela, deixa meus tios resolverem isso.
- Eu não acredito Daphne. Eu realmente não acredito, todos esses dias eu fiz o impossível para tentar fazer você se divertir, te levar para lugares legais e você sempre me criticando. Até na hora da gente se despedir, você fica jogando na minha cara que eu não estou sendo um bom irmão pra Bianca?

Nessa hora meus olhos já estavam marejados, percebi que tinha sido muito rude com ele. Passamos dias maravilhosos juntos, na hora da despedida, tão horrível hora da despedida, palavras ditas de forma errada e os dois magoados.
Trocamos olhares, tentamos até um abraço. Mas ele não estava carregado de carinho como de costume e sim de decepção. A iniciativa partiu de mim:

- Tchau! – frio, seco.
- Você vai mesmo assim, sem me dar um abraço de verdade? – Rafael me questionou.

Só consegui balançar a cabeça, fazendo que sim.
Cada um seguiu o seu caminho. Não tive coragem de olhar para trás e fingi estar entretida com o cardápio de uma casa de pães de queijo. Quando na verdade nem sabia o que tinha escrito nele. Bateu um aperto forte no coração, um nó na garganta. Olhei para o lado com a expectativa de encontrá-lo. Nada! Numa atitude impulsiva, saí do saguão e fui até o local onde meu tio tinha estacionado. A única coisa que encontrei foi uma vaga absolutamente vazia.

Nos 50 minutos que se seguiram, antes do embarque, olhava por todos os lados na esperança de encontrá-lo. Na esperança que ele houvesse feito uma surpresa e voltado para me dar um grande e confortante abraço. – Acorda Daphne! Você não está em um filme (disse a mim mesma).

Embarquei e sentei na minha poltrona. Enquanto o avião ia decolando, deixava para trás toda a possibilidade de abraçar meu primo novamente.

domingo, 16 de setembro de 2007

Arte de Moleca

Midiã Santana

Estava eu com minha família em Arembepe, na casa que alugamos esse ano. Era um dia que prometia chuva, meio cinzento, bem sem graça pra falar a verdade. Nessa casa só tinham duas mesas, uma de plástico outra de madeira mogno, com 4 cadeiras cada, 7 colchões, um sofá, uma TV, e um rádio, para vinte pessoas. Em questão de móveis era uma catástrofe, mas na quantidade de espaço era uma maravilha. Havia uma varanda, dois quartos, duas salas, duas redes, uma garagem, uma sinuca, a coisa mais legal na casa, um jardim, e um quintal. Como o dia estava um tédio, resolvi subir na árvore que tinha no quintal.
Minha prima Elis tentou me alertar:
-Midiã, não vá, quando você cair eu vou rir.
-Que nada menina, é rápido. Vou subir aí você tira uma foto para eu botar no meu Orkut, ok?
-Tomara que você caia e se esborrache toda, aí com certeza eu vou tirar a foto.

Nesse momento eu fiquei com raiva de minha prima, pensei comigo, só porque ela é gorda, baixinha e sem condicionamento físico, ta com inveja que vou subir na árvore, e ela não.
Após essa praga de Elis, fui avaliar as condições da árvore, era um pé de não sei o que, a primeira vista inofensiva, era forte, com galhos firmes, folhas bem verdes, porém era meio difícil de subir descalça porque era meio áspera e poderia me machucar. Sem contar que tinham umas formiguinhas passeando por ela, na verdade eram uns insetos que eu acreditava que fossem formigas.
Pronto após tomar coragem fui tentar subir na bendita.
A primeira tentativa foi por água abaixo. O chão era coberto de areia, tinham uns gravetinhos provenientes da árvore, que ficavam machucando meu pé. Sem contar que a árvore enganava, era mais alta que eu pensava, e nem com meus 1,77 cm de altura, e minhas pernas de “flamingo”, eu conseguiria subir.
Minha prima estava sentada na mesa de sinuca, de frente para a árvore, ela não parava de rir, ainda bem que a mesa era de madeira resistente.
Não me dei por vencida. Fui à cozinha e peguei uma cadeira de madeira mogno, ela era bem pesada, mas eu tinha que subir naquela árvore de qualquer forma, não mais pela foto do Orkut, mas por mim.

-Menina, para onde você vai com essa cadeira pesada?
-Minha mãe, as de plástico estão ocupadas, vou pegar essa mesmo. É pra uma coisa que eu estou fazendo. Depois te falo.

Coloquei a cadeira em baixo da árvore, subi nela, e então comecei minha escalada. Coloquei o pé direito, estava difícil, infelizmente usava um macacão jeans que dificultava meus movimentos. Coloquei o pé esquerdo, meus cabelos enrolados e embaraçados estavam me atrapalhando por causa do vento, e eram mais um empecilho para concretizar minha tarefa.
Descobri que não tinha condicionamento físico. Enquanto tentava subir na árvore, ouvia vozes dizendo:
-Vai caiiiiiiiir!
-Olha a chuva menina, desça daí.
-Tomara que escorregue.

“Miseráveis, sacanas”, eu pensava. Nesse momento as vozes dos meus parentes se confundiam, não estava distinguindo mais nenhum som, só queria subir logo, tirar a foto e descer. Mas finalmente após subir na árvore com a ajuda da cadeira, veio outro problema, gotas de chuva começavam a me preocupar. As gotas molhavam as folhas, que molhava a árvore, que me desequilibrava e me deixava vulnerável.

- Tira logo a merda da foto Elis.
- Hahahahahahahahaha
- Cala boca sua infeliz, eu vou cair.
- Ô Midi desculpe, mas você ta uma comédia.
- Que inferno! Ô minha tia, mande sua filha tirar essa foto logo que está chovendo.
-Tô tirando já. Pronto, acabei.

Estava aliviada, agora era hora de descer. Mas onde estava a cadeira?

- Elis sua filha do demo, cadê a cadeira?
Enquanto eu subia na árvore, minha prima tirou a cadeira sem eu perceber.

- Hahahahahahaha
- Elis, eu quero descer, alguma coisa me mordeu e está ardendo. Vamo logo que está vermelho.

As formiguinhas, que não sabia que inseto era haviam me mordido. Meu pulso ficou com uma roda avermelhada, empolada, ardendo e coçando.
Depois de ver minhas lágrimas se misturando as gotas de chuva, e perceber o céu cheio de nuvens negras, Elis me ajudou a descer.
Fui correndo no banheiro lavar meu pulso. Lavei com sabonete, sabão em pó, álcool, e a ardência não parava.

- Isso que dá fazer arte de criança, uma menina de 20 anos na cara, subir em árvore.
- Minha tia fique na sua pra não ouvir o que não quer.
- Midiã respeite sua tia.
- Que arrependimento meu Deus, a foto ficou uma “droga”, me machuquei, e ainda tenho que ouvir reclamação de minha mãe.

A perturbação de Elis foi tamanha que a foto ficou sem foco.

Dia estranho

Midiã Santana

Ás 6:27 acordei desesperada, era o meu primeiro dia de estágio e já estava começando com o pé esquerdo. Como conseguiria chegar as 07:30 na Cidadela, sendo que moro no Iapi? Não sei como, mas levantei da cama, me joguei debaixo da água congelante do chuveiro, comi duas maças, e vesti a roupa, uma blusa de minha irmã de cor laranja e minha calça jeans de todo dia.
Depois penteei às pressas meu cabelo que mais parecia uma juba de leão, e arranquei mais fios do que desembaracei. Pronto, peguei uma carona no carro do meu pai, um Fiat Uno quatro portas da cor branca, na verdade já está quase amarelo de tão velhinho e encardido.
Desci do carro próximo ao ponto de ônibus, estava de salto alto, e andar de salto alto em uma calçada cheia de pedras é uma tortura. Peguei um ônibus Lapa, desci na Baixa de Quintas e peguei outro ônibus, um Pituba via ACM. Ainda tive que prestar atenção no ponto, pois não me lembrava direito do prédio referência, só lembro que era preto e vermelho, mas o nervosismo era tanto que já havia visto uns 20 prédios parecidos.
Quando desci do ônibus e consegui chegar à empresa, havia me atrasado 15 minuto, a primeira coisa que meu chefe me disse foi “boa tarde”. Mas depois soltou um largo sorriso que me acalmou. Ele é um senhor com cara de avô, não dá medo, tem cabelo branco, olho verde, barrigudo, usa óculos, é muito risonho, e ainda é menor que eu.
Após observar meu chefe conversar com os meninos que trabalham como programador e webdesigner, fui me adaptar com minha sala, que tem uma mesa cinza, um computador preto, e três cadeiras da cor laranja. Sim, cadeiras da cor laranja, na mesma tonalidade da minha blusa, era quase uma farda, só faltava a marca da empresa. Quando percebi a semelhança achei engraçado, porém cafona, e evitarei essa combinação futuramente.
Tudo foi um pouco estranho, eu a única mulher em uma empresa que só tinha homens. E era perceptível a hegemonia masculina naquele ambiente, o chão estava precisando de uma vassoura, cheio de pedacinhos de papel e sujeirinhas, o banheiro estava precisando de um banho, uma das salas tinha mais entulho do que materiais de trabalho.
O chão eu consegui melhorar e o banheiro, só Deus sabe o futuro.
Após ficar o dia todo na empresa, checando e-mails, fazendo ligações e atualizando o site, chegou o horário de ir embora. Me despedi do meu harém, e fui para o ponto pegar o ônibus.
Era noite, e eu tinha esquecido o meu óculos em casa. Começa o meu drama, não enxergo bem de dia, quem dirá a noite. Não enxergava o nome dos ônibus, quando conseguia ver, já estavam perto demais e passavam direto. Eu parecia uma velhinha no ponto apertando meus olhos para tentar ver alguma coisa, até que consegui pegar um Barra 2. E chegando na Ondina, ainda tive que andar por uma rua deserta, escura, cheia daquelas pedrinhas que incomodam muito pés que não estão acostumados com salto, para conseguir assistir a aula.

Playground Popular

Muitas pessoas escreveriam sobre o quarto, ou sobre a casa, mas eu prefiro escrever sobre um elemento importante na minha rua, o Campo de Futebol. São 80m X 25m de importância para os moradores. Um retângulo gradeado por pequenos quadrados de arame. As traves sem rede, estão enferrujadas, o teto é formado por uma tela de nylon que bloqueia o “vôo das bolas” em direção aos telhados alheios. As divisões como lateral e escanteio, são formadas com areia apenas quando é dia de jogo importante.
Eu não vou mentir, não vejo beleza alguma no famoso “Campo do Milho”, mas admiro o amor e a fidelidade que não só os moradores, mas muitas pessoas que moram em outros bairros têm por aquele espaço barrento rodeado por árvores.
O campo quase nunca fica vazio, pois sempre tem uma criança sem camisa, jogando descalça, seja em noite de chuva, com os holofotes acessos, ou um homem barrigudo, de chuteiras e uniforme do time, em um dia de sol escaldante esperando o torneio começar.
Ao redor do Campo, as casas, se misturam com a imagem desse elemento. Algumas casas sem reboco, outras com dois andares, garagem, pintadas, ou com azulejos, todas são diferentes, mas têm algo em comum, estão voltadas em direção ao campo.
Ao acordar e abrir a janela, a primeira imagem é o campo, ao abrir a porta e ir ao mercadinho, ele está lá de novo, sempre presente no olhar dos moradores.
Além das casas, outros detalhes na rua se confundem com a imagem do campo. Igrejas, de um lado da rua tem uma evangélica, modesta, um andar, pintada de branco recentemente, que antes não tinha nem nome, e um visitante poderia pensar se aquilo era uma igreja, ou um karaokê com “gralhas desafinadas”. Do outro lado da rua, tem outra Igreja, só que católica, com dois andares, espaço para o carro do padre, grades pintadas de azul, paredes de amarelo, e os ornamentos pintados de branco. Além das igrejas a rua tem um mercado, dois bares, uma associação dos moradores e duas escolas primárias.
Essas características tornam a rua um vilarejo, que se não fosse graças ao campo, esse playground popular, seria mais um terreno apertado por várias casas, repleto de becos, entradas que passariam apenas uma pessoa de cada vez, e carro levar até a porta de casa, seria um sonho distante.

Mulheres por um dia

Danielí Nunes

Período de férias em ritmo de carnaval, a casa lotada com 35 pessoas em plena agitação e, às 7h, já se escutam os primeiros passos, alguns só acordam ao meio dia, mas eu não estou inclusa nesse grupo de preguiçosos. A primeira a se levantar é minha tia Conceição, com intuito em querer arrumar tudo e fazer a comida pra hora do almoço. Logo depois, eu e minha mãe nos levantamos dos colchões em que estávamos deitadas na sala e minha tia começa a mexer nas panelas e falar bem alto:

- Chega de dormir, tá na hora de acordar, o sol já apareceu.

- Esse povo só quer saber de dormir e achar comida pronta - diz minha mãe, que começa a conversar. - Conceição, cadê Jé e João?

- Acordaram cedo, comeram e foram na padaria comprar o pão, o carvão e o bendito do cigarro.

- Sabia, João me acordou só pra perguntar se tinha cigarro em casa.

Com todo esse fala-fala na cozinha, não tinha aquele que não acordasse, pois a casa é de telha e o que se fala em um canto se escuta no outro. Todo mundo começa a se arrumar pra curtir o dia. Os homens com suas sungas coloridas com largura “cinco dedos” e as mulheres com seus biquínis minúsculos pra se bronzear no sol de quase 40º graus.

- Mãe, tem gente buzinando na porta, eu acho que é meu pai. Abre lá - diz meu irmão.

- João chegou, me ajuda a abrir o portão aqui meu filho.

- Quando João sai do carro, começa a perguntar pelo caseiro: cadê Jorge pra cuidar da piscina?

- Ele deve estar se maquiando pra sair nas Donzelas - diz minha mãe.

- Ele também vai? - pergunta meu pai, dando risada como se tudo já estivesse combinado. - Vou ligar pra ele.

Quando menos se espera, toca a campanhia e lá vou eu, toda gaiata, correndo ver quem tocou. Quando abro a porta me deparo com Jorge, Léo, Tampinha, Luciano, Ian, Gardenal e mais cinco homens que não conhecia, todos vestidos de mulher. Não contive as minhas gargalhadas que foram escutadas por todo mundo. Deixei-os entrar e, a partir daí, já viu, começou a baixaria, eles ficaram perturbando os homens que estavam em casa até que todos se vestissem de mulher também.

As mulheres logo aderiram ao espírito da coisa e cada uma vestiu o seu par da maneira mais feminina possível. Como eu não podia ficar de fora, vesti o meu noivo e aproveitei pra fazer a maquiagem de todos eles. Quando já estavam prontos, foi a maior festa, mais de quinze homens vestidos de mulher saindo de uma casa, parecia até uma passeata gay. Pra completar, meu pai era o comandante da frota, com um lindo sutiã vermelho, uma saia floral bem curta que, quando o vento passava, levantava. Uma margarida de plástico amarrada na orelha dava o toque final na montagem.

Saindo de casa, os “homens” foram para o ponto de encontro, na praça principal de Jauá. A partir dali, a festa começou, com direito a fanfarra e muita cerveja. Todo esse ritual foi pra comemorar o Carnaval de 2007 no trio sem corda das Donzelas, que acontece há mais de 20 anos em Jauá. Todos os moradores e veranistas participam da festa. Como ninguém quer ficar de fora, eu e as outras mulheres acompanhamos nossos maridos ou namorados na festa que só terminou quando a noite chegou.

Mas, no dia seguinte, uma nova festa foi feita, afinal de contas era Carnaval!

Sempre pode acontecer mais alguma coisa

Por Gabriela Marotta

Eram vinte horas e alguns poucos minutos quando, ao término de mais uma aula de segunda feira, fui caminhando de minha faculdade até o ponto de ônibus, esperar o único buzú que serve para eu voltar para minha casa. Tratam-se daqueles "ônibus-lenda", os que todos sabem que existe, mas poucos vêem (no horário certo, pelo menos). Lógico que eu já sabia que aquele "bendito" ia demorar e eu ia tomar o velho chá de cadeira de todos os dias.
O ponto tava abarrotado de gente ocupando, além dos quatro ou cinco banquinhos rachados, toda a aparte interna, pois o céu ameaçava chover, para enfeitar ainda mais o dia que parecia mais um exemplo de como por em prática as Leis de Murph, com direito a topadas na quina da mesa com os dedinhos dos pés e o pão cair com o lado da manteiga virado para o chão e, lógico, o clássico palavrão que vem logo em seguida, "P...que pariu!!!"
Assim que o ônibus chega, aparece aquele tanto de gente que eu não consigo entender de onde é que sai e tudo para pegar o mesmo ônibus. Pelo horário, eu já pensava comigo: “Pelo menos eu vou sentada até o meu destino”... Ô ilusão!! Aquele ônibus que parece mais um exemplo ambulante da teoria da conspiração, ou ainda como diria a minha mãe, a sucursal do inferno, havia se atrasado mais uma vez e, como não poderia deixar de ser, se encheu com todos os infelizes que tem que se servir dele nos horários antes de mim.
Entrei no ônibus. Vi a cena que já não me impressionava mais. Pessoas se esfregando nas outras tentando ir um pouco mais para frente, perto do motorista onde dizem ser o lugar que fica mais vazio, eu particularmente não acredito nisso. E só escutava:
- Licença, licença!
- Peraê motor.
-tsc...
Quando vi a situação na minha frente só pensava “quem vai ali é outro” e fiquei parada onde estava. Como dizem, fiquei “traseirando”. Pensei que se “traseirasse” meu sufoco seria outro. Mais uma vez me enganei. Durante todo o percurso da Garibaldi o ônibus só enchia e eu me vi ali, na mesma situação que tentava fugir, mas com um pequeno incomodo a mais, uma menina mais baixa que eu, com os cabelos molhados de tanto creme, ficava virando a cabeça tentando olhar os alunos de alguma escola que se sentavam no “fundão do buzú” tocando os pagodes do momento, perfumando meus braços com aquele cheiro de...de ... sei lá que cheiro era aquele.
Conformada com o sufoco, afinal já havia passado por isso antes e não tinha jeito mesmo, a viagem seguia tranqüila, se é que pode se chamar de tranqüila todo aquele empurra-empurra de pessoas cansadas e mal encaradas. O que me confortava mesmo era saber que quando chegasse a Brotas, a sucursal do inferno iria esvaziar e eu, finalmente, me sentaria. Foi o que aconteceu. Quando o ônibus chega ao final de linha de brotas e para no sinal da esquina onde logo ele viraria para seguir pela Av. D. João VI, como de supetão eu vi o cobrador se jogar no corredor do “bendito” e as poucas pessoas que restavam dentro dele se abaixarem nos bancos onde estavam. De repente, duas mãos surgem rapidamente segurando minha cabeça e quando eu já não entendia mais nada, só escuto uma voz mansa:
- Calma! Calma! Fique abaixada.
E eu, que continuava sem entender absolutamente nada, tentei em vão perguntar:
- O que está aconte...
E aquele rapaz, loiro, dos olhos azuis, bem atraente por sinal, me ordena:
- Já falei pra ficar abaixada, acho que é assalto.
-ASSALTO???? – desobediente, levantei novamente a cabeça.
-É! Mas não é aqui no ônibus não – disse o rapaz da voz mansa, bem contraditória as forças do braços, que insistiam em puxar minha cabeça para baixo.
- Meu Deus! Assalto. Eu não tenho nem um celular decente para levarem, vão me bater...Vão me matar. Eu vou morrer! Eu vou morrer! – Sussurrei para o rapaz, bem bonito diga-se de passagem.
Antes mesmo dos braços fortes e da voz mansa tentar me consolar novamente, e ainda bem que não foi preciso, porque mais um puxão daqueles, meu pescoço era torcido, ouvi alguém rindo:
-Há há ha há há. Ô cobrador, você é maluco é? Ta assustando as pessoas!! Há há há há há.
- Assustando nada ,véi. Vejo gente correndo com pedra na mão de um lado e do outro policiais com metralhadoras nas mãos e você acha que eu vou ficar aqui parado, é meu brother ? – Disse o cobrador tentando se defender.
Com a situação esclarecida - A policia havia sido chamada por causa do assalto que o supermercado perto dali havia sofrido e as pessoas correndo não passavam de pessoas assustadas iguais ao cobrador - Eu, toda desajeitada, fui tentando me recompor, ajeitando meu cabelo e mexendo meu pescoço para ver se estava tudo no lugar. Ainda tentei agradecer ao loiro do meu lado, mas o sujeito nem olhou para mim. Puxei conversa, e quando percebi que ele ia descer no ponto seguinte dei um “boa noite” ainda na esperança de que ele me respondesse, mas nem isso. Fiquei frustrada. Acho que ele não queria dar bola para a menina que queria se aproveitar da situação para paquerá-lo.
Quando finalmente chega perto o ponto onde vou soltar, levanto e vou puxar a cordinha, mas não a alcanço, tudo por conta da minha sandália que partiu e me fez tropeçar e cair por cima de uma senhora gorda cheia de sacolas que estava a poucos centímetros na minha frente. Ela conseguiu se segurar, mas eu não. E como se não bastasse a minha vergonha, após uma queda no mínimo bizarra, ainda tenho que escutar:
- Você não olha por onde anda, não? Podia ter me machucado.
- É, ainda bem que a senhora é macia – sei que foi a pior coisa que eu poderia ter dito, mas saiu, involuntariamente.
Antes mesmo que pudesse entender do que aquela senhora provavelmente iria me xingar, levantei do chão, peguei minha sandália e saí o mais rápido que pude daquela praga vermelha ambulante que é aquele ônibus. E quando quis esquecer tudo aquilo, alguém grita de dentro do ônibus:
-Mais cuidado da próxima vez, princesa.

sábado, 15 de setembro de 2007

Batata frita com farinha

Reinaldo Oliveira

20 de outubro de 2006.
Era uma sexta-feira típica de “água depois da aula”.o Point? Caranguejo de Ondina. Bar aconchegante com atendimento cortês aos clientes na Avenida Ademar de Barros.
O grupo os impenetráveis (Marco,Marcele, Reinaldo, Denise e Emerson) naquela noite decidiu se divertir um pouco e tomar umas.Marcele questiona se não tem nada pra comer:-Vamos comer o que gente?
-Sei lá, pede bata frita- sugere Deny. Mas Marco tem outra opção.
- Pede lambreta depois da batata. E com mania de chamar garçom de Osama, eu falei:
- Osama, traz mais uma.
Marcele é uma menina com o olhar inocente e que às vezes, por dengo arrasta a fala imprimindo em seu ser a idéia nacional de baiano falar arrastado. Com a freqüência que usa o seu jargão “meu físico não permite”, encanta os amigos e conquista seus espaços com facilidade de uma forma bem pacífica. Por outro lado, encontra-se Denise ou Deny um misto de menina mulher com um encantamento sedutor faz jus a beleza negra. E que se preciso for, ganha no grito com determinação e garra. Aliás, revolução é uma palavra que bem define esta mulher. Marco, é um jovem de aparência malhada que adora curtir a vida e tem a cara de cafajeste e, hoje não costuma mais sair com os impenetráveis desde que decidiu fazer uma mudança radical em sua vida. Desistir de ser jornalista pra ser engenheiro (vá lá entender a revolução deste cara com um jeito de pacato).
No decorrer da diversão vários assuntos são colocados na roda de conversa. Desde a vontade inesperada de Emerson pra ir a uma boate até o charme de Denise que consegue despertar interesse nas pessoas que estão ao seu redor.Enfim chega a bendita batata pois não agüentávamos de fome.
A azaração foi geral quando Emerson falou do tira-gosto:
-Farinha? Nunca vi batata frita com farinha .
Não conseguimos conter o riso e todos deram altas gargalhadas. Quando finalmente consegui conter o riso e responder.
-Isso não é farinha. È queijo ralado seu maluco.
Mas Emerson, não acreditou e insistiu.
-E porque veio numa farinheira? Isso aí é uma farinheira e lá em casa tem uma dessa.
Neste ponto, ele não estava errado. O queijo ralado realmente veio numa farinheira plástica de aproximadamente 10 cm de altura. Mas, a vasilha não vem ao caso; o importante mesmo foi a situação cômica que passamos nesta e em muitas outras situações envolvendo os impenetráveis. Desde as pérolas da FSBA (Faculdade Social da Bahia) ao corre-corre para realizar os trabalhos da faculdade e conciliara o horário de trabalho.De lá pra cá, não faltaram ocasiões de diversão para estes jovens universitários.

Problemas femininos

Helane Carine Aragão

Tatiana acordou deprimida e se sentia o pior ser do universo. Não conseguia ficar parada. Tudo lhe causava um nervosismo muito grande e sentia-se extremamente fogosa. Sentia-se como se ninguém a amasse, ninguém a queria. Olhou para a janela e começou a chorar porque estava chovendo. “Parece que todo mundo está prestando atenção em mim”, pensava para si enquanto se achava a criatura mais fútil do planeta. Começou a sentir raiva devido aos olhares e fazer grosserias era simples como respirar.

Ela ficou horas se perguntando o que havia feito de sua vida e programou todas as metas, até então não realizadas, para iniciá-las no dia seguinte, temendo não ter tempo para tudo. Não sentia vontade de trabalhar, de ir à academia, nem de conversar com ninguém. Entre o intervalo de tomar banho e sair de casa, brigou com a mãe, com a irmã, com a faxineira, com a “cretina” que ligou cedo oferecendo um novo produto da Telemar pelo telefone e com o cachorro do vizinho que latiu para ela, sem abanar o rabo.

Não conseguiu ver o telejornal matutino, nem entender o que metade dos e-mails queria dizer. Ela sentia-se fraca, cansada, sem energia até para xingar o motorista do ônibus que não parou no ponto e a ensopou com a água da poça de lama, pela qual passou por cima, ignorando-a. Não sentia fome. No café da manhã, virou o açucareiro, dentro da boca, e trocou a bela lasanha de molho bolonhesa servida no restaurante da empresa, por vários sonhos de valsa, enfiados de vez na garganta juntamente com os pés-de-moleque. Não conseguiu dormir e sentia muita insônia.

Não se reconhecia mais. Olhou para o espelho e viu outra pessoa com sua imagem. A pessoa era 20 quilos mais gorda e estava completamente desarrumada. Possuía olheiras que faziam-na parecer uma ursa panda. A barriga impedia a proximidade com a pia e a cara de bolacha assustava até o mosquito que tentava um ataque fulgás. Dentro de sua cabeça havia um trio elétrico realizando um encontro inusitado entre Chiclete com Banana, Timbalada e Asa de Águia e nenhum fiscal apareceu para realizar fiscalização sobre a altura do som.

O soutian pinicava o seio e a vontade era de arrancá-lo do corpo e jogá-los para bem longe. Os braços se sentiam pesados, assim como seu corpo inteiro que ia se arrastando sem saber para onde estava indo, quase curvado em cólicas, o que piorava as dores em sua coluna. Resolveu ir ao médico. “Preciso de uma droga bem forte que alivie meu sofrimento!”. A recepcionista era “o cão de calçolão” a sua espera e tornava tudo mais difícil. Por fim, o médico chamou-a e ela entrou no consultório.

- O senhor deveria instruir melhor a sua recepcionista, Doutor.
- O que houve?

- Não houve nada, por sorte o senhor me mandou entrar. Não gostei da forma com que ela me olhou! Ela me olhou com um sorrisinho cínico no canto da boca e me mandou entrar.

O médico balançou a cabeça, analisando as anotações.

- Então, é grave?

- Qual o período da sua última regra?

- A última chegou tem uns 25 dias. Acho que pode ser distúrbio bipolar, Doutor.

- Vou te receitar um calmante. Você deve ir para casa e evitar aborrecimentos.

- Não preciso de um raio-x de face? Pode ser um aneurisma. Ou um exame de sangue! Posso ter contraído uma virose mortal.

- Não, não. Você apenas tentará manter o controle sobre suas ações. Procure fazer refeições leves e saudáveis. Caminhe bastante e durma cedo. Se daqui a cinco dias você não se sentir melhor, você me procura novamente.

-O senhor tem certeza?

-Confie em mim.

Ela saiu do consultório mais aliviada. Ainda lhe restavam alguns dias de vida. No caminho, uma amiga ligou, chamando-a para tomar uns chopes. Recusou. “Estou sob orientação médica!”, explicou. “Vai que descobrem que eu tenho uma doença degenerativa e preciso ser internada às pressas para uma intervenção cirúrgica. Melhor não vacilar”, e desligou.

Passou pela frente da sorveteria preferida. Não resistiu. Entrou e comprou um dos bem grande, de coco com chocolate, com bastante cobertura de caramelo e castanha triturada por cima, além de vários daqueles biscoitinhos deliciosos enfiados ao redor. Perto de casa, passou na padaria e abasteceu as compras de petiscos para a noite, caso lhe faltasse sono outra vez. Na porta de casa, esbarrou com a vizinha, que proferiu a sentença de morte dela: “Tati, nunca mais eu te vi. Está mais gordinha, hein!”. Respirou fundo, deu um sorriso amarelo e entrou em casa. A vizinha enxerida escapou de receber uma “pet” de dois litros de Coca-Cola, ligth, na cabeça. Tatiana se jogou no sofá, com um pacote de batatas fritas, uma caixa de chocolate bis e uma bacia de pipocas.

Quase se afogou em lágrimas assistindo “Procurando Nemo”, até que pegou no sono, exausta. Acordou sua mãe, no meio da noite, devido a um palavrão proferido em voz alta. A mãe preocupada voou pelas escadas para ver o que havia acontecido.

- Esqueci de comprar absorvente!

Despertar em queda

Andréa Silva

Há três dias tenho dividido à cama onde durmo com o meu filho de três anos. Não para satisfazer aqueles caprichos, bem típicos desta idade, que deixam as crianças com mania de sair do quarto delas e ir para a cama dos pais. A decisão de deixar Otávio dormir ao nosso lado foi para vencer a difícil tarefa de, finalmente, tirar a fralda descartável da vida dele.

Ainda me lembro do dia em que fui comprar um pacote de fraldas, quando ele tinha cinco meses. Nas prateleiras do supermercado, numa sessão só para bebês, eu procurava um pacote tamanho “P”. Meus olhos não foram capazes de enxergar uma única embalagem numa pilha delas, arrumadas de forma errada, com a identificação escondida. Um funcionário que estava por perto notou a minha angústia e tentou ajudar. Depois de uma rápida conversa, ele me deixou preocupada, impressionado com o fato do meu filho ainda usar fralda tamanho pequeno.

Não tive ânimo para responder ao funcionário do supermercado. Fiquei desapontada. Meu filho nasceu saudável, com cerca de três quilos. Naquela fase, ele era um bebê magrinho, enxuto, dizia minha mãe. Mas ele ainda não tinha conhecido nenhum outro alimento a não ser o leite materno.

A minha sabedoria de mãe me encheu de força. Peguei o pacote de fralda da mão do rapaz, apenas agradeci e fui para o caixa. Ele não sabia o que estava dizendo, pensei, não deve entender nada de bebês! Nem deve entender do produto. Produtos que as mães compram naquele setor com cheirinho de neném.

Três anos se passaram e o meu “negão” – é assim que o chamo, um dos dez apelidos que tenho mania de inventar. E olha que ele é branquinho, puxou ao pai, mas nasceu na Bahia e tem o nosso sangue negro nas veias - está crescido, um rapazinho que passou das fraldas p, m, g, xg, xxg, hoje, nem um modelo cabe mais no bumbum gorducho e branquelo.

Adotei a estratégia de dormir com ele para pelo menos duas vezes por noite ir ao banheiro com o “nego” no colo. Ele nem abre os olhos para fazer o tal xixi. Em pé, no vaso sanitário, encosta a cabeça em meu ombro, como se estivesse na cama. Foi assim na madrugada passada.

Depois de uma noite de sono interrompido várias vezes, acordei num cantinho da cama onde mal cabe dois e agora é ocupada por três. Eram seis da manhã quando olhei para o relógio de parede. Voltei a cochilar, esse foi o meu erro. De repente, levei um sopapo de pernas e quando percebi estava no chão em cima de dois travesseiros que foram colocados ali para proteger o filho e não a mãe, no caso de uma queda.

“Estou de bem com a vida!”, pensei rindo da situação. Levantei do chão e percebi que não tinha mais tempo para nada por causa da aula marcada para às 8h. Encarei uma rápida ducha para despertar, a primeira roupa que vi no armário se tornou a melhor para esta
manhã de sábado. Nem deu tempo tomar café em casa. Despedi-me com beijos, uns apertos no maridão enquanto comia uma banana, fonte de potássio para começar o dia. No carro, lembrei de uma padaria perto da faculdade que serve café a preço acessível, dá para comer bem por R$ 3. Achei estacionamento fácil por causa do horário, lugar para sentar também tinha para escolher. Pedi uma média com leite e um pãozinho. Tive vontade de comer um sonho que o padeiro acabava de colocar na vitrine. Lembrei da minha juventude, tardes e mais tardes sentindo o cheirinho do sonho com goiabada, especialidade da minha mãe que fazia doces por encomenda para ajudar na renda de casa. Fiquei só no pãozinho, meu medo de engordar anda aguçado. E a orientação do endocrinologista é não exagerar nos carboidratos.

Da padaria até a faculdade são pouco mais de 500 metros. Tive dúvida se a aula era no prédio central. Como encontrei vaga na frente do edifício, preferi seguir o meu instinto. Tinha imaginado que a aula seria no laboratório do terceiro andar.

Fui a primeira a chegar, só o professor conseguiu ser mais pontual do que eu. Leandro já estava na sala lendo os nossos textos no blog. É com ele que estamos descobrindo a deliciosa narrativa do jornalismo literário. Tão bacana que até consigo transformar as primeiras horas deste dia numa historinha simpática, acho eu.

De ressaca para a aula

Aline Moita

Há uma hora e vinte e cinco minutos começara o meu dia. Numa ressaca danada da noite passada, acordei por meio dos “tic-tacs” do despertador para o meu primeiro compromisso do dia, aula de Redação III, às oito horas. Displicentemente, comecei a procurar o despertador. Quando achei o objeto tocante, o desliguei imediatamente, mas ainda insisti em ficar na cama mais cinco minutinhos. Fiquei com medo de ser pega pelo sono e, mesmo pestanejando, peguei minha Bíblia e comecei a orar os cinco salmos que eu rezo todos os dias quando acordo. Assim, já protegida pelos santos e anjos, levantei-me da cama e comecei a forrá-la. Abri a cortina e a janela e um lindo sol entrou nos 12 metros quadrados do meu quarto. Entretanto, isso não foi o suficiente para me deixar em pé. O meu estômago já começara a reclamar, então, me dirigi à cozinha.

No caminho entre a sala e a cozinha já imaginava o discurso da minha mãe sobre a hora em que havia chegado, na madrugada, mas logo fui tratando de dar um bom dia bem eufórico para não haver discórdias. Na fruteira, peguei a minha bananinha de todas as manhãs, fatie-a e coloquei junto ao leite de soja no liquidificador. Para deixar mais incrementada a minha vitamina de banana, coloquei algumas colheradas de farinha láctea e bati tudo. Enquanto a banana e os outros ingredientes eram liquidificados, peguei a torradeira e esquentei meu pão. Desliguei o liquidificador e me dirigia à mesa para buscar a manteiga. Foi então que percebi que eu era a primeira pessoa da casa a tomar café. Impressionante, nunca sou a primeira! Sentei-me na mesa e degustei da minha primeira refeição do dia.

Para não perder o ritmo, entrei imediatamente no banheiro antes que alguém passasse na minha frente. Não seria justo que isso acontecesse. Eu fui uma das primeiras a acordar e a única a ter compromissos pela manhã. Tomei um banho bem rapidinho e dei maior a atenção aos meus dentes que, com a utilização do aparelho ortodôntico, precisa de alguns cuidados. Arrumei-me apressadamente com a primeira blusa que encontrei no guarda-roupa, uma blusa estampada que, por sinal, seria comentada na sala por ser comprada da C&A. Usei a calça que geralmente uso para ir à faculdade, um jeans comum. Coloquei o relógio, pois não sei sair sem ele, e peguei a minha bolsa e o meu caderno. Dispensei a troca de bolsas, pois não estava a fim de fazer combinações pela manhã. Despedi-me da minha mãe, que já estava na cozinha tomando café, chamei o elevador e desci apressadamente, pois já estava em cima da hora.

Atravessei a garagem e fui ao encontro do meu carro, liguei-o, abri o portão da garagem e segui em direção à faculdade. Atravessei toda Avenida Manoel Dias da Silva, depois segui pelo bairro da Amaralina, do Rio Vermelho e, finalmente, cheguei em Ondina, onde fica localizada a faculdade. Ao chegar em frente ao prédio da Agência de Notícias, percebo que não tenho onde estacionar. Então, dei a volta no quarteirão e estacionei em uma das transversais da Avenida Adhemar de Barros. Com os livros na mão, passei pela frente do ponto de ônibus e cheguei na frente do prédio. Achei que havia algo de estranho, pois não havia nenhum movimento de pessoas. Dirigi-me à recepção e fui informada pelo porteiro que a aula seria no prédio central, na sala 309. Quinze minutos atrasada cheguei para o meu primeiro dia de aula aos sábados. Que terror! Agora vou ter que conciliar a aula e a ressaca do dia anterior.

Acordar, que maravilha

Márcia Barreto

Sete da manhã, o despertador do celular tocou. Dei um toque e desliguei. Virei na cama e, depois de cinco minutos, ele despertou novamente. Percebi que não tinha jeito e levantei, ainda com muito sono. Corri para o banheiro tomei um banho frio, escovei os dentes, fui para quarto, coloquei a roupa, andei rápido até a cozinha, sentei na mesa do café, onde minha mãe já estava tomando o seu desjejum.

Conversamos sobre o dia de ontem. Ela, para variar, começou conversando, brigando, porque só durmo depois de uma da manhã. Adoro a madrugada no meu quarto. É o momento ideal para estudar, ficar sozinha, planejar o dia seguinte e depois de um tempo, lógico, dormir. Na tentativa de explicar o motivo, lembrei que foi meu aniversário e, até tarde, amigos e parentes estavam telefonando para desejar feliz aniversário – adoro o dia do meu aniversário, fico feliz, eufórica e cada ligação recebida festejo muito -, já que todos sabem que chego tarde da faculdade. Mas não houve jeito, ela insistiu que o mesmo acontece todos os dias e ela não acha certo. No meio da conversa terminei de tomar meu café, fui ao banheiro, escovei os dentes, retornei para o quarto, passei hidratante no corpo, com cheiro de erva doce, que me deixa relaxada e preparada para iniciar as tarefas diárias. Coloquei perfume, atrás das orelhas e no pescoço, com cheirinho de neném, adoro esse cheirinho.

Arrumei o material que usaria na aula de Redação III, peguei a bolsa, conferi os documentos – RG, carteira da faculdade, estojo - com lápis, caneta, borracha -, coloquei na mão e saí de casa andando bem rápido porque já estava atrasada.

Quando cheguei no ponto de ônibus, fiquei por uns cinco minutos e logo avistei o maluco “Gargamel”, que vinha andando pela Avenida Manoel Dias da Silva. Assustada, comecei andar para trás e ficar no meio das outras pessoas. Ele só ataca mulheres. Dizem que matou a própria esposa com uma pá. Recentemente, atacou uma amiga minha na porta de casa e, para sorte dela, o marido apareceu e entrou em luta corporal com ele. Se o marido não aparecesse, Gargamel teria matado ela, tamanha era a raiva e a agressividade com que ele foi para o ataque. O que me deixa indignada é que ele circula normalmente pelas ruas da Pituba, Amaralina, Nordeste, Santa Cruz e nenhuma atitude é tomada. Hoje, para minha felicidade e das demais mulheres, ele passou pela frente do Bradesco. Enquanto isso, as mulheres que conhecem ele tentam se proteger. As que não sabem de nada, ficam expostas ao perigo.
Logo em seguida, o bus passou. Por sorte, não estava cheio, o que me causou extrema felicidade, quando pensei não vou em pé. Entrei, sentei e o percurso foi feito sem nenhum problema, trânsito livre, ruas sem congestionamentos e, em quinze minutos, cheguei na faculdade.

Desci do ônibus, atravessei a rua olhando de um lado para o outro, para não ser surpreendida por nenhum motorista doido. Cheguei na porta do prédio central e fui informada que a aula seria na sala 309. Peguei o elevador e entrei na sala. Sentei em um computador e, na lousa, já estava a tarefa do dia. Comei a fazer e eis aqui o resultado do trabalho. Uma narração do meu acordar até chegar aqui.

Ninguém merece!

Por Verena Cerqueira

6h30min da manhã, e o celular começa a tocar. Imaginei quem estaria me ligando àquela hora, e ainda, organizando meus pensamentos, percebi que era o alarme me avisando que já era hora de acordar.
Desliguei rapidamente e fechei o olho ainda sem captar direito as idéias. “Mas hoje é sábado”, pensei, “porque meu celular esta despertando?”. Alguns minutos depois, com as idéias se reorganizando na minha cabeça, abri novamente os olhos lembrando que hoje teria aulas às oito da manhã.
“Ah, não vou não, ninguém merece aula sábado as oito da matina”. Foi meu primeiro pensamento. Virei pro lado e voltei a dormir.
Minha tentativa de dormir não durou muito tempo, meu pai entrou no meu quarto, instantes depois, pedindo para que eu levantasse. Rapidamente, levantei da cama, peguei a primeira roupa que vi no guarda-roupa e fui para o banheiro.
Ai veio à parte mais difícil. Quanto mais cedo você acorda, mais difícil entrar no chuveiro. Na posição “inverno”, a água ainda estava fria, e só depois de uns cinco minutos de tentativas fracassadas, entrei no banho.
Ao sair, me enxuguei rapidamente e coloquei a roupa, na esperança de me esquentar mais um pouco, e, ainda insatisfeita com o frio, sai do banheiro e coloquei o casaco.
Sem nem arrumar a cama, afinal, estava muito “lenta” pra fazer qualquer coisa, me dirigi à cozinha para preparar o café. Coloquei água para aquecer, preparei o pão integral e fui para sala ver televisão enquanto a água fervia.
Nesse meio tempo, minha mãe já havia levantado para me levar à faculdade. Meu pai tinha saído para o, imperdível, jogo de tênis e alguém precisava me trazer. Pegar ônibus sábado de manhã do Imbuí até Ondina era para matar qualquer pessoa, já basta fazer esse trajeto duas vezes por dia durante a semana.
O barulho da água me avisava que era hora de tirá-la do fogo. Coei o café, coloquei na xícara e comi com o pão integral que havia preparado.
Assim que acabei, escovei os dentes, calcei as sandálias, peguei a bolsa e voltei para televisão.
Minutos depois, minha mãe saia do quarto, já arrumada, em direção à cozinha. Tomou seu café e avisou que estava pronta para sairmos.
7h40min e estávamos no elevador eu, minha mãe e Scooby, meu York Shire de três anos, que não pode ver uma porta se abrindo que sai. Descemos, indo em direção ao carro, e saímos de casa, e, sabendo que a orla, em algum trecho, estaria engarrafada, decidimos ir pelo Iguatemi, além de ser mais perto.
Pegamos quase todos os sinais vermelhos, meu cachorro não parava de tremer e se mexer em cima de mim, mas o cd de MPB que tocava no rádio, nos distraia, tranqüilizando-nos.
8h05min minutos cheguei à faculdade para mais uma aula de Redação III, com o professor Leandro Colling.
Nesse exato momento (9h14min), acabei de digitar este texto narrativo, como mais um exercício passado pela disciplina.

O zíper

Por Helane Carine Aragão

Pi-pi-pi. Pi-pi-pi. 06h30. Sábado! Abri os olhos com vontade de arremessar o celular longe. Preciso lembrar de comprar um despertador para os meus momentos de fúria e mau humor matinal. Levantei de impulso e sentei-me à cama. Os olhos demoram um pouco para abrir. Resolvo que, ou me levanto, ou me levanto. Não tenho muita opção. Coloco meus óculos no rosto e desço as escadas. Acendo o fogo para a água do café enquanto o computador iniciava. A preguiça pela manhã me mata. Fora à maneira brusca que levanto meu corpo da cama, os outros movimentos são quase em câmera lenta. Na preguiça de subir as escadas tão logo cedo, já deixo um kit, com escova de dente e pasta, na pia do lavabo. Agora entendo o quão útil é um lavabo!

Depois de enxugar o rosto com a toalha felpuda que minha mãe deixa no banheiro, sento-me ao computador para ver meus e-mails. Nada. Frustração. Namoro à distância e há três dias não nos comunicamos. Brigamos por uma destas besteiras que namorados brigam sem se dar conta. O fato é que eu não escrevo e nem ele escreve e ficamos esperando ver quem escreve primeiro. Um chiado vindo da cozinha me tira do transe. A água está pronta para coar o café. Gosto de tomar café, bastante café, bem forte, numa caneca grande de louça marrom. Com adoçante.

Eu tenho uma coleção de canecas, de cores e tamanhos variados. Adoro! Após o primeiro gole estou pronta para enfrentar as escadas e me proporcionar um banho gelado. Visto a farda da empresa, camisa preta e calça idem, maquio o rosto, penteio os cabelos, minha mãe pergunta, sem levantar da cama, onde estou indo tão cedo. Forneço o relatório do meu itinerário e estou pronta para sair. Antes de trabalhar, aula na faculdade às oito horas. Abro a porta e avisto um vizinho passando de carro. Berro implorando uma carona e fico feliz por não ter que enfrentar um ônibus cheio, pelo menos por um dia. Vou quase dormindo no banco detrás enquanto o vizinho conversa com a esposa e a filha durante o trajeto.

De minha casa até a faculdade, de ônibus, gasto em média 45 minutos todos os dias. Não é nada mal, apesar da cadeira dura e incômoda do coletivo. Moro numa cidade litorânea e a linha de ônibus que utilizo para meu deslocamento vai beirando a orla marítima. Praia por praia: Piatã, Patamares, Pituaçú, Boca do Rio, Costa Azul, Pituba, Amaralina, Rio Vermelho e, finalmente, Ondina. O sol da manhã é gostoso de sentir no rosto junto com a brisa que entra pela janela. Acabo lendo durante o circuito e nem me dou conta do tempo que gasto todos os dias. O vizinho deixa-me num ponto de ônibus no centro de Salvador, vinte e cinco minutos depois de sair de casa. As lojas, os restaurantes e os escritórios se preparam para mais um dia de comércio. O último da semana. Assim que desço do carro, sorte! Passa um ônibus vazio, com lugares à vontade para escolher e que me deixará na porta da faculdade. Nem a rua vou precisar atravessar.

Estou em cima do horário, oito em ponto. Uma colega me liga me informando a sala. Subo as escadas e o porteiro me recebe com um “Bom dia!”, e um largo sorriso, muito estranho e pouco habitual. Pego o elevador e desço no terceiro andar. Sigo em direção da sala. Abro a porta e encontro o professor e duas colegas sentadas. Dou bom dia, feliz por chegar no horário. Os olhares risonhos me retribuem a saudação e meu professor me alerta:
- Seu zíper está aberto.

Sento-me meio sem graça e refaço o trajeto de casa até a faculdade. Preciso lembrar de comprar uma calça sem zíper.

O Processo (não o de Kafka, que fique bem claro)

Pedro Levindo

Acordar, para mim, é sempre algo demorado. Não o acordar em si, que fique bem claro, mas sim o “processo” como um todo. Hoje não foi diferente. Pus o despertador pra tocar três vezes, com cinco minutos de intervalos entre cada vez. Como sempre, acordei pouco antes do primeiro toque, mas esperei na cama durante cerca de dez minutos até ouvi-lo. Pode-se dizer que é um dos grandes luxos que permito de manhã.

O outro luxo é tomar demorados banhos quentes. Tenho até uma consciência ambiental mais avançada (não serei modesto - muito mais avançada) que a maioria das pessoas, principalmente nesta terra (digo Salvador, Bahia, Brasil). Contudo, quando entro no banho esqueço disso e passo horas debaixo da água quente. Isso, porém, não aconteceu hoje. Meu chuveiro elétrico está quebrado. Entrei debaixo do chuveiro rápido, pulei umas 15 vezes – para esquentar o corpo – durante o banho, saí quase tão rápido quanto entrei.

O banho gelado, ao menos, me acorda de pronto. Voltei ao quarto e, como sobrava algum tempo, resolvi reduzir o déficit noticioso-literário e comecei a ler duas das mais de 20 revistas acumuladas em minha mesa de cabeceira. Consegui “matar” uma, que pus na pilha de material já lido (menor do que a ler, um sério problema) e ao menos “esfaquear” a outra, que ainda vive.

Após a sessão de leitura, me dei conta que faltavam apenas 20 minutos para o horário-limite de sair de casa. Levantei da cama e fui para a cozinha. Preparei um copo de Nescau e o tomei. Fiz outro. Decidi então me vestir para apenas depois comer um sanduíche, como de costume. Procurei minha sandália franciscana marrom, mas não achei. Fui até o quarto de meu irmão e perguntei a ele, que me disse que tinha esquecido não sei onde. Resolvi não ficar puto da vida, não a essa hora da manhã. Calcei outro sapato, recolhi meus pertences (carteira, celular, chaves de casa e do carro, quatro ou cindo artigos etc.), esqueci de comer e saí.

O caminho, por ser sábado, estava tranqüilo. Muitas vezes não ouço músico, mas hoje liguei o rádio, ouvi algumas besteiras e desliguei logo em seguida. Pus então um CD de grandes árias. Pensei na perfeição que era aquela música. Depois pensei na porcaria que ouvimos por aqui. Graças a Deus, antes que começasse a depressão completa, cheguei na faculdade. Fui até o prédio da agência, constatei que não era lá a aula, liguei para minha colega Hell Anne e descobri que era aqui. E aqui estou, escrevendo sobre isso.

Bruma 19, o sonho de um paulista "baiano"

Andréa Silva

Era uma manhã de sábado tão cinzenta que nem parecia que estávamos na luminosa cidade do Salvador. Da janela da nossa sala, de onde temos o privilégio de ver um pedacinho do mar, avistamos um navio se despedindo, lentamente, das águas da Baía de Todos os Santos. O mar estava agitado, parecia enfurecido e atormentado pela ventania, bem mais intensa neste fim de inverno, período chuvoso na Bahia.

Ao ver ao longe a grandiosa embarcação, meu filho, de três anos, nos surpreendeu. Não era a primeira que ele fazia uma daquelas perguntas de criança que nunca são esquecidas.

- Mamãe, papai, aquele navio vai para o Japão, nosso barco pode ir também? – perguntou Ricardo Otávio, o nosso Tatá.

Ele já sabia que, há dois dias, o pai, um paulistano de olhos e cabelos claros, um metro e setenta e oito de altura e outros traços europeus, herança dos avós austríacos, tinha realizado um antigo sonho: comprar um barquinho à vela para navegar ao sabor do vento.

- Não filho, o nosso barco é pequeno. Por isso, não dá para ir tão longe. Mas podemos chegar até a casa da vovó, em Ilhéus.

A resposta do pai, que também se chama Ricardo, despertou em mim uma enorme vontade de entrar no tão falado barquinho. Até aquele momento eu só conhecia o veleiro por meio de fotos, exibidas no computador, pelo antigo dono ao anunciar a venda da embarcação.

Naquele sábado, durante o café da manhã, também alimentamos a nossa imaginação olhando o navio desaparecer no mar de Ondina e ouvindo o “falatório” de Ricardo Otávio, cheio de planos para os nossos passeios durante o verão. Pouco depois das oito horas da manhã, logo que parou de chover, saímos de casa. O destino era a Marina de Aratu, onde estava o Bruma 19.

Bruma é o nome da empresa, no estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, onde são feitos os veleiros. Na condição de novos donos, ainda vamos batizar o barquinho, o nome mais cotado até agora é FARO (Família, Ricardo, Andréa, Otávio).

Para chegar até a Marina de Aratu, encurtamos o caminho pegando a BR 324. Apesar do horário, o trânsito estava bem intenso. Caminhões e carros passavam apressados enquanto eu e os meus “Ricardos” seguíamos calmamente a trilha de uma nova conquista.

No trecho da estrada que dá acesso ao bairro de Águas Claras, metade do caminho até à marina, encontra uma blitz da Polícia Rodoviária Federal.

- Logo agora, tomara que não parem a gente! - pensei alto.

Parece que os homens de uniforme marrom, distintivo no braço direito e quepe na cabeça, me ouviram.Os dois carros que estavam na nossa frente foram parados. O nosso golzinho branco, modelo 98, emprestado pelo meu pai desde que saí de casa em Itabuna, no sul do estado, para viver na capital, cansado dos trancos e caminhos desvendados dentro de Salvador, seguiu em frente, liberado pelo apito e o gesto dos policiais.

A estrada que dá acesso à marina, conhecida como estada da base naval, é cercado de verde, pequenos trecho de reserva de mata atlântica. No caminho ficam alguns bairros que pertencem ao subúrbio ferroviário de Salvador. Uma parte de São Bartolomeu, Periperi, São João do Cabrito. As casas construídas à beira da estrada são pequenas e simples, a maioria têm vista para o mar, outras ficam cercadas de verde.

Sentado em sua cadeirinha de bebê, que mais parece um trono, adaptado ao banco de trás para garantir a segurança, nosso menino observa tudo e não pára de dizer que quer chegar logo para ver o “Baco”. O modo como chama o barco, objeto do sonho realizado pelo papai, o torna ainda mais simpático.

Por volta das nove e quarenta da manhã chegamos à Marina de Aratu. A paisagem é encantadora, mesmo num dia chuvoso. Da marina dá para ver parte da praia de Inema, além das casas e sobrados que pertencem à marinha. Uma área com a mesma estrutura de hotéis cinco estrelas. É lá que ficam hospedados os presidentes da República, quando visitam a Bahia. Pensei no privilégio do presidente Lula e da primeira dama dona Marisa passando fins de semana naquele paraíso dentro de Salvador, a quarenta quilômetros do centro da capital.

A marina de Aratu é, ao mesmo tempo, ponto de parada das embarcações com estrutura para reabastecimento de água, alimentos, combustível e um estaleiro onde os mecânicos consertam motores e outros equipamentos. Em qualquer direção, os nossos olhos só enxergam barcos, barcos e barcos. São dezenas deles, de todos os tipos e tamanhos. Lanchas, catamarãs, veleiros e a sucata de dois velhos navios que já foram usados no transporte marítimo entre Salvador e a Ilha de Itaparica.

No último galpão do estaleiro, bem num cantinho, suspenso por dois cavaletes, avistamos um veleiro branco com faixas azuis nas laterais e uma pintura que ainda brilha, mesmo com alguns anos de vida no mar. Que beleza de barquinho, eu pensei. E olha que as velas e o mastro estavam arriados. São eles que dão um charme especial a este tipo de embarcação. O Bruma também é equipado com um motor para os dias em que a natureza não permite aventuras ao mar só com ajuda do vento. O barco tem dezenove pés, o equivalente a pouco mais de cinco metros e meio de comprimento por dois e meio de largura. A capacidade é para cinco pessoas, que podem usar os espaços internos com uma cama de casal e duas de solteiro. No cok-pit, lugar onde o comandante conduz o barco, dá para improvisar mais duas camas. A embarcação tem ainda um pequeno porão para guardar mantimentos, água e combustível, mas só é possível entrar agachado.

Com o filho nos braços e de mão entrelaçada à minha, Ricardo exibe o objeto de um antigo sonho. Desejo de um paulistano que ainda menino planejou morar em Salvador e navegar pelas águas calmas da Baía.

- Meu pai ia adorar ver isso aqui. Foi por causa dele que eu me apaixonei por navegação, de tanto ouvir ele dizer que tinha vontade de comprar um barco. O velho não teve dinheiro nem saúde para isso - lembrou.

A lembrança do passado também me emocionou. Orgulhosa com a conquista de Ricardo, eu prometo comprar o champagne para ser quebrada no casco da embarcação. É assim que os marinheiros inauguram os seus barcos. Nós vamos manter a tradição e, quando o verão der o ar da graça, vamos levantar velas e mergulhar numa aventura pela Baía de Todos os Santos. Neste lugar de águas abrigadas, calmas e cristalinas, vamos aprender a confiar no mar para chegar à casa da vovó a bordo de um pequeno e aconchegante veleiro e não mais enfrentando 480 quilômetros de asfalto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Sexo das águas

Maria Isis
Há 160 km da capital, entre coxas de areia cada vez mais salientes, o Rio Itariri lambe o mar do Oceano Atlântico. Beijo lascivo, demorado. Durante a vazante, é possível atravessar a foz a pé, com a água dando na cintura. De uma margem à outra, o leito alarga-se. Pernas abertas vertendo a água escura que pede passagem ao solo sedimentar e movediço. Dez segundos parado sobre ele e seus pés seriam engolidos à altura dos tornozelos.

Caminha-se por poças e com cuidado. A maré baixa revela mistérios afogados pelas ondas, soterrados pela superfície lodosa. Os pés correm sobre pegadas profundas e minúsculos orifícios de onde entram e saem ganhamuns, aratus, caranguejos e siris. Andam de lado, param desconfiados e se reproduzem mangue adentro.

A Barra do Itariri é hermafrodita, isso não é mistério. O gosto de seus sexos é salgado-doce feito lágrima ou qualquer fluido corporal. O cheiro do seu corpo exala maresia. Correnteza de rio, onda de mar.

Nada se perde. A moqueca de aratu vem empacotada na folha da palmeira e camarões vêm espetados na talisca do coqueiro. Mãos de crianças mirradas, que parecem ter quatro ou cinco anos, mas, na verdade, têm dez... doze... envolvem, trêmulas, vasilhames de plástico. Vendem sobre a areia quente.

Do lado de cá, a superfície já não é mais plana e reta como a praia. Os grãos da areia formam arranjos similares à textura de uma caixa de ovos, com agudas ondulações. É possível sentir um vento gelado de foz soprando de todos os lados. Vento denso carregado de salitre e desejo. Vuuuuuuuuuuuuffff, zumbe nos ouvidos.

Atrás das dunas, na parte oposta ao mar agitado, escoa um riacho raso e sinuoso. Trecho do Itariri que corre sobre os bancos de areia. Muito é lama. As pedras fincadas, como se cansadas, criam limo. A erupção das raízes, nas bordas, faz da caminhada um mistério de matizes raras. São siris de patas amarelo-florescente e carapaças vermelho-sangue. Dunas douradas, folhas verde-pouco-maduro. Cores incomuns para o distinto cinza escuro do mangue.

É inverno. A natureza chove. Pingos de garoa flutuam, mas os de tempestade, costumam açoitar os ombros. Pingos grossos se lançam, errantes. Querem cumprir a promessa de chegar para o encontro. Quando mar e rio terão um orgasmo embalado pelas ondas da maré cheia.

***
Pessoal, esse lugar foi meu destino no feriado da semana passada. Aproveito para deixar a dica do camping onde ancorei minha barraca. A divulgação é gratuita e vale a boa hospedagem, o preço cômodo da diária, a facilidade de acesso (apesar de um pequeno trecho de 6km com as rodas do carro no barro). Cheguem mais perto em:
www.campingitariri.com.br

[foto: flickr.com]

O show


Por Emerson Santos


Sábado, dia 11 de novembro de 2006, às 17h, aconteceria em Salvador, na Área Verde do Othon Palace, a gravação do primeiro DVD do grupo de axé Nata do Tchan, ou seja, o extinto É o Tchan, em sua nova formação. Dias antes do show, umas das dançarinas do grupo, estudante de jornalismo da FSBA, Silmara Miranda, comentou na faculdade, com alguns colegas de curso, sobre esse tal show, dizendo que poderia conseguir algumas cortesias para quem quisesse ir. Emerson e Reinaldo, quando souberam da novidade, por se tratar de um 0800 para um show, logo se interessaram em ir para prestigiar sua colega e celebridade.

Um dia antes do show, Emerson ligou ansioso para Reinaldo para saber se ele já havia pegado com Silmara as tais cortesias e, desesperadamente, disse:

- Rei, você já ligou para Silmara pra combinar de pegar os ingressos?
Rapidamente, Reinaldo respondeu:

- Liguei sim, mais tá dando na caixa! Acho que ela tá ensaiando e, por isso, não atende no momento.

Logo, Emerson, como sempre, ficou agoniado, achando que não iria dar certo. Porém, Reinaldo, preocupado, disse para ele ficar tentando ligar para ela. Finalizando a ligação, Rei falou:

- Quando conseguir falar com ela, me ligue para confirmar se ela vai dar as cortesias ou não.
E Emerson disse:

- Ok, tudo bem!

Por volta das três horas da tarde, Emerson se dirigiu ao orelhão mais próximo, o da esquina da faculdade, para tentar ligar para o celular de Silmara, já que estava sem créditos do celular e não queria ligar de casa. Pegou o cartão de dentro do bolso de sua bermuda amarela, com detalhes branco e azul marinho, estilo surfista, e inseriu no orelhão. Discou o número que tinha anotado num pedaço de papel amassado e esperou a ligação se completar. E começou a chamar. Emerson ficou tão nervoso que mal conseguia se conter. Se alguém estivesse com ele no momento, certamente diria que ele estava branco como um papel.

- Alô, quem é? – disse a dançarina, com seu sotaque típico de Brasília, sem entender nada por ser um número estranho. Ele, trêmulo, se sentindo envergonhado de falar, já que não tinha um mínimo de intimidade com ela. Logo se identificou, mesmo sabendo que ela poderia até nem reconhecê-lo.

- Silmara, é Emerson, seu colega da faculdade. É que Reinaldo ficou de te ligar para saber como ele poderia pegar com você as cortesias, aí ele pediu para um confirmar, porque não tava conseguindo falar com você.
Ela, simpaticamente, respondeu:

- Sei, tudo bem, tá tudo certo. As cortesias já estão comigo! Eu vou ligar pra ele pra combinar direitinho, certo?
– Certo, brigado viu? - Disse muito contente, Emerson.
– De nada! – finalizou ela, mostrando-se muito educada.

Finalmente chega o tão esperado dia do show. Como o evento estava marcado para às 17h, Emerson se arrumou mais cedo, por volta das 15h. Após se produzir todo, ligou para Reinaldo para combinar tudo. Rei informara que Emerson é que teria que pegar os ingressos na casa de Silmara. Informou o endereço, o nome da empregada que iria estar na casa , o nome do edifício e a cor.

Lá vai Emerson, todo arrumado, com seu inseparável All Star azul marinho, com uma calça jeans preta de detalhes listrados e uma camisa preta com manga verde e com bordas amarelas.

Como a dançarina e futura jornalista morava próxima da casa de Emerson, ele não viu problema nenhum em procurar o endereço. Se dirigiu à Avenida Oceânica e ficou procurando vários prédios azuis onde estivesse escrito o nome na fachada. Se bateu com vários prédios até achar o correto. Interfonou para o apartamento indicado e falou com a empregada.
– Aqui é o colega de Silmara, Emerson! Eu vim pegar as cortesias.
A moça disse:
- Certo, já tou descendo.
Ela desceu rapidamente e me entregou as três cortesias. Emerson, aliviado com a missão cumprida, foi logo direto para o Othon e ligou para Rei. Falou que já estava com as cortesias e que estava esperando ele no local do show.

Depois de algumas horas, já no instante de entrar na tal Área Verde, Reinaldo chega. Emerson entregou o ingresso a ele, sobrando um, e os dois subiram a escada que dava acesso ao local. Na metade da escada, estavam dois seguranças. Um deles abordou Emerson, que estava ansioso para entrar logo, impedindo a entrada. Com autoridade, o segurança disse:
- Ei garoto! Você não pode entrar. Só é permitido a entrada de pessoas com 18 anos no mínimo.
E Emerson, desesperado, relutou:

- Mas eu tenho mais de 18 anos, tenho 20.
Cadê a identidade para comprovar? Ele não havia levado, esqueceu em casa, como de costume. Propôs-se a ir em casa pra buscar, já que morava bem perto. Mas, coincidentemente, Reinaldo conhecia o outro segurança e, sem esforço algum, ele deixou Emerson passar. Reinado apenas falou que estava com ele, confirmando sua idade.

Despreocupados, os dois amigos entraram na tão famosa Área Verde do Othon, que de verde não tem quase nada. Apenas duas ou três árvores na entrada da área, que é coberta, com o chão pintado de verde.
– Só pode ser por conta da cor do chão que devem chamar de Área verde. Pois de verde mesmo, da natureza, aqui não tem quase nada – falou Emerson que, decerto, esperava que fosse uma área cheia de árvores e grama no chão.

Enfim, o tão esperado show começou. A dupla ficou na primeira fila, encontraram uma colega da faculdade, Paloma, e dançaram muito, mais muito mesmo. Se acabaram, literalmente. Chegaram a ser filmados, imaginado que iriam aparecer no DVD. No início da gravação, começou a chover bem forte, não atrapalhando em nada o andamento do show, visto que a área é cobeta. Gritaram o nome de Silmara, que logo os identificou na frente e, de forma sorridente em vê-los, gritou:

- Vocês vieram mesmo, que bom! – disse, se requebrando muito junto com as duas morenas do Nata do Tchan.
Os dois ficaram no show até o final, saíram com as camisas molhadas de suor e da chuva que os atingiu na saída, dava até para torcer. Saíram contentes e muito satisfeitos. Até hoje esperam ver o DVD. Sil, como a chamam agora, disse que não vai mais sair porque o grupo foi desfeito.

Show de Pitty

Thaís Bittencourt

O tempo custava a passar, quando o que mais queria é que o dia D chegasse, o dia tão esperado e planejado, o show de Pitty, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Pra quem deve estar se perguntando o porquê de tão planejado, eis a resposta: eu ficava imaginando a roupa que usaria, algo bem dark, toda roqueira de ser e que iria me acabar cantando, ops, gritando as músicas e pulando muito. Enquanto o grande dia não chegava, ouvia as músicas incansavelmente pra memorizar as letras e cantá-las sem errar. Colocava o CD no som, aumentava o volume e soltava a voz, afinal, sozinha em casa, quem é que vai reclamar da voz desafinada?

O dia chegou, era um domingo, e o show era às cinco da tarde. Pela manhã, liguei pra Vini, um amigo do colégio, pra confirmar a ida e o horário. Queríamos chegar o quanto antes e pegar o melhor lugar. Quando comecei a me arrumar, minha mãe começou a dar palpites de como eu ir vestida.

- Use essa calça, fica melhor – palpitou.

- Tá bom! – respondi.

Quando ia calçar o tênis, ela de novo deu palpite.

- Vá de salto! - disse ela, meio insistente.

- Minha mãe, tô indo pro show de rock, salto não combina - retruquei, já chateada.

Depois de ter resolvido o impasse, era hora de ir pro local do show. Quando já estávamos quase em frente à Concha Acústica, vi várias meninas de tênis All star e, na mesma hora, virei pra minha mãe e disse:

- Tá vendo, olha aquelas meninas lá, tão de All star, depois fica reclamando.

Despedi-me dela e caminhei em direção ao pátio da Concha. Os camelôs estavam postados na frente, com a expectativa de vender bastante. No local já tinha gente à espera. Todos entretidos em conversas pra ocupar o tempo e este passar rápido, menos eu. Logo que entrei, meus olhos começaram a agir, olhava pra um lado, depois pro outro, e nada de ver meu amigo. Na ansiedade, já estava chateada. Pra mim, ele estava demorando muito e o pouco tempo que fiquei esperando pareceu uma eternidade.

Minha fisionomia de irritada mudou quando vi um moreno alto, com blusa preta e calça jeans vindo em minha direção. Vini veio todo alegre e sorridente.

- Thaisss!!!

- E aí Vini, vamos entrar logo? – perguntei animada.

-Bora!

Sentados na arquibancada, ficamos esperando um pouco mais pelo início do show. Antes de Pitty tocar, algumas bandas iriam se apresentar. Entre o intervalo de uma banda e outra, uma menina, que estava do nosso lado, começou a bater um papo com Vini. Ela tava de passagem por Salvador e foi sozinha para o show. Em um momento ela foi comprar bebida. Quando voltou, estava com um baseado na mão e conversava com outras pessoas. Vini na, mesma hora, olhou pra mim e comentou, surpreso:

- Porra, ela tinha uma cara de inocente!

- Aparências enganam - falei dando risada.

Ela viu que não curtimos baseado e partiu pra outra.

O momento de Pitty entrar no palco chegou. Fiquei super contente. A platéia toda tava agitada. Da primeira até a ultima música me esganei de tanto cantar gritando, como se quisesse que ela me escutasse. O cheiro de maconha estava mais forte quando o show principal começou. Em frente ao palco algumas pessoas ficaram na brincadeira de empurrar e jogar pro alto o outro. Quando o show terminou, cheguei em casa satisfeita e escutando um zunido no ouvido que só passou horas depois.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Histórias da minha tia

Isis Santana

Fôrmas, receitas, ingredientes, aventais, luvas e toucas. De repente, toca o celular. É uma cliente do escritório de contabilidade que quer tirar algumas dúvidas sobre o Imposto de Renda. Madalena desliga o aparelho e rapidamente liga para o marido, também contador, e informa a ele o caso da cliente. Com o fim da conversa, ela retorna ao trabalho de culinarista e indica à ajudante qual é o próximo pedido.

O telefone da fábrica toca. É para a empresária.

- Alô, Madá, é Marta que esta falando, tudo bem?

- Oi Marta, tudo bem.

-Madá, quero encomendar cem pãezinhos e dois bolos tradicionais (brigadeiro e prestígio) para entregar no próximo fim de semana.

- Tá certo Marta, meu marido entrega, na sua casa no sábado à tarde.

Assim é a agitada rotina da contadora, culinarista e mãe. Para Madá, o dia começa às 6h e só termina à meia-noite. No período da manhã, dedica-se à contabilidade, profissão escolhida há 21 anos. Pela tarde, corre para a fábrica de salgados, uma construção feita no fundo da casa, localizada em Brotas, onde coloca em prática todo o conhecimento culinário que adquiriu freqüentando cursos todas as semanas. Geralmente, ela se especializa em distribuidoras de doces e lojas de artigos para festas.

Madá é uma jovem senhora de 53 anos, olhos verdes, cabelo castanho claro, 1m56cm, casada, mãe de duas filhas, Gabriela e Rebeca. Muito sorridente, está sempre alegre. Em uma tarde de quinta-feira, porém, estava triste por causa de alguns problemas que tinham acontecido comigo. Resolvo passar na casa da tia Madá para tentar me animar um pouco, afinal, ela sempre tem uma história para contar. Depois de algumas horas de conversa, eu já estava mais alegre. Perguntei a ela como estava Ana e Daniela, as moças que trabalham com ela, nas encomendas de doces.

- Tia, Ana e Daniela já foram embora?

- Ana já foi e Daniela eu demiti.

- Demitiu por que?

- Comecei a receber reclamações dos clientes, dizendo que as entregas chegavam faltando peças. Observei que as encomendas arrumadas por Daniela eram as que tinham reclamações. Até que um dia eu a vi colocando dois doces na sacola, você acredita?

- Ela explicou por que tinha feito isso?

- Disse que estava levando para os filhos. Eu perguntei porque ela não tinha me pedido? Ela disse, com a cara mas cínica, “Achei que não tinha necessidade, dona Madá”.

Risos.

- Você ri, não é Isis?

- Me desculpe tia, mas a senhora conta de um jeito tão engraçado que não tem como não rir.

E, depois de muito papo, fui embora para casa, com mais uma das histórias da minha tia Madá.

O show que entrou para história

Karina Oliveira

Chega o dia tão esperado. Show de Ivete Sangalo no Festival de Verão Salvador 2007. No começo do dia, a expectativa toma conta de mim. Não conseguia pensar em nada mais além dos preparativos para o evento. Liguei para minha amiga Thais, com quem ia para o show, e começamos a combinar como seria nossa estratégia.

- E ai Thai, aonde vamos nos encontrar?

- Pode ser na entrada do Parque de exposições.

- Então fica marcado, às 19h.

Só deu tempo de desligar o telefone, pegar a bolsa e sair. Pois ainda não tinha comprado nada para usar no dia tão especial. E a noite prometia muita música, bebida, agitação e, é claro, o público masculino, que era o nosso alvo. No shopping center, foi uma corrida contra o tempo para encontrar algo que me agradasse. Vesti, olhei, tirei, botei até que achei a combinação perfeita: blusa preta com um insinuante decote nas costas, do tipo mostrar para despertar, calça jeans skine e uma sapatilha cor caramelo. Fui correndo para casa, pois tinha que me arrumar.

Já de banho tomado e me achando, lá fui eu para pegar o buzú. Dentro do ônibus, ligo para minha amiga. Falo rápido para economizar os créditos.

- Thai, você tá onde?

- Já tô chegando, e você?

-Ainda tô longe, mas tô chegando.

Depois de um longo percurso, chego ao local onde seria realizado o show e percebo que ela não estava no lugar combinado. Desesperada e com medo que os créditos acabassem, liguei para ela de novo.

- Cadê você?

- Tô aqui dentro, vem me encontrar.

Desligo rapidamente e vou ao seu encontro. Não demora muito e eis que surge Tatai, como a chamo carinhosamente, com uma blusa marrom, calça jeans e sandália preta de salto alto e fino. Sorriu, deu um gostoso abraço e me puxou para frente, na direção do palco. Ficamos conversando e observando o ambiente até que nossas vozes foram abafadas por um barulho de uma sirene. Parecia que estava ocorrendo uma rebelião em algum presídio, mas, na verdade, era o aviso do começo do show.

Depois de certo tempo de espera, começa o grande show da noite. Apagam-se as luzes do palco e aquela irritante sirene dá o ar de sua graça. De repente, surge Ivete Sangalo com vestido branco e detalhes em prata (não tenho muita certeza) e um chapéu combinado com o vestido também branco. A multidão vai ao delírio.

Não tinha lugar para mais ninguém. Ela começa o evento cantando seus sucessos e parecia reger o público. Num determinado momento do show (isso eu me lembro muito bem), a cantora "puxou", à capela, a música Poeira. Mal sabia eu que o meu fim estava próximo.

-"Poeiraaa, poeiraaa, poeiraaa.... levantou poeira".

Logo em seguida gritou:

- Atenção Salvador! Eu quero ver todos vocês levantando poeira.

Para o meu azar e de minha bronquite, a poeira subiu. Naquele instante, comecei a passar mal. Não conseguia respirar direito, foi ficando tudo escuro e comecei a sentir uma sensação de desmaio. Na mesma hora falei com minha amiga:

- Thai, não tô bem.

- Ah Kal! Páre com isso!

- Velho, eu não tô bem, é serio!

Quando minha amiga me viu encostada na armação feita para abrigar os policiais da tropa de choque, percebeu que era sério. Rapidamente, me segurou e disse:

- Kal, levanta a cabeça e tenta respirar.

- Não tô conseguindo!

Percebendo o meu estado, pediu aos policias que abrissem passagem para me levar ao posto de saúde, montado próximo a área de show. Antes de isso acontecer, um dos policias solicitados teve a "brilhante" idéia de me molhar. Não sei em que isso me ajudaria, mas ele fez. Pegou um cantil e danou a jogar água em mim. Na hora fiquei tão brava que falei:

- Não, não me molhe caralho!

Minha amiga, que estava super nervosa com situação, tentava me acalmar:

- Kal, é para seu bem!

Percebendo que sua estratégia super avançada não daria certo, falou com os outros policias para abrir caminho. Naquele momento em que ia sendo "escoltada" pelos policias, pensei: será que me arrumei toda para isso? Não quero crer!

Em pouco tempo, o problema havia sido resolvido. Depois de um pouco de ar (pois na área do show estava muito abafado devido à concentração das pessoas) e uma umburosca, voltamos para assistir o próximo show: Asa de Águia, antes que a maldita sirene soasse novamente, a galera havia invadido o espaço do show. Restou apenas ficar na escada com minha amiga, só ouvindo. Aquela situação não agradou a nenhuma das duas. Então, fomos dar uma volta e ver o que tinha de interessante.

Depois de umas duzentas voltas, eu e Thais nos deparamos com o seguinte quadro. Naquele show existiam dois tipos de homens: os interessantes e acompanhados e os adolescentes desinteressantes. Mas, não nos abatemos. Procuramos até que a sem noção da Thais "achou" um lugar interessante.

- Kal, é ali.

- É ali o quê?

- É ali que vamos nos dar bem.

- Na tenda onde esta tocando pagode?

- É. Lá deve ter algum pagodeiro gatinho.

Meio descrente e já desesperada, pois a minha tão sonhada noite estava sendo um fiasco, resolvi ir. Já estou aqui, né? Pior do que está não podia ficar. Mas não é que ficou? Chegando à maldita tenda, onde ao fundo ouvia-se um insuportável pagode tocado pela Banda Raga alguma coisa, surge um desses meninos mais conhecidos como pagodeiros. Corpo sarado (até demais para meu gosto), tatuagem no braço e mente vazia (não é pré-conceito, pude comprovar no decorrer da conversa, que mais parecia um monólogo). Só ele falava, enquanto eu balançava a cabeça. A cena durou uns 15 minutos de tentativas frustradas de um beijo, que não aconteceu.

Enquanto eu era assediada, o espírito pagodeiro se apossou de minha amiga, que começou a "quebar". Mexia para um lado, para o outro, subia, descia e rebolava. Teoricamente, estava se dando bem, pois havia se enturmado com um grupo de pagodeiros. Isso, é obvio, não foi à toa, estava de olho em um dos meninos. A tática surtiu efeito, 30min de "quebrança" e lá estava Tatai aos beijos com um deles.

Achei que tinha me livrado do tal garoto. Pensei, até que enfim, Senhor! Quando olho para o lado, olha ele de novo tentando qualquer coisa, já numa atitude desesperada.

- Por que você esta agindo assim?

- Como?

- Não quer me beijar.

- Não, não é isso. Apenas você não faz meu tipo.

- Por que você se acha melhor dos que as outras? - Perguntou irritado.

- Porque sou única - respondi, olhando fixamente para os seus olhos.

Para ele, isso poderia não ter sentido, mas a ciência explica. Tem a ver com o DNA, código genético etc. Não era uma atitude de quem se acha. Bem que Ivete falou no começo do show:

- Se não güenta, pra que veio?

- Para que eu fui?

Sempre amigas, entre saltos e perucas

Silmara Miranda

No final do ano de 2006, eu estava trabalhando em Goiânia e, na volta para Salvador, onde moro, fiz uma conexão em Brasília. Resolvi passar uma noite lá, estava morrendo de saudades da minha família, mas confesso que queria mesmo assistir a um show de reggae com minha amiga Carla. Eu chegaria em Brasília na sexta, mas no sábado já teria que estar em Salvador, teve que ser tudo muito bem planejado e cronometrado para não perder o horário. Seria uma noite só de curtição. E que curtição! É bem verdade quando dizem que a companhia faz a diversão da noite. A Carla é a minha diversão, sempre é!!

Cheguei em Brasília, matei a saudade de todos e me arrumei dos pés a cabeça para sair. Depois de estacionar, ao descer do carro com meu salto agulha, a primeira coisa em que piso é numa poça de lama!

- Que droga!!!, reclamei indignada.

- Como é que você vem de salto pra uma festa roots, guria? - disse Carla, sem conter a risada.

- Guriaaaaaaaa!!! Por que você não me avisou que era festa roots??? - respondi, sabendo que era um show de reggae, mas talvez meio perdida ou afobada de estar indo à uma festa curtir com minha amiga depois de tanto tempo.

Essa foi uma das muitas histórias que já aconteceram quando estou na companhia da Carla. Certa vez, nas férias dela, resolvemos passar uns dias em Porto Seguro, já que eu teria que trabalhar no mesmo lugar dois dias depois. Como eu danço em uma banda que as pessoas conhecem e sou modestamente popular em Porto Seguro, por já ter trabalhado dançando em barracas de praia lá, resolvemos inovar.

- Carla, se eu for pro show hoje a galera toda vai me reconhecer! - eu disse, já com a intenção de aprontar e não ser percebida.

- Já sei guria! Vamos colocar uma peruca aí! - resolveu Carla.

Duas horas depois, eu estava eu lá na festa tentando ser discreta. Vesti uma calça jeans, coloquei um tênis, uma jaqueta para cobrir o decote e não chamar tanta atenção e a peruca! É obvio que, em Porto Seguro, só encontramos uma de rastafári, né? Pois eu fui com essa mesmo, um cabelo preto até os ombros. E ainda tinha um gorrinho de Bob Marley para completar. Bebi mais do que deveria, chamei atenção mais do que podia rindo e dançando. Todos me reconheceram e vieram me cumprimentar. Que disfarce fuleiro, hein? E mais uma com a Carla...

O que não faço pelo meu Vitória?

Yuri Barreto

Terça-feira, 11 de setembro, mais uma noite de agonias e agitações causadas pelo futebol.

Após a manhã e a tarde de exaustivos trabalhos, saio de casa às 18 horas em direção à faculdade. Nesse momento só consigo pensar em uma coisa, o jogo do meu glorioso e amado Vitória, que tem início marcado para as 20h30. Vestido com o uniforme, de cores vermelha e preta em faixas na horizontal, e acompanhado de minha mãe, que estuda na mesma faculdade, sento ao volante do carro. Antes de “bater” a chave, minha primeira atitude é ligar o som e, é claro, sintonizar a rádio que transmite o jogo, pois antes deste os comentaristas falam de suas expectativas sobre a partida. Daí parte a primeira reclamação da dona Ângela:

- Já vai começar a encher o saco com esse jogo? Não pode esperar para ouvir apenas no início?

- Você sabe que dia de jogo é sagrado, respondi imediatamente.

Não sabia ela que por minha cabeça passava a idéia de, mais uma vez, filar a aula para ir ao Barradão, estádio do Vitória.

No meio do engarrafamento, que enfrento todo dia até chegar à faculdade, o pequeno aparelho de cores preto e prata toca, é um dos meus companheiros de jogo, o Jorge.

- Man, e esse “Barradas” hoje? Perguntou ele.

- Tenho aula parceiro. Depois te ligo, respondi.

O Jorge já sabia que minha resposta curta era porque minha mãe estava ao meu lado e que eu daria um jeito de ir ao jogo.

Passei todo caminho em direção à faculdade pensando em que desculpa daria a minha mãe dessa vez, afinal, não consigo faltar a um jogo.

Chego à faculdade e aí entra a coitada da Arysa, a magrinha morena de cabelos escuros, que sempre é a escolhida para transmitir as desculpas à dona Ângela.

- Ryu, entregue a chave e o documento do carro à minha mãe e diga a ela que a professora passou um trabalho que eu já tinha feito.

Não precisava dizer a ela qual o motivo para eu filar a aula.

- Yuri, não faça isso. Se sua mãe descobrir que você filou todas essas aulas às terças para ir ao jogo, não sei não viu! - respondeu ela, com um semblante de preocupada.

Após o acerto com Arysa, vou à frente da faculdade, onde já estava o Jorge dentro do seu Gol vermelho metálico escutando meu som preferido, o samba.

Já em direção ao Barradão, mais uma inquietação me incomodava, o que falar para a dona Ângela assim que chegar em casa???????? Deparei-me, nesse momento, com a tarefa mais difícil da noite: construir outra história para acalmar a fera!!!!

Barra do Gil nunca mais!

DANUTTA RODRIGUES

Domingo de sol a pino e um convite atípico: passear de lancha na Bahia de Todos os Santos. Não era bem uma lancha, na verdade era uma saveiro daquelas bem antigas que só cabem no máximo sete pessoas, contando com o marinheiro. Tinha tudo para ser um dia perfeito, sol, churrasco, cerveja, praia, piscina, enfim, um cenário digno de um domingo especial, isso se não fosse a ressaca com que acordei nesse dia. Não sabia que o simples fato de ter me embriagado no dia anterior fosse interferir tanto na minha imagem perante as pessoas convidadas para esse passeio maldito.
Tudo começou quando às 9h da manhã, minha irmã Rafaela, me acorda aos berros e me sacudindo como se eu fosse um saco de batatas:
- Acorda, acorda, acorda...
Eu tinha chegado às 6h da manhã em casa, depois de uma “festa de arromba” que aconteceu na casa de um amigo. Na hora em que ouvi ao fundo a voz da minha irmã praticamente suplicando para que eu acordasse, consegui abrir com muito esforço o olho direito e perguntei com uma voz embolada:
- O que é?
- Rato acabou de ligar dizendo que já está passando aqui para pegar a gente pra passear de lancha – ela respondeu.
Rato é amigo de Rafa e nessa hora, tentei recordar de algum convite que ela ou ele tivessem feito a mim e não conseguia lembrar e retruquei:
- Ah, eu não vou não!
- Como assim não vai? – indignou-se minha irmã e me intimou com a seguinte frase:
- Se você não for eu nunca mais consigo convite das festas pra você.
As festas as quais Rafa estava se retratando, eram as festas publicitárias que sempre gostei muito de ir, afinal, são festas em que a bebida e a comida rola solta, sem contar com o público que é uma maravilha! Ah, esqueci de comentar que minha irmã é publicitária e sempre conseguiu pra mim as melhores festas que fui até hoje, está aí o motivo do poder que ela detinha sobre mim.
Na hora em que fui ameaçada me senti na obrigação de arrumar forças, sabe lá Deus onde, e consegui levantar e fui me arrumar para irmos para o tal passeio. Como se não bastasse a pressão, ela ainda queria que eu chamasse uma outra amiga minha para ir conosco. Parecia até que a tal lancha era da minha irmã, pois ela queria povoar o barco, isso porque um amigo de Rato estava afim dela e ela não queria nada com ele. Lá fui eu então para o telefone ligar para uma grande amiga, do tipo “topa tudo”, para nos acompanhar. Ela aceitou conforme eu já esperava e fomos as três para o tal passeio de “lancha”.
Chegamos ao nosso destino: o Iate Clube. Logo nos apressamos para partir para a Ilha de Barra do Gil, lugar onde Carlos, o amigo de Rato afim da minha irmã, tinha uma bela casa com piscina e nos esperando para usufruir. Assim que nos lançamos ao mar chamei Rafa e cochichei no ouvido dela:
- Eu não tô me sentindo bem.
- Também você não se contenta em beber pouco – disse Rafa, irritada.
Me dirigi a Déa e falei:
- To vendo tudo rodar.
Andréa, como uma boa amiga compreensiva e entendida nesses assuntos alcoólicos retrucou:
- Toma uma Skol Dan, nada como uma cerveja para arrebatar uma ressaca.
Mal eu sabia que o conselho de Andréa me renderia tanta vergonha e também tantas risadas.
Tomei uma Skol antes de chegar em Barra do Gil e esse foi o meu atestado de óbito. Assim que chegamos na ilha, fui a primeira a subir no bote para que chegasse o quanto antes em terra firme. Isso porque a vontade de vomitar estava insuportável e se eu continuasse naquela saveiro “toc toc” eu ia me atirar no mar de vez. Enfim, quando botei os pés naquela areia branca, fininha, avistei um mato verde pronto para receber mais de cinco “gofadas” de cerveja. Pois é, assim que cheguei na Ilha vomitei compulsivamente na frente de todos o que estavam comigo e todos os que estavam curtindo um dia de sol em pleno domingo em Barra do Gil. Quem conhece Barra do Gil vai ter mais ou menos uma idéia do que passei. A praia estava lotada de gente.
Minha irmã, extremamente preocupada com seus amigos, afinal era a primeira vez que íamos a um churrasco na casa do Carlos, olhou pra mim com seu típico olhar de reprovação e falou:
- Você me mata de vergonha, é a primeira vez que lhe apresento aos meninos e você já vai dando um vexame desses.
Não dei muita importância ao que ela estava falando, até porque as minhas condições só me permitiam pensar uma coisa: “nunca mais eu vou beber na vida”.
Passado o susto, ou melhor, o vexame, fomos em direção à casa de praia do Carlos. No caminho, ouvi a frase mais imbecil e imprópria no momento:
- Poxa, pensei que só tinha chamado vocês três para o churrasco – disse Rato num tom irônico.
- Como assim? – indagou Rafa.
- Não sabia que Danutta tinha trazido Raul também! – exclamou “inteligentemente” o Rato.
Para quem não sabe Raul é um apelido popular que os beberrões inveterados nomeiam o vômito. Enfim, depois dessa pérola que foi proferida, chegamos finalmente na casa de Carlos.
A casa era linda, tinha uma piscina enorme na frente dela. Ao lado tinha um quiosque com uma churrasqueira que já estava nos esperando para preparar o nosso almoço. O jardim da casa era lindo demais, com alguns coqueiros e muitas flores que enfeitavam o ambiente. Porém, o lugar que eu, Andréa e Rafaela mais admiramos foi o banheiro. É isso mesmo, assim que chegamos me deu uma vontade incontrolável de ir ao banheiro, e como toda mulher que se preze, chamei minha irmã e minha amiga para me acompanhar. Até hoje Rafa se arrepende de ter aceitado o meu convite infame.
Fomos discretamente ao banheiro e chegando lá fui direto para a privada. Rafa e Andréa aproveitaram para se maquiar, mesmo com os sons e barulhos que estavam acontecendo no momento da minha “liberação”. Tudo estava correndo bem até que vou, enfim, dar a descarga depois de mais ou menos uns 5min. Foi aí que pedimos para sumir daquele lugar. Assim que apertei o botão para eliminar qualquer vestígio da minha indisposição, ao invés de descer, a água e os elementos contidos numa forma pastosa e aguada, subiu. Aquele mar de cocô parecia que ia nos atingir naquele momento. O desespero tomou conta de nós três:
- Vai transbordar – disse Rafaela com uma cara de dar dó.
- Tampa a privada – disse Andréa, que naquele momento só fazia rir.
- E agora? – eu, a causadora do transtorno, que também só fazia dar risada.
A água não cedia, chegou inclusive a escorrer um pouco no chão e nada daquele líquido descer pro seu destino natural. Ficamos sem saber o que fazer, se fôssemos pedir ajuda para desentupir, a vergonha seria maior do que deixar como estava e simplesmente fingir que nada aconteceu. Até que Rafa, em meio as minhas risadas e ao descontrole emocional de Andréa, que também só fazia rir sem parar, teve uma idéia:
- Já sei, vou procurar um balde – disse ela como se estivesse encontrado a melhor solução para o caso.
- Pra quê? – falei num tom desentendido.
- Espera a água descer mais um pouco e aí a gente tenta jogar mais água por cima pra ver se ajuda a empurrar tudo de uma vez – respondeu ela.
Não entendi muito bem a idéia da minha irmã, pois se o que a gente queria era eliminar aquela água, ela queria jogar mais por cima? Mas enfim, Rafa sempre tem boas idéias e sempre confiei nela para esses assuntos difíceis de resolver. Lá foi ela procurar um balde pela casa sem chamar atenção de ninguém, se é que isso era possível naquele momento, pois já haviam se passado 35min dentro do banheiro.
Eu e Andréa continuamos lá, tentando dar descarga para que ao menos diminuísse a quantidade de água, só que a cada vez que a gente apertava aquele bendito dispositivo da privada, mais a água subia, e o medo de que transbordasse tudo pelo mictório era muito maior.
Ficamos esperando Rafa voltar e enquanto isso o volume de água cedeu um pouco.
Porém, nada do cocô descer também. Acho que na hora de dar descarga voltava mais cocô ainda, ao invés de finalmente ir embora. No banheiro tinha uma janela grande, que ficava na parte onde tinha o chuveiro, e que dava para o quintal da casa, local onde Rafa tentava incessantemente encontrar um balde. Já se passavam 45min, quando Rato resolveu perguntar a nós como é que eu estava e o que estava acontecendo:
- Gente, tá tudo bem? – perguntou ele preocupado conosco.
- Mais ou menos, ainda tô vomitando um pouco – menti, afinal era muito menos vergonhoso falar que estava vomitando do que contar realmente o que estava se passando.
Rafaela finalmente conseguiu encontrar um balde e resolveu passar para Andréa pela janela. Enquanto aguardávamos ela voltar para o banheiro, a água estava cedendo cada vez mais, porém só a água. Assim que Rafa estava retornando, Rato a interceptou e perguntou se eu não queria algum remédio para enjôo:
- Toma Rafa, dá um Dramin para Danutta tomar – disse ele preocupado.
- Não Rato, é bom que ela aprende – retrucou ela revoltada com a situação.
Assim que Rafa entrou no banheiro, Rato queria entrar junto para nos ajudar, afinal ele achava que eu estava vomitando. Nessa hora começamos a empurrar a porta, as três, contra Rato para que ele não entrasse e visse aquela privada do jeito que estava. Com um misto de desespero e agonia, conseguimos trancar a porta e Rafa falou a seguinte frase para justificar a expulsão:
- Amigo, Danutta ta com vergonha de você – afirmou ela com veracidade.
- Que nada Dan, acontece com todo mundo. Vou deixar vocês sozinhas então, mas não demora não tá, e qualquer coisa chama a gente – respondeu ele gentilmente e para nossa felicidade.
Já se passavam uma hora desde que entramos naquele banheiro. A água já estava pela metade, quando Rafa decidiu jogar um balde cheio de água para ver se ajudava a descer tudo. O efeito foi contrário. Antes mesmo do balde terminar, a privada ficou cheia mais uma vez e quase que transborda todo aquele cocô.
Enfim, resolvemos ficar mais um pouco até que pelo menos a água ficasse pela metade de novo. Após mais 20min, finalmente o líquido cedeu e chegou a um ponto razoável, foi quando tive uma idéia:
- Já sei! Vou jogar shampoo por cima para que as espumas pelo menos fiquem por cima do cocô, porque aí ninguém vai ver o que é que tem por baixo!
- Nada disso. A gente vai ter que dar um jeito, porque se alguém entrar nesse banheiro vai ser a maior vergonha – retrucou Rafa, não concordando com a minha idéia.
Andréa, enfim, se pronunciou e disse:
- Oxe Rafa, vamos fazer isso sim. Vai chamar mais atenção se a gente continuar nesse banheiro por mais tempo – disse ela preocupada com os mais de 90min que estávamos lá dentro.
Fui então fazer o que tinha proposto. Gastei quase metade de um shampoo da Wella que estava no Box do banheiro e consegui fazer uma massa de espuma dentro daquela privada. Resolvemos sair então.
Já passavam das 16h30min, afinal, esqueci de comentar que saímos de Salvador somente às 13h30min, quando finalmente fomos participar ativamente do churrasco.
Chegando lá no quiosque, estava rolando muita comida, muita bebida, e eu, que já me considerava pronta pra outra, fui em direção à comida e a uma latinha de cerveja. Foi aí que minha irmã enfurecida falou no meu ouvido:
- Se você encostar em qualquer uma dessas coisas, eu te mato!
- Mas eu já tô bem, e tô com fome! – disse eu com medo da reação dela.
- Tome água de coco e pronto – intimou Rafa, revoltada com o que tinha acontecido.
Às 17h, ou seja, somente meia hora depois que tínhamos saído do banheiro, fomos embora de Barra do Gil, pois o marinheiro tinha um compromisso em Salvador às 18h30min. Ao subir na saveiro, pensei que ninguém nunca iria saber verdadeiramente quem tinha feito tal serviço no banheiro, pois haviam três pessoas lá dentro: eu, minha irmã e Andréa. Até hoje não sabemos o que aconteceu com aquela privada, nem qual repercussão gerou sobre o acontecido. A única coisa que sei é que até hoje ninguém sabe quem cagou no banheiro. E, como se não bastasse, Rato ainda falou assim que chegamos em Salvador,a seguinte frase:
- Dan, vê se não traz mais “Raul” tá?!
Porém nunca mais houve outro passeio, nunca mais fomos convidadas para a casa do Carlos.

Primeira e última vez

Por Arysa Souza


O convite inicialmente era sair para dançar forró. Não era dos gêneros musicais mais agradáveis para minha fase rebelde, roqueira e do mal. Mas, nada como um sábado ocioso e uma cortesia sedutora, regada a licor free, para me fazer repentinamente deixar de lado o disparate de dançar um xote. O apelo partiu de um amigo, Matheus, que conseguiu convencer a minha gangue. Vestindo roupas pretas, totalmente artificiais para aquelas faces angelicais, estavam, além de mim, três amigas: Bárbara, Rosana e Flávia. Conseguimos despertar alguns olhares e possíveis indagações. "O que essas loucas fazem aqui?". Bárbara respondia aqueles pensamentos repetindo euforicamente:

- Hoje vamos ficar muito doidas!

Eu não tinha certeza do que ela falara, mas seria divertido presenciar a bebedeira compulsiva. As outras pareciam certas da loucura. Flávia, a ruiva, faz o tipo "topa tudo", e seguramente aceitaria. É o esteriótipo da gostosona, o sonho de consumo de muitos homens. Rosana ficaria na dúvida, mas sua personalidade facilmente corrompida a faria participar do caos. Os cabelos loiríssimos, quase brancos e as pernas bem moldadas lhe conferem o clichê: cara de anjo, corpo de mulher. Já Bárbara é daquelas que uma conversa rápida logo denuncia a menina-porra-louca. Tem madeixa também avermelhada, pele alva e foi a sua voz macia que propôs a insanidade. Eu, em mais um dos meus jargões, permanecia indecisa:

-Talvez...

Logo a dúvida foi surpreendida por uma garrafa de licor de jenipapo. Estava muito doce e tinha aparência de água barrenta. Uma...duas...três... As garrafas multiplicaram-se e a sanidade aos poucos deu lugar a crises intermináveis de gargalhada.

- Vou me urinar! - Flávia antecipava a tragédia já freqüente.

- Eu também!- disse Bárbara já com uma "água" fluindo entre as pernas.

Eu e Rosana apenas repreendíamos aquela cena tosca e vergonhosa. Ainda nos restava um mínimo de consciência e continência (se é que existe oposto de incontinência). Em meio aquela arena abarrotada de casais grudados ao som daquela música estranha, o meu celular tocava. Foi ignorado até eu pegá-lo para conferir o horário. Tocou novamente, e do outro lado, mais um convite atraente. Dois amigos nossos, Leandro e Marcelo, nos chamava agora para uma festa particular:

-Cachaça e outras coisas mais! – falou Leandro.

Lá descobrimos que as “outras coisas” estavam inseridas num tubo transparente. Aquilo cheirava bem e o spray denunciava que o líquido misterioso sairia dali. Não demorou muito para que Flávia e Bárbara desvendassem o enigma. Com uma toalha na mão, elas molhavam compulsivamente o pano e levavam até a boca. Eu e Rosana demoramos um pouco para perceber e para tomar coragem de experimentar o tão falado Lança Perfume. Os movimentos ficaram lentos e os sons eram irritantes, o meu tímpano parecia explodir. Era aquilo que tanto usavam no Carnaval? Se as poucas falas que havia naquele momento eram insuportáveis aos meus ouvidos, eu não queria nunca ter a sensação de usar aquilo perto de um trio elétrico! O efeito daquilo é meio psicodélico. Eu apenas abaixei a cabeça e esperei o fim. Preferi continuar com as doses de vodka, mas as outras pareciam ter adorado o brinquedinho novo. Já os meninos dividiam-se entre goles, sugar a fragrância e tragos na marihuana.

A mistura proposital que fizemos na nossa primeira noite de loucura trouxe alguns resultados. Bárbara discutia sozinha idéias comunistas. Flávia ficou hiperativa, andava de um lado para o outro cambaleando. Rosana gargalhava. Eu acabei dormindo. Aquele dia terminou em sonhos. Sobrou apenas a afirmação de praxe: “é a primeira e última vez”.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

¼

Karina Oliveira
Abre-se a porta de madeira com 2 metros de altura por 70 de largura. As paredes azuis e o teto branco, que presenciaram vários momentos de tristeza, alegria, surpresa e apreensão, podem ser observados delimitando o espaço físico do quarto. Mas os sonhos, planos e fantasias nele construídos não têm fronteiras, vão muito mais além do que aquelas estruturas de bloco e cimento (paredes)
Ao entrar no local, pode-se observar do lado direto, um guarda-roupa padrão mogno, com cinco portas e três gavetas. Que guarda muito mais que roupas e sapatos. Através desse pode-se descobrir gostos e manias de sua dona, revelar um pouco da sua personalidade.
Posicionadas verticalmente (com relação ao guarda-roupa), foram dispostas milimetricamente duas camas de solteiro, com detalhe em sua cabeceira que lembram um formato de leque. Uma paralela a outra. Deixando o ambiente, com aproximadamente 16 metros quadrados, aconchegante.
À esquerda esta a cortina azul de 2,80 de altura com detalhes em branco, que impede temporariamente a luz irradiada pelo sol de transpor o vidro transparente da janela de alumínio com 1,20 de altura por 80 de largura, no centro da parede de frente para o guarda- roupa. Nesse momento, a claridade do ambiente fica por conta da lâmpada amarela, que em alguns momentos não favorece a iluminação do local, onde vitórias são festejadas e derrotas choradas.
Um móvel de madeira escura, antes utilizado para guardar uma máquina de costura, ganha nova utilidade, virou depósito de livros, apostilas e caderno de uma estudante de jornalismo.
Quanto ao pouco espaço que resta, deixa a mostra o chão coberto pelo piso amarelinho-claro, com desenhos marrom formando uma interessante figura em forma de flor.
Apesar do quarto não ter luxo e abrigar somente o necessário, consegue proporcionar uma calma que nenhum outro lugar pode oferecer. Transformando-se muitas vezes em refúgio, esconderijo e local de encontros. A sensação de proteção e aconchego proporcionada pelo ambiente é indescritível. A impressão que o local passa, é que depois que a porta é fechada, tudo de ruim fica do de fora e, nada de mal pode acontecer naquele mundo, tão infinito e particular.

Na mão do palhaço

Driely Lago

Marcamos para nos encontrar às 17h no shopping Barra. Iríamos sair para beber, mas a intenção era beber mesmo, se “encachaçar”, “encarcar o dente”. Nos alimentamos e depois fomos para o ponto esperar o ônibus Lapa. Começamos a beber ali mesmo.

- Vai? Meu amigo Joel nos pergunta tirando uma garrafa de cachaça de Abaira que, segundo nossa amiga Joisa, é a terceira melhor do país.

Pegamos o ônibus já “legais”. Enquanto Joel me perturbava falando do suposto peido que dei no ônibus do Luis Anselmo na volta do cursinho, eu olhava para a pista de skate localizada próxima à Lapa. Via aquelas manobras ridículas, um vai-e-vem de rodinhas sem novidades. Chatice.

Chegamos ao shopping center Lapa. E lá encontramos mais outro membro que iria fazer parte do grupo, Monique. Compramos uma daquelas coisas que parecem um barril de chopp, só que de vidro, comprido e bastante gelado, da onde a gente mesmo tira a cerveja da torneirinha. Bebíamos aquela cerveja ao som de um rapaz que, em pé no pequeno palco localizado no centro da praça de alimentação, tocava um violão. Ele cantava músicas de amor, as únicas que eu não queria ouvir. Joel, com seu estilo mais discreto, levanta as mãos e diz:

- Bora galera, vocês aí de baixo, todo mundo, vai!

Nós, que estávamos super animados por estarmos juntos, por ter uma amiga que tinha vindo do interior por nossa causa e por ter a terceira melhor cachaça do Brasil em mãos, levantamos as mãos junto com Joel e fizemos nossa festa, ali, no meio daquela praça abarrotada de gente.

Quando começamos a achar que o Center Lapa estava pequeno demais para nossa animação, nos mudamos para o bar Universitário, de frente para a ladeira dos barris. O bar estava cheio, uma televisão mostrava um jogo de futebol pelo qual não me interessei porque não vi o C do Corinthians.

Bebemos e, dessa vez, era pra valer. Entre um copo de cerveja e outro, eu, Luis (outro membro da equipe), Joel e Vomitinho (membro principal da equipe nesse dia), entornávamos uma dose de Abaira. Assim foi. Entre uma ida e outro ao banheiro, um sorriso, uma gargalhada, uma palhaçada.

O tempo correu e resolvemos ir embora, senão ficaria muito tarde para irmos embora, afinal iríamos para a casa de Monique, na Federação. Começa aí então nossa jornada. Vomitinho me disse que ia ao banheiro, pois precisava vomitar. Quando voltou, me olhou nos olhos, me abraçou e disse:

- Dri, não tô bem.

Andamos até a Praça da Piedade portando câmeras amadoras por todos os lados. Eu só fazia rir. Com Vomitinho no meu ombro, morria de medo dele cair, afinal, mesmo sendo do meu tamanho, sua barriga pesa bem mais do que a minha. Quando chegamos à praça, uma filmagem reveladora com depoimentos dos presentes:

- Meu amigo Vomitinho está na mão do palhaço, afirma Monique, com um sorriso querendo virar gargalhada nos lábios.

- Meu amigo Vomitinho está na mão do palhaço, afirma Joisa, com um sorriso quase inocente.

- Ele não está na mão do palhaço, ele já está escovando o palhaço, lembra Luis, um dos câmeras.

Depois do arquivo confidencial, pegamos um táxi e fomos para a casa de Monique. O taxista, com medo de ir até a casa dela, nos deixou na entrada da rua. Tive que subir a ladeira levando Vomitinho, pois ele dizia insistentemente:

- Dri, cadê você Dri, me deixa só não Dri...

Depois de uma ladainha que durou o suficiente para me fazer dormir com essa frase na cabeça, chegamos em casa e começamos a pior parte do trabalho: arrumar Vomitinho para dormir.

Enquanto Joel o segurava, eu tirava seus tênis de cor preta e meia soquete. Até que não tinha chulé. Se tivesse, morreria asfixiada só pelo tempo que levei para tirar os dois lados. Tiramos a blusa e Vomitinho diz, quer dizer, balbucia:

- Vocês vão me despir é?

- É Vomitinho - afirmamos em coro.

- Ui!, disse ele, com uma cara mais que safada.

Colocamos sua cabeça embaixo do chuveiro gelado. Joel o segurava e eu dava suporte à cabeça para ele não engolir água, quando Vomitinho grita:

- Tô me afogando!

Explodimos de tanto rir. Então tiramos seu short preto e colocamos uma cueca samba canção azul que Vomitinho tinha deixado na casa de Monique. Vestimos uma blusa. Enxugamos bem o cabelo crespo querendo virar “black power”. Nós o colocamos deitado. Recomeça a ladainha:

- Dri, não vai embora Dri. Não me deixa sozinho Dri.

Cristo! Ele não dorme não, pensei.

Demos água com açúcar, café preto sem açúcar, deram idéia até de chá de boldo, mas Luis aconselhava:

- Dá alguma coisa doce pra ele, e deixa ele quieto.

Caminhada ao ar livre com bêbado, banho coletivo, pois todos tentavam ajudar, ¾ de um balde laranja que Vomitinho via vermelho, um toque de leite condensado, uma xícara de café, água com açúcar, risadas a gosto. Essa foi a receita de um sábado inesquecível. Vomitinho pode não lembrar de nada, a tal amnésia alcoólica, mas nós lembramos de tudo.

Plano de saída

Alice Coelho

Era uma quarta-feira normal. Um dia de sol, sem uma nuvem no céu. Devem pensar que sou maluca pois, apesar do dia lindo, levo um casaco comigo. Faça chuva ou faça sol, ele está sempre comigo. É para não passar frio com o ar condicionado do trabalho e da faculdade.

Saio mais cedo do que o habitual para fazer alguns exames. Pensei que ia ser rápido. Exames de sangue e uma bobagem de raio X. Engano meu. Mal sabia do que me aguardava naquela clínica.

O estresse começa logo na chegada. Desci no ponto errado e tive que andar à beça. Até aí tudo bem. Depois de uns dez minutos, vi a plaquinha verde que indicava a clínica. É uma espécie de emergência, laboratório e clínica conjugados. Empurro a porta de vidro fumê e vou direto ao laboratório. Acostumada com o plano antigo, penso que não preciso de nenhuma autorização.

- A senhora tem que pegar autorização aqui ao lado – diz a atendente do laboratório.

- Mas são só exames de sangue – respondo.

- Mas o procedimento é esse senhora.

Aquela observação me irrita. “É o procedimento”, é só isso que eles sabem dizer. Contrariada, dirijo-me à sala ao lado. É uma saleta que tem mil cadeirinhas e três biombos de atendimento. Sem perceber que é preciso pegar senha, procuro logo a atendente.

- A senha senhora - diz a criatura que parece não estar de bom humor.

Sem responder, pego a dita senha e ponho na mesa. “Se ela não está de bom humor, eu também não”, pensei. Enquanto masca um chiclete, a atendente olha minhas requisições.

- É impossível autorizar senhora.

- Mas porquê?

- O médico não é credenciado do plano.

- Mas é uma requisição querida – repliquei.

- O sistema não aceita.
- Isso é um absurdo – disse, aumentando o tom da voz. Pago a consulta para ter atendimento mais rápido e agora você me diz que eu não posso fazer os exames porque as requisições não são de um médico credenciado?

- Só posso fazer se a gerente autorizar – diz ela.

- E quem é ela? - digo, estufando o peito e já com a garganta seca de raiva.

- Claudiane.

- E onde ela está agora?

- No 2º andar senhora – diz a figura com uma certa ironia.

Saio soltando fogo pelas ventas em direção ao elevador. Para variar, a tal gerente não tinha chegado ainda. Sento e fico balançando as pernas. A vontade que eu tinha era de falar, falar, falar. Aproveito o senhor que está ao lado e solto o verbo. No diálogo, descubro que ele também espera pela Claudiane. Mais uns dez minutos e ela chega.

Depois de muito blá, blá, blá, ela resolve me mandar para uma médica que está na clínica. Nada mais do que sentar na cadeira e esperar que ela preencha as requisições.

Com as abençoadas em mão, lá vou eu para a atendente do térreo. Deixei que meu sorriso malicioso falasse por mim enquanto entregava o documento. “Viu querida, eu consegui”, pensei comigo. Estranho como determinadas pessoas e situações conseguem mudar a gente. Não sou cínica e muito menos irônica, mas aquela moça havia despertado em mim sentimentos que não admiro. Podia ter tido um “treco” da raiva que passei.

Agora que tudo passou, penso se vale à pena todo esse estresse. Mas também acho que nada seria resolvido se fosse diferente. Vai saber. Homens modernos. Problemas modernos.

Quatro de outubro de 2002

Emerson Cunha
17h50, o sinal da escola toca. Toda sala da oitava série do Instituto Social Objetivo desce para o pátio. O colégio, bem pequeno, com apenas uma turma para casa série abrigava uma quantidade significativa de alunos desta sala. Alguns vão logo embora para suas casas, cansados de tanta aula, outros esperam seus responsáveis ou transportes escolares para levá-los, mas a maioria permanece na escola fazendo de tudo um pouco. Jogando bola, batendo papo, estudando ou simplesmente não fazendo nada. Mas dois alunos, Emerson Cunha e Izabel Carvalho, acabariam por ter um dia que mudaria as suas respectivas vidas.

Ele, um tipo moreno alto e magro, de cabelos crespos, óculos de grau, que sem eles não faria absolutamente nada, com apenas 15 anos vividos, mal sabia das coisas da vida. Garoto tímido e que fazia questão de ser discreto por onde passava, pouco sabia das mulheres e do que elas queriam, e não tinha noção de como aquele dia acabaria. Mas estava decidido em tentar, pela última vez, conquistar aquela garota que tanto desejava nas últimas semanas. Havia tentado outras vezes, sem sucesso, mas não queria deixar de lado algo que o consumia já há um tempo.

Ela, uma guria de pele branca, de estatura baixa, cabelos levemente ondulados, com um rosto angelical e bastante jovem, com apenas 14 anos de vida, assim como Emerson não tinha muita experiência de vida amorosa, mas, certamente, tinha mais do que ele.

Os dois, com as suas fardas cinza e calça jeans estavam sentados no banco mais escondido do colégio, próximo ao bebedouro, aonde ninguém sequer se aproximava. Olhando para o chão, envergonhados, nenhum dos dois haviam falado uma palavra sequer, até que ela:

- Diga o que você queria falar comigo...

- Não era nada demais - disse ele -. Queria conversar contigo sobre nós dois.

- Com relação a que? rebateu ela.

- Sobre tudo aquilo que eu te disse naquele outro dia. Com relação ao fato de que eu gosto de ti. Queria saber como que fica nossa situação.

Seu rosto branco, rapidamente ficou avermelhado de vergonha. Costumava ficar deste jeito sempre que ouvia coisas do tipo. Mas sem perder a compostura, disse-lhe:

- A gente pode até ficar, mas não aqui na escola, com todo mundo vendo.

Emerson já esperava ouvir algo do tipo, caso sua investida desse certo e já tinha pensado numa alternativa. A casa de seu melhor amigo que ficava próxima da escola. Seria o local ideal para aquela ocasião.

- Eu sei. Tem algum problema de irmos para casa de Jaime?

Ela relutou um pouco antes de dizer que não tinha problema algum. Pensou duas vezes, mas não vendo alternativa melhor, acabou aceitando a proposta e partiram os dois rumo a escadaria do edifício Maria Lúcia, na rua Santa Maria Gorethe. Era um prédio comum, de cor cinza, três andares e uma garagem bastante espaçosa que, nesta hora, começava a encher de carros com seus donos voltando para suas casas. Por isso, os dois ficaram na parte da escada que ligava o subsolo e a garagem, onde haviam dois apartamentos com portas marrom logo acima dos dois.

Assim que chegou ao local, ela se sentou, decepcionando as expectativas dele. Assim que chegasse ao local ideal, ele a agarraria e daria o melhor beijo que ela já tinha recebido. Achou que ela tinha desistido. Respirou fundo, ergueu suas duas mãos com pulseiras de bolinhas com símbolos japoneses para levantá-la e, assim que terminou, deu-lhe o melhor beijo de toda a sua vida.

- Achei que isso nunca fosse acontecer - disse ele com uma voz calma e baixa.

Novamente com o rosto avermelhado, Izabel não respondeu nada. Não precisava dizer coisa alguma num momento como aquele. Continuaram por mais algumas horas por ali, conversando, sendo interrompidos e, principalmente, construindo a base de um relacionamento que dura há quase cinco anos.

Um velhinho prá lá de educado!

Rafaela Anunciação

Terça-feira e, pra variar, o meu dia foi super corrido. O telefone que não parava de tocar, os clientes mal educados e alguns legais que precisei atender, os e-mails, os textos da Faculdade que precisava ler e o atual que, além de chato, é muito grande, enfim, fiz tudo que precisava fazer e saí correndo para conseguir chegar na Faculdade a tempo de pegar a primeira aula. Até aí era somente eu, meus problemas e pensamentos.

Peguei um ônibus e mais parecia uma sardinha dentro da lata, tipo aquelas que a gente compra em mercadinho, sabe? Pois bem! Como estava nessa situação, fui me empurrando até chegar bem na frente, quase perto do motorista, e fiquei tão próxima de um rapaz que o cara quase me oferece seu "colo amigo".

No ponto de transbordo do Iguatemi, o meu quase "íntimo" amigo me cedeu seu lugar. Detalhe: ele estava sentado no segundo banco, após o banco reservado para os velhinhos. Esse era, preferencialmente, para gestantes e deficientes físicos.

Ao meu lado, uma senhora, aparentando seus 45 anos, até educada. Usava óculos, vestia calça jeans e uma camiseta - dessas que a gente compra em liquidação nessas lojas de “povão” - que parecia da filha mais nova.

- Boa noite, eu lhe disse.

- Boa, ela me respondeu e virou o rosto para janela. Não parecia estar a fim de papo.

Ainda na Estação Iguatemi, subiu um senhor, baixinho e, como quase todos, usava uns óculos que, sinceramente, não sabia se eram dele, uma camiseta colorida quadriculada bem surrada e uma calça, sei lá, parecia brim. Calçava uma sandália de dedo e tinha uma cara de mau humor que dava medo até de olhar, parecia um mordomo de casa mal assombrada dos filmes.

- Eu acho um absurdo a gente ter que andar em um ônibus tão cheio e ainda por cima em pé - gritou ele, literalmente, no ouvido de um rapaz que estava ao seu lado.

O coitado chegou revirar os olhos e virar o rosto, acho que para rir.

- É verdade - disse o rapaz, agora com uma cara e um tom igualmente sérios.

E ele continuava, gritando, parecia um louco, em períodos de ataques, que era um absurdo e blá,blá,blá.... Eu continuava com meus pensamentos, só que não tão entretida, afinal, ele não deixava. Quando estou bem distraída, senti algo pesado sobre meus ombros.

- Você está ouvindo o que estou falando, mocinha? Me perguntou ele, acho que com todo resto de força que ainda tinha.

Levantei a cabeça que estava baixa e, com cara de paisagem, disse:

- Só não ouve quem não quer, o senhor está gritando!

- Você é muito atrevida, será que deixou a educação em casa ou não recebeu?

Olhei para ele, agora, realmente séria, como podia alguém que nem conheço me ofender desse jeito. Fiquei p. da vida. Como se não bastasse me chamar de mal educada, o simpático velhinho pegou em meu braço como me forçando a levantar. Acho que nem minha mãe faz mais aquilo comigo. Aí, o sangue ferveu. A senhora ao meu lado e quase todo o ônibus olhava com uma cara meio séria e ao mesmo tempo com um sorriso, desses que agente tenta não escancarar, sabe?

- Afinal de contas tio, qual é o seu problema? Perguntei ainda tentando ser educada.

- Quero que você saia do meu lugar - ele me disse.

Soltei um sorriso sarcástico e pensei: agora chegou minha vez!

- O senhor sabe ler? Foi alfabetizado?

Ele me olhava com cara de poucos amigos

- Quero que você levante porque esse lugar é meu – afirmava, como se fosse o dono da verdade.

Velho abusado. O cara estava se achando.

- Por acaso o senhor é deficiente ou está grávido?

Acho que foi o fim da picada para ele, pois me fulminava com o olhar. Ele ainda segurava meu braço e agora com tanta força que já estava dolorido. Me livrei com um movimento rápido e brusco.

- Você está de brincadeira comigo?

- Não. Só tenho certeza que o mal educado aqui é o senhor - olha como fui educadinha - além de estar gritando e me apertando, ainda está fora da sua razão. Esse lugar é reservado, preferencialmente, fiz questão de soletrar letra por letra, para gestantes e deficientes físicos e, a menos que o senhor se enquadre em uma das situações, esse lugar não é seu.

Nesse momento me senti. Deixei o pobre velhinho sem palavras.
O ônibus ainda estava muito cheio e, por isso, ele não teve como sair de perto de mim. Senti que ele ficou com vergonha e, devo confessar, eu também. Não gosto de agir assim, mas foi ele quem pediu!

Meu ponto se aproximou e eu levantei, porém antes fiz a boa vontade do dia, ou melhor, da noite.

- Senhor, pode sentar, eu já vou soltar.

Acho que ele sentiu vontade de me jogar pela janela, mas mesmo assim sentou. Antes de descer ainda consegui ouvir o velhinho comentar com a senhora simpática que estava ao meu lado:

- Esses jovens não respeitam mais ninguém.

Minha casa é inesquecível

O local que escolhi é uma casa, simples, bonita, grande e aconchegante. Se torna inesquecível para quem teve o prazer de visita-lá. Lá todos que passam deixam histórias inesquecíveis para serem lembradas todas as vezes que eles retornam.
Essa casa nasceu em Jauá, que faz parte da cidade de Camaçari, e pertence aos meus pais há quase 4 anos. O lugar não é muito movimentado, típico de um local meio interiorano e a residência é das que constitui um condomínio chamado Lagoa de Jauá, próximo à pracinha principal do sub-distrito, com um pouco mais de 420m2 , se torna algo impossível de não ser notado por todos que passam pela rua.
O recanto onde hoje meus pais vivem, possui nove quartos, cinco banheiros, uma cozinha, duas salas e poucos móveis, que se encontram em uma das salas e na cozinha. Dentro da casa o que é mais atraente são os colchões para dormi e uma televisão para se divertir , já no exterior há uma piscina com 24m2, varias árvores frutíferas e em volta de uma grande churrasqueira flores que dá cores diversas ao espaço já tal bonito .
Da casa ainda temos o privilégio de ter o mar como vizinho e companheiro dos dias de sol, para agradar a todos que desfrutam “o recanto da alegria”. A noite não tem muito a fazer além de olhar para o céu e cortejar a lua, mas quando toda a família está reunida, as travessuras surgem como num par de mágicas, essa casa é muito especial, é totalmente abençoada por Deus.
Quem conheceu nunca irá esquecer!

Mais um dia

Por karina Oliveira
Como de costume, acordei aproximadamente às 10h, pois tenho insônia e não consigo dormir direito à noite. A sensação de ficar rolando e vendo o dia clarear não é muito agradável e o reflexo pode ser percebido no meu humor. Levantei-me e liguei a televisão. Vi que estava passando na Band um programa de culinária. Tentei assistir um pouco, mas a fome falou mais alto. Deixei a TV ligada e fui à cozinha ver o que tinha para comer. Abri a geladeira e peguei os ingredientes necessários para prepara o café da manhã.

Às 11h30 dei início ao longo e cansativo processo, que é a arrumação da casa. Ouvindo uma seqüência de música previamente escolhida. Djavan, Lulu Santos e Negra Lee. Não sei o que acontece, mas não consigo fazer nada sem ouvir música. Fica um clima estranho, aquele "silêncio ensurdecedor". Aumentei o volume, e enquanto arrumava a casa, cantava que nem uma descontrolada. O tempo passou rápido, parecia estar contra mim. Quando olhei para o relógio e percebi que estava perto da hora do almoço, tentei adiantar o serviço, até que as 11h52 percebi que havia terminado minha jornada de todos os dias.

Sentei no sofá e continuei selecionado as músicas até 13h. Aquelas melodias, letras e ritmos mexeram comigo. Fiquei triste. Pensei na vida, no que havia feito e deixado de fazer. Mas o tempo não pára e a fome mostra seus sinais novamente.

Desliguei a música e corri para a cozinha, aquela sensação de melancolia não me incomodava mais. Peguei o prato, mas não estava como muita fome. Comecei a me servir; feijão preto, arroz branco, frango e salada. Depois voltei para sala e aproveitei para assistir o jornal hoje, que estava passando na Globo. Fiquei lá sentada ate o programa acabar. Levantei-me e andei em direção ao quarto para começar a ler o tal do livro; A moderna tradição brasileira. A leitura era um pouco chata, mas tinha que ser feita. Enfrentei bravamente o meu desafio de ler aquelas intermináveis linhas. Por volta das 15h terminei o árduo sacrifício.

Então, dei início outra jornada. A preparação para faculdade! Arrumei a bolsa, coloquei tudo que ia precisar; livros que deveria devolver na biblioteca, caderno, canetas e celular. Quando de repente, fui surpreendida com a falta de energia elétrica. Não quis acreditar que com aquele tempo nublado ia ter que tomar banho frio. Eu detesto banho frio! Pulei para lá e para cá, ate que terminei. Olhando pelo lado positivo ate que foi uma experiência bem legal tomar banho a luz de vela.. Passei para o quarto e rapidamente me arrumei para sair. Peguei a bolsa e o capote. Confesso que não queria ir para a faculdade. Nesse momento houve um "confronto árduo e feroz" dentro de mim. 51% de mim queria ir para a aula e aprender novas coisas e os outros famigerados 49% queriam o aconchego da minha cama. Depois de um tempo de confusão mental, decidi... fui!

O processo não foi tão horrível, após 30m no ônibus, relativamente cheio, lá estava eu no laboratório de informática, sentada, ouvindo e viajando ao mesmo tempo na explicação da atividade que deveria ser realizada durante a aula. Parecia o fim de mais um dia, porém ainda faltavam três viagens a serem realizadas; a primeira do Ise, onde tinha assistido à aula de Redação III para o Isba, lugar em que, começaria a segunda (viagem); aula de Filosofia. Pense na pessoa que fica voando e que se pergunta o tempo todo: "o que estou fazendo aqui"? Não obtive resposta, mesmo assim continuei "assistindo" a aula, para finalmente dar continuidade a última e mais prazerosa das viagens (terceira) à volta para casa.

22h chego ao ponto de ônibus próximo a Faculdade. Vejo que tem poucas pessoas e, que essas também vão pegar o mesmo ônibus; o famoso (somente para quem espera ansiosamente por ele todas as noites), Vila Ruy Barbosa. Eis que surge ele em meio a paisagem da orla. Todos se preparam para subir, e entrar primeiro. Eles parecem tentar desmentir aquela lei da física "dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço". Ou seja, é um empurra-empurra generalizado até que todos subam, e a paz volte a reinar. São mais 30m de viagem até chegar ao bairro onde moro. Entro em casa e fico pensando no novo dia e nas coisas que tenho para fazer. Antes que entre em parafuso, fecho os olhos e durmo

Intolerância

Leandro Colling

Falar dos alunos. A conversa em torno do tema preferido entre os professores foi interrompida na tarde do dia 15 de março, quando Leandro Colling e Walter Garcia estavam na pequena sala de professores, da Faculdade Social da Bahia, e foram surpreendidos com a entrada uma mulher. Não parecia ser uma das alunas chatas que insistem em querer conversar com os professores justamente nos seus horários de folga. Ela pediu licença. Dizia ser representante de uma empresa que “divulga a saúde para as pessoas”. Queria vender livros de automedicação e Walter, um simpático senhor alto, meio gordo e bonachão, sempre vestido com camisetas meio surradas e folgadas, disse, cal-ma-men-te:

- Me desculpe, mas eu não estou interessado. Eu vou ao médico quando preciso.

A segunda frase saiu em um tom meio irônico, com um sorriso no canto da boca e um olhar cúmplice dirigido a Leandro. A mulher, que usava um daqueles conjuntinhos creme, preferidos pelas senhoras respeitáveis freqüentadoras dos cultos dominicais, logo demonstrou ser uma destas vendedoras de call center programadas para não desistir nunca. Insistiu na oferta e alegou ter informações úteis. Ele respirou fundo, provocou um ruído chato típico daquelas cadeiras giratórias com estofado vermelho distribuídas ao redor da mesa central, impostou ainda mais a sua voz já grave e continuou:

- Estou sendo educado contigo. Vou repetir: eu não estou interessado.

A mulher percebeu que não venderia nada ao Walter e passou a abordar Leandro diretamente. Talvez imaginasse que seria mais fácil convencer o loiro magrinho, sempre confundido com alunos da faculdade por usar, via de regra, camiseta, calça jeans e o mesmo tênis Adidas verde desbotado. Ela começou a mostrar os livros, abriu vários deles sobre a mesa creme. Sem dar muita atenção, Leandro disse que não estava interessado. Ela parece finalmente entender que tinha entrado na sala errada e começou a falar em Deus. Como ambos continuaram sem dar atenção, ela se despediu:

- Que Deus o abençoe!

Leandro decidiu que era a hora de sacar aquela frase que sempre quis usar desde o dia em que leu no jornal A Tarde que uma mãe de santo havia dito algo parecido em resposta para um pastor de uma igreja evangélica em pleno centro de Salvador naquela confusão da Avenida Sete com dezenas de meninos gritando Ó pai ó por três real.

- E os orixás também! – disse Leandro, pausadamente e com o semblante sério.

- Só Deus - replicou ela, rapidamente.

- Respeite as crenças alheias e eu respeito a sua! – respondeu Leandro, já um pouquinho irritado com a confirmação de todas as suas impressões sobre aquela mulher de cabelo escovado (seria uma escova progressiva?) que interrompeu o seu agradável bate-papo com o colega.

- Tudo bem, fica com Deus - insistiu ela.

- E com Yemanjá também! – retrucou Leandro

- Não, Yemanjá não! – rebateu ela.

A partir daí, Leandro, rosto quase tão vermelho quanto a sua camiseta preferida das quartas-feiras, perdeu a paciência e atacou.

- Ou a senhora sai imediatamente desta sala ou vou denunciá-la por discriminação religiosa!

Ela percebeu que não poderia brincar com o assunto. Deveria ter lido a mesma matéria do jornal A Tarde pelas mãos trêmulas de um pastor esbravejando na Catedral da Fé.

- O senhor me desculpa?

- Só se você sumir da minha frente – disse Leandro, quase aos berros.

Ela se dirigiu à porta, fez um sinal positivo e, bem baixinho, quase imperceptível, disse ainda antes de sair:

- Fica com Deus.

Tortura moderna

“Tenta sim. Vai ficar lindo.”

Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa.

Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.

- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.

- Vai depilar o quê?

- Virilha.

- Normal ou cavada?

Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.

- Cavada mesmo.

- Amanhã, às... deixa eu ver...13h?

- Ok. Marcado.

Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor.

De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.

- Querida, pode deitar. Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.

- Quer bem cavada?

- ...é... é, isso.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.

- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.

- Ah, sim, claro.

Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).

- Pode abrir as pernas.

- Assim?

- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.

- Arreganhada, né?

Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.

Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar.

Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural.

Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.

- Tudo ótimo. E você?

Ela riu de novo como quem pensa 'que garota estranha'. Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes.

O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.

- Quer que tire dos lábios?

- Não, eu quero só virilha, bigode não.

- Não, querida, os lábios dela aqui ó.

Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.

- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor. Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.

- Olha, tá ficando linda essa depilação.

- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto. Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas.

Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo.

'Me leva daqui, Deus, me teletransporta'. Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.

- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?

- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada. Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?

- Hein?

- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.

Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.

- Segura sua bunda aqui?

- Hein?

- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.

Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:

- Tudo bem, Pê?

- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.

Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu tuin peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá?

Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.

- Vira agora do outro lado.

Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.

- Penélope, empresta um chumaço de algodão? Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.

- Máquina de quê?!

- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.

- Dói?

- Dói nada.

- Tá, passa essa merda...

- Baixa a calcinha, por favor.

Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha?

E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.

- Prontinha. Posso passar um talco?

- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.

- Tá linda! Pode namorar muito agora.

Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada. Queria comprar o domínio http://www.preserveaspeludas.com.br.

Retirado do http://diariodeumliso.blogspot.com/2007/06/penlope-depiladora.html

Aventura no 6° Ecco Free Road

Rafaela Lima
Fui convidada por minha tia Claudia para participar da Ecco Free Road – uma trilha de carros 4x4 pra Chapada Diamantina – um grupo grande denominado comboio. Ao todo, eram 50 carros. A maioria dos participantes tinha apelidos e quem não tinha provavelmente passou a ter. Em nosso carro, além de mim (arco-íris) e Claudia (sem terra), estavam também Ana Paula (senhora) e Sefora.
Depois de ter passado a tarde e a noite na estrada, chegou o primeiro dia de trilha com destino a Gruta Lapa Doce. Acordei por volta das 8h, com Claudia batendo na porta do meu quarto e dizendo pra mim e Sefora nos arrumarmos rápido, pois tínhamos que estar às 9h no posto de Ceabra, cidade onde ficamos hospedadas. De lá, sairíamos com parte do grupo ao encontro dos restantes, que se encontravam hospedados em Iaraquara, e de lá iríamos para a Lapa Doce.
Tudo ocorreu certinho. Rapidamente tomei banho, me arrumei, tomei café e, logo em seguida, fui para o posto. Chegando lá, todos já estavam preparados aguardando o momento de ir rumo à estrada.
Assim que começamos a se deslocar por uma estrada de barro, já que a de asfalto era mais um tapete de buracos, não conseguia parar de pensar em todas as aventuras que estavam por vir. A comunicação, através do rádio, entre os componentes do comboio, era frenética. Todos estavam torcendo para que a chuva caísse e um lamaçal fosse formado, para que precisássemos usar todas as nossas forças para conseguir retornar, quem sabe, para a cidade.
Não demorou muito e chegamos a Iraquara e nos encontramos com o restante do comboio. Foi preciso demorar um pouco nesta cidade, já que tínhamos que abastecer a geladerinha: água, cerveja, refrigerante, energético, todinho, suco, gelo. Foi preciso também levar alimentos: salgadinho, biscoito, queijo, presunto, pão. Tá achando que estamos levando coisa demais? Não se engane, pois tudo ainda era pouco. Tentamos encontrar um frango frito, aqueles de tv de cachorro, mas nada feito. Assim, tivemos que pegar a estrada levando apenas lanches que, até determinado horário, iriam servir para matar a nossa fome. Toca a sirene de Urubu (quem guia o comboio) e todos entram nos seus carros e lá vamos nós.
Eu fiquei estarrecida com a beleza da Chapada. A partir da estrada, era possível ver o Morro do Pai Inácio e o Morro do Camelo. Sefora tentava tirar fotos com o carro em movimento. Chegou a pedir algumas vezes para Senhora parar o carro para assim tirar melhor as fotos.
Apesar da torcida para que o dia fosse chuvoso, o sol mostrou todo seu brilho, fazendo o frio na serra sumir. Ainda bem que isso não foi nenhum problema. O comboio já estava tomado pela diversão. A comunicação no rádio não parava um segundo. Era um perturbando o outro. Quando ninguém tinha o que falar, alguém inventava algo.
Durante o percurso, ocorreram algumas paradas para quem quisesse ir ao matinho fazer o que era preciso e aproveitar para fazer escambo. Isso acontece bastante. No nosso caso, então, como só tínhamos lanches, algumas vezes fizemos troca com Repetidora, que sempre leva farofas deliciosas com carne e calabresa.
Passaram algumas horas e chegamos ao local predestinado, a Lapa Doce. Procurei logo um guia e fui enchendo ele de perguntas sobre o lugar e tudo que havia de diferente para explorar enquanto estivéssemos ali. Após todas as explicações, foi exatamente o que fiz. Juntei-me a um grupo de jovens que faziam parte do comboio. Quando menos esperei, já estava fazendo amizade com vários outros componentes do grupo, todos com idades variadas.
Para conhecer a gruta, era preciso fechar um grupo com 13 pessoas e o nosso já estava completo. Minha tia e as amigas Ana e Sefora não quiseram ir. Eu, claro, me joguei com a cara e a coragem.
E fomos rumo ao desconhecido. O coração parecia que ia saltar do meu corpo, pois a descida chegava a quase 70 metros de profundidade, sem falar que, malmente, se tinha onde segurar e a “escada”, na verdade, era composta pelas pedras que, com o passar do tempo, foram se moldando. Ocorreu tudo bem e cheguei viva e inteira na entrada da gruta.
Levei a câmera fotográfica, que já se encontrava em minhas mãos. Também estava com uma lanterna, que peguei de um garoto que havia acabado de conhecer. O seu apelido era Panterinha. Dela não mais desgrudei. A deixei ligada quase o tempo todo.
O passeio por dentro da gruta foi maravilhoso. Aquela situação foi totalmente nova para mim. A era temperatura deliciosa. Dá para perceber o quanto somos pequeninos perante a mãe natureza e como é viver numa caverna sem iluminação. Cheguei a me sentir como nos filmes “Querida encolhi as crianças” e “Na era Paleolítica”.
O bicho voltou a pegar quando chegamos ao final, quando era preciso subir, mas sobrevivi e tudo terminou bem. Encantada com tudo que tinha visto, fui ao encontro das meninas para contar as novidades e mostrar as fotos que havia conseguido tirar. Depois, fomos comer algumas coisas, conversar com as pessoas.
Em outro momento, Sem Terra foi para o carro tirar um cochilo e eu Senhora e Sefora fomos conhecer o rio de águas cristalinas que fazia parte do cenário da Lapa Doce, só que em outra parte. A Tirolesa – uma corda de aço presa de uma ponta a outra do rio, chegando a 7 m de altura – se encontrava cheia de pessoas pulando a partir de um trampolim. Nós ficamos observando durante alguns minutos. Até Véio, que é um dos mais velhos do grupo, saltou.
Eu estava instigada a pular, mas a coragem me faltava. Fui ver a parte de mergulho. Voltei a observar a tirolesa e percebi que não tinha mais ninguém. Então, resolvi ter coragem para saltar. Ana me deu o maior apoio. Passei por todo um preparo de equipamento e psicológico. Eu cheguei até a ponta do trampolim umas três vezes e voltava com medo, dizendo que havia desistido, até que, na quarta vez, me joguei com toda a coragem. Deis dois gritos longos a ponto de fazer todos do lugar pararem para procurar de onde estava vindo todo aquele barulho. Foi espetacular!
Após o salto, me juntei aos rapazes Xuparino, Panteirinha, Tchutchuquiro, Duzentos e vinte e Aquárino. Depois, chegaram duas garotas. A aventura não parou por aí. Começamos a nadar pelo rio e um dos garotos me emprestou os óculos de mergulho e pude observar claramente a quantidade de peixes. A água era cristalina.
Os meninos me chamaram para nadarmos por dentro de uma gruta e eu, com minha gracinha, fui me pendurando em Duzentos e vinte já que, ao se aproximar da gruta, tinha uma monte de matinho. O passeio foi bem menos curto que o outro, não chegou a durar meia hora, mas parecia ter uma eternidade, já que o local era bastante apertado e escuro. Fora da água, ficavam apenas nossas cabeças praticamente prensadas entre as pedras. Em um momento, era preciso rastejar por uma pedra. Por sorte, era lisa e, até que enfim, a luz voltou e eu estava sã e salva fora da gruta. Depois disso, saímos da água e não demorou muito para que a sirene tocasse avisando que estava na hora de retornamos pra cidade onde estávamos hospedados.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Mais um dia da minha vida

Yuri Barreto

Terça-feira, 11 de setembro.

Acordei, olhei para o pulso e visualizei o relógio, marcava 6h. A hora exata de levantar, depois tomar banho, café, deixar minha mãe no trabalho e seguir para o estágio.

O tráfego em Brotas, sempre congestionado, com excesso de sinaleiras, gente atravessando a rua, gente fazendo caminhadas. Penso como podem as pessoas achar saudável esta caminhada?.... Respirando gases, buzinas tocando, pessoas nervosas, como se o início do dia já fosse o final.

Saindo de Brotas chego até a Avenida Sete de Setembro, o mesmo sufoco. Camelôs já se arrumando para iniciar o seu grito: “olhe o vestido de Bebel...”. Chego ao jornal, começa mais um dia de estágio. Abro a agenda já preparado e com o pensamento voltado para as matérias que vou construir, pessoas que vou entrevistar, e-mails para transmitir, e toda a ansiedade para as respostas que aguardo receber. Estabeleço mais contatos, preparo o material, corrijo mais uma vez, até receber o sinal da minha mente, está pronto!

A manhã passa depressa, as horas voam e, de repente, me deparo já pensando no resto do dia. Vou para casa abrir o meu e-mail, tomar providências para adiantar os trabalhos do dia subseqüente, antes que “hoje” termine. Passo também a me preocupar com algumas atividades que devo levar para a Faculdade à noite. Tenho um trabalho a fazer, preciso sair mais cedo para evitar os engarrafamentos. Quando vejo, quase 18h, tudo novamente. Avenidas repletas de carros, ligo o som e escuto meu samba para relaxar, a mente acalma, o celular toca. É um amigo querendo saber se vou ao jogo do Vitória. Não dá, tenho aula, aguardo ansioso para saber, no final, o resultado. Se valeu a pena esperar, volto para casa feliz, de volta para casa!......

Mais uma segunda

POR ISIS SANTANA

Segunda-feira, 10 de setembro de 2007, às 5h45min, o despertador do celular toca mais uma vez, anunciado o início do meu dia. Ainda com bastante sono e preguiça, levanto da cama, faço uma breve oração, pedindo a Deus que me proteja e me dê força para enfrentar mais um dia. Vou para o banheiro tomar banho e já entro pensando no que tenho para resolver depois do trabalho. Às 7h45 saio de casa e, durante o percurso, para o ponto de ônibus, como quase todos os dias, encontrei com um meu vizinho seu Durvalino, cumprimentei-o com um bom dia e segui.

Ás 7h48 já estava na CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas), onde faço estágio. Quando entrei na sala onde trabalho, observei que meu supervisor não tinha chegado, ainda bem, fico meio constrangida quando chego depois do supervisor, é bom não dar motivos para reclamações. Às 8h comecei a fazer minhas atividades do estágio conversei com dois colegas, Jamile, que estava um pouco chateada porque havia marcado de fazer uma tatuagem no sábado, mas o tatuador desmarcou e Dayvison, que estava alegre, pois tinha viajado para Itaberaba com os primos.
13h: fui para o refeitório almoçar, Jamile, como sempre com suas saladas e sucos de abacaxi com casca, para ela é um santo remédio, que ajuda emagrecer. Às 13h30 voltei para minha sala e fui ligar para meu namorado, como costumo fazer todos os dias nesse horário, amenizando assim a saudade que sinto dele, durante a semana.

Às 16h saí do trabalho e passei no banco para tirar um extrato rapidamente, fiquei preocupada, o dinheiro que tenho não vai dar para cobrir as despesas desse mês, vou ter que pedir auxilio para minha mãe, e já to imaginando os sermões, dizendo que eu preciso aprender a controlar meus gastos. Fui caminhando até a Lapa. Ao chegar no terminal, observei a agitação por parte dos passageiros e pensei, será paralisação dos rodoviários ou manifestação estudantil? Logo resolve buscar informações com um agente de transito, meio inseguro ele informou, que o tumulto na estação, erra devido à mudança, nos pontos de ônibus, que a prefeitura fez sem avisar previamente à população. Ás 18h peguei o ônibus para ir à faculdade, tava com algumas apostila para dar uma lida, mas não consegui, porque no fundo do ônibus tinha seis estudantes adolescentes, fazendo batuque e cantando pagode, fique chateada, pois tudo que eu queria naquele momento, erra apenas um pouco de tranqüilidade. 18h36: cheguei na faculdade cansada, mas como todos os dias presentes na aula.

Gente que Faz

Por Lívia Melo


Tem gente que faz de tudo, trabalha, estuda, passeia, faz caridades, esportes, ginástica, se dedica aos filhos, à religião, a família, enfim, na rotina de mais um dia de trabalho, consumida pelo cansaço e agitada para pegar a primeira aula, chega ela a faculdade, Danutta de Araújo Rodrigues. Uma futura jornalista com sonhos de uma carreira promissora.
Nascida em 25 de janeiro de 1984, do signo de aquário, visão futurista é o que não falta, afinal, seu signo está à frente de todos os outros no zodíaco. Dotada de muita atenção às aulas e olhar fixo a tudo que acontece, a jovem de 1,53m, cabelos castanhos escuros na altura dos ombros, e pesando 56 quilos, não deixa escapar nada a sua volta. Sempre sorridente, esbanja simpatia e simplicidade perante seus colegas.
Na maioria das vezes postando uma mochila nas costas de tamanho volumoso, parece uma viajante, podendo até participar do programa “na carona”. Entre uma aula e outra procura sempre estar bem informada dos assuntos e trabalhos deixados pelo corpo docente.Tímida para quem não a conhece e bem expressiva para os mais íntimos, a futura profissional das comunicações, vê que apesar do crescimento na área do jornalismo, pois a procura pelo curso tem sido bastante pleiteada, se preocupa com a falta de espaço para tantos profissionais.
Todos os dias no mesmo “bate canal” às 18:20, encontramos esta “pequena notável” na Faculdade social da Bahia (FSBA), no tramite para conseguir adequar seu curriculum. O esforço é grande, contudo não existe desmotivação, mesmo cursando matérias de semestres diferentes, que aos olhos dos demais parece mesmo uma salada de frutas.
Danutta por se baixinha, adora um salto alto, gosta de fazer caras de intelectual, tem bons relacionamentos com quem as conhece e segundo suas “falas”, adora ler. Moradora do bairro Costa Azul, mora com os pais, sua pretensão é antes de constituir uma família ser uma mulher bem sucedida, independente, apesar de ver na família a base de todo um alicerce. Numa porcentagem, podemos dividir sua postura, onde 50% de uma pessoa séria, firme, que contrapõe com seus 50% de engraçada, equilíbrio este que ajuda a observar e tomar decisões pensadas, na hora certa.
Como toda mulher para manter a forma, adora malhar, apesar de estar parada no momento, vive sonhando em perder aqueles quilinhos indesejáveis. Ir ao teatro e estar antenada com as novidades faz dela bem informada.
Sentada no fundo da sala, ninguém diz como esta pequenina tem tanta vontade de aprender, crítica, gosta de ser perfeccionista, se não fosse assim, não teria reformulado tantas vezes uma matéria a ser entregue antes mesmo do professor sequer ter olhado. Em conversas gosta de fazer perguntas, ir fundo nas coisas, contextualizar tudo, tendo vocação para repórter sem dúvidas.
O bom de tudo é que a pouco tempo, Danutta pode ser vista como “gente que faz”, amiga nas horas vagas e profissional nas horas precisas. Comunicação tá no sangue e com tanta vontade de conquistar seu espaço, a baixinha ta correndo atrás.

FAZENDA LAPA DOCE

Rafaela Lima
Lapa doce é uma encantadora mistura de beleza e mistérios. Sonho que não temos vontade de acordar, apenas aproveitar ao máximo tudo que ele nos proporciona.
Relaxar, se divertir de forma mais calma, aproveitando suas águas e grutas que não são estreitas e uma temperatura amena. A também diversão para quem gosta de adrenalina; visitar as grutas escuras onde muitas vezes só pode passar um de cada vez, por de baixo da água e sem luz; pular da tirolesa - corda de aço que fica de um lado a outro do rio, a pessoa é pendurada nela através de um suporte indo de um trampolim ate à água – a altura é coisa de louco, mas nada que não possa suportar.
A gruta mais famosa tem o mesmo nome da fazenda Lapa Doce. Ela
nos faz sentir pequeninos perante sua grandiosidade. É preciso descer “escadas”, onde colocaram corrimãos de madeira. A decida é entorno de 70 metros de profundidade. Ao chegar é notável a mudança de temperatura que fica entre 18 a 20 graus, um ar condicionado natural.
Ainda em seu interior existe água, mas bem menos, pois enquanto caminhamos não nos molhamos apenas em alguns trechos da gruta com a lanterna se percebe a existência dela.
Chegando ao final é preciso “escalar” pedras que facilitam nossas subidas, pois com o tempo foram se juntando e se transformando numa espécie de escada. A distancia é quase a mesma da decida.
A um rio na fazenda que não passa por dentro da gruta lapa doce mas faz parte de todo seu contexto natural e as formações de “esculturas”.
Um rio de águas cristalinas, bastante parecido com as praias do Caribe sendo possível ver seu fundo. Há locais que a profundidade chega a ter 5m. Variados são os tipos de peixe que o habita, tendo um equipamento básico de mergulho já se podem ver claramente todos eles. Rodeados por uma mata verde, uma natureza quase intocada pelo homem, as pedras gigantes também faz parte do esplendoroso cenário natural, formando grutas de todos os tamanhos. Podendo ser visitadas andando sem precisar passar pelas águas ou ás que somente pelo rio se pode chegar.

A calma e a exuberância do verde

Pedro Levindo

Não se vê muito do terreno logo de início, pois apenas uma pequena parte dele é plana, e é justamente neste pedaço que fica a casa. À frente dela, parte do terreno é inclinada. Adornam esse pedaço algumas árvores, nenhuma delas em grande combinação uma com a outra, pois são todas de espécies diferentes. Três são os pinheiros, que já foram cinco, e três também são as palmeiras, que, juntamente com cinco pequenos coqueiros, dão um ar tropical ao jardim. Uma mangueira, plantada à revelia da dona da casa, destoa do resto e completa o cenário. Houve até tentativas de retirar a pobrezinha de lá, mas estas foram repetidamente rechaçadas, e da mesma forma despreocupada com que foi plantada, a mangueira foi crescendo, crescendo e ficou. Embora nada combine com nada, lugar é visualmente bastante harmonioso.

Ao lado dos coqueiros, a cerca que circunda a propriedade é coberta com diferentes espécies de graxas, bouganvilles e outras pequenas plantas floridas. Um pouco ao norte, ao lado do portão, duas pitangueiras voltam a apresentar o contraste entre as plantas ornamentais, digamos, e as frutíferas.

A mistura entre estas e as espécies não-frutíferas continua na parte menos visível – e mais exuberante - do jardim: os fundos da casa. Colada à parede dos fundos, uma parede com três espécies de flores tropicais. Vermelhas e laranjas, dão um colorido exótico ao ambiente. Cerca de quatro metros depois da construção terminar, começa um acentuado declive, chamado por todos simplesmente de “a ribanceira”. A ribanceira termina num pequena charco, cuja parte seca antigamente abrigava uma horta e uma plantação de bananeiras e figueiras, entre outras árvores de frutos. Contudo, após a colocação de uma cerca entre o charco e o final da ribanceira (para evitar a fuga dos três cachorros, hoje reduzidos a dois), o interesse em se criar algo lá embaixo foi se perdendo, até ser esquecido por completo. Hoje a área do charco, que seca nos meses mais quentes, é apenas um grande matagal, morada de sapos, cobras e outros bichos que, junto com algumas bananeiras, conseguiram sobreviver ao abandono.

A situação não é tão ruim na ribanceira em si. Não por esmero no cuidado da manutenção da grama ou no corte do mato, pois grama e mato não há mais ali. A área, antigamente ensolarada e livre, vive hoje sob a bela sombra das cinco mangueiras e três jambeiros que, antigamente pequenos, permitiam às plantas menores acesso a seu meio de sobrevivência: a luz do sol. Os moradores costumavam, quando pequenos, escorregar ladeira abaixo em caixas de papelão. Depois, cansados, sentavam-se no topo da ladeira, em meio ao rosa das flores de jambo caídas na primavera, e admirar, por cima das folhas verdes das pequenas mangueiras, toda a vastidão da área. Hoje, contudo, a beleza encontra-se na vastidão das árvores em si, gigantes verdes que, apesar das mudanças proporcionadas pelo tempo, continuam a perpassar as mesmas sensações de antes: profundas calma e admiração diante da extrema beleza contida no fino equilíbrio entre a exuberante mistura de cores, dentre elas reinando os infindáveis tons do mais puro verde.

Um dia de estagiária, secretária, ouvinte e dinda

Por Arysa Souza

O meu despertador biológico é mais preciso do que gostaria: não atrasa. A sua exatidão desperta-me diariamente às 6h20. Hoje não foi diferente. Os meus sininhos internos fizeram-me acordar para mais uma segunda-feira. O dia estava chuvoso, mas a tarde seguiria com alguns raios de sol e o incômodo por estar com aquela blusa de mangas compridas era quase previsível. Acabei optando por vestir duas blusas. O suficiente para me proteger do frio e prático o bastante para que eu pudesse retirar a mais calorenta e me refrescar. Eu estava certa. No caminho do trabalho o céu livrou-se das nuvens cinzas. Continuei vestida com a armação dupla. O azul celestial continuava, mas a sala gélida do trabalho me esperava.

Como de costume, cheguei cedo, às 7h30, e encontrei a sala vazia. Nas segundas quase nunca aproveito os 30 minutos que me sobram para tirar um cochilo. Tinha muito a fazer, sobretudo quando recebi a notícia de que a secretária iria faltar. Ou seja, hoje eu tinha a difícil tarefa de multiplicar as horas. Comecei vasculhando os oito jornais, acumulados devido ao feriado. Em busca de notas que citassem os cliente da empresa, eu me perdia em algumas notícias sanguinárias do final de semana “prolongado” e, certamente, estaria deixando passar algo para clipar.

Em meio a recortes, o telefone tocava histericamente. “É da clínica da cabeça?”, interrompeu-me uma moça do outro lado da linha. “Não senhora, somos uma empresa de assessoria de imprensa.” Senti vontade de completar aquele discurso com uma conjunção adversativa: “mas estamos precisando de uma”. Certamente a secretária precisava mais do que eu. Não conclui o pensamento, mas passei parte do dia pensando na possibilidade de procurar um psicólogo.

O dia não se delongou, mas me reparti em mais de uma Arysa. O tempo passou rápido. Isso geralmente acontece quando mais precisamos dele. No almoço, me dividi entre algumas mordidas de cachorro quente e clicadas no mouse. Eu aproveitava cada tic-tac do relógio, que parecia cada vez mais veloz e massivo, na tentativa de cumprir todas as pendências. Precisaria sair mais cedo para visitar meu afilhado, que nasceu ontem. A agonia conseguiu não só me dominar, mas tudo ao meu redor parecia tomado por aquela ânsia. Pela tarde, as tarefas ficaram escassas e a aflição me consumia de tal forma a atrasar os ponteiros do relógio. O “alento” me faltava. Sim, é preciso muita inspiração para uma mentira se tornar verdade. Eu precisava escrever sobre um plano de saúde, que ampliou algumas de suas infinitas taxas, com a difícil tarefa de que isto parecesse uma vantagem para seus clientes. Com muita sutileza tentei ser clara. Mas, acho que conseguirei enganar alguns otários. A consciência dói.

Essa tarefa conseguiu me roubar ética e algumas horas. Saí do trabalho às 16h com destino a maternidade do Santo Amaro. No ponto desenhei mentalmente algumas faces. Estava curiosa para conhecer o meu afilhado. Enquanto eu viajava, um inconveniente obstruiu meus pensamentos com um olhar nojento e tarado. Do meu rosto de menina inocente saiu um inesperado palavrão, encaminhando o cidadão desocupado àquele lugar. Passado o desconforto, chegou o ônibus. Para variar, a minha antena paranóica (não parabólica) atraiu um maluco dentro do transporte. Ele falava incessantemente sobre a lerdeza dos baianos. Eu apenas concordava sacudindo a cabeça, mesmo sem entender nenhum daqueles argumentos. Logo cheguei ao hospital.

Davi não era como eu pensava. Ele ainda tinha aquela cara de nada como todos os recém-nascidos. Choro baixo, bochecha vermelha. Magro, cândido, pequeno. A vontade que eu tinha era de dar um abraço forte, do tamanho da minha euforia. Apenas olhei e esbocei os sábados no parque, as partidas de futebol, os presentes, as primeiras palavras. Eu tinha pouco tempo ali. Tive de sair e brinquei pedindo a benção a ele. “A bença da dinda, Davi”, fiz todos rirem ao meu redor. Logo, a minha volta, estava uma sala lotada.. Entrei na aula de Redação 3 e todos escreviam sobre o seu dia. Não tinha nenhum computador vago para mim. O meu exercício ficaria para o dia seguinte, hoje. Agora eu revivo o meu dia anterior e finjo que escrevo como se fosse ontem. Neste instante termina a minha segunda-feira.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Novo dia e mais uma rotina

Por Thaís Bittencourt


As oito e meia da manhã acordei sem muita pretensão de levantar da cama quente e macia, o meu corpo ainda pedia mais sossego. A pouca luz que adentrava o meu quarto me embalava nunca louca vontade de permanecer estática. Os meus pés estavam doloridos e com calos do salto que usei para sair no dia anterior. Com muito custo levantei, arrumei minha cama, troquei de roupa e fui pra rua levar meu cachorro para mais um passeio matinal, escutando o barulho dos carros e vendo o passar das pessoas abafadas pelos seus deveres do dia-a-dia. Retornando para casa, minha mãe me chamou para me dizer o que ela queria que eu fizesse: passar vassoura na casa, estender a roupa que no momento estava na máquina (no seu habitual barulho que o tempo lhe deu) e ir ao banco fazer pagamentos.

Após ela sair de casa, dei comida pro cachorro e fui preparar o meu café. O rummm do liquidificador era o som, que junto com o latido do cachorro, compunha uma orquestra para a preparação da minha vitamina. Comi pão e biscoito na frente do computador, olhando as notícias do dia, o meu e-mail, os recados do orkut e ouvindo músicas agitadas, para elevar o meu astral.

Umas dez horas o telefone tocou quebrando o silêncio e a minha concentração com os afazeres da casa. Era meu pai querendo saber como eu estava, e se eu já tinha procurado minha prima pra saber se ela conhecia algum médico especialista em alergia. Depois que respondi a outro interrogatório perguntei como ele estava, e ele me respondeu, um pouco enfadonho que tava bem, trabalhando e comentou da estripulia de seu gato.

Meio-dia almocei assistindo televisão, depois fui para o computador dar mais umas olhadas no orkut ao ritmo de Justin Timberlake. Entrei no msn para contar e saber dos babados do feriadão. Ao mesmo tempo em que me perdia nas palavras infinitas escritas pelos meus amigos, comecei a fazer um trabalho da faculdade, mas ao ver o relógio deixei o exercício incompleto para terminar depois.

Na faixa das duas e meia fui me arrumar para sair. Antes de ir embora, busquei nos meus pensamentos qualquer coisa que não deveria esquecer. Certificada de que nada faltava, caminhei em direção ao banco para fazer os pagamentos, me perdendo nas lembranças do meu fim de semana. Pouco tempo depois de ter enfrentado uma singela fila, já estava de volta a minha caminhada, agora em direção a faculdade e de novo perdida em minhas lembranças.

Às quatro horas cheguei à faculdade e sem perder tempo andei em direção ao laboratório de informática: precisava terminar o trabalho, e tinha pouco tempo. Em meios as tics e tics dos teclados e as conversas paralelas, procurava nas profundezas do imaginário da minha mente, momentos para serem transformados em palavras e mais palavras. Finalizado o trabalho, com a mente totalmente sugada, percorri uma rua escura até o prédio de aulas, para mais uma noite de abstrações.

Um dia perdido de dor.

Depois de um feriado calmo e tranqüilo, onde passei mais da metade deste período com minha namorada, a segunda feira em nada se compara a este feriado. Acordei às 8h da manhã, para me deslocar até ao Itaigara para terminar meu tratamento dentário, tomei meu café e me arrumei para poder sair. Antes de partir, liguei meu computador para checar meus e-mails e começar a digitação de um trabalho da faculdade. Às 9h45, desci para esperar o ônibus que viria chegar três minutos depois.
Após 30 minutos de viagem até o meu destino, cheguei no consultório para a consulta que durou cerca de 40 minutos. Em seguida, mais ou menos às 11h, fui andando até ao Iguatemi para me encontrar com minha namorada. Esperei ela mais ou menos 45 minutos até que ela saísse da sala de aula do seu curso. Saindo dela lá, fomos colocar créditos no meu cartão de passagens de ônibus, e depois, fomos para o ponto de ônibus, na Estação do Iguatemi, onde conversamos um pouco até pegarmos cada um o seu ônibus para suas respectivas casas.
Chegando em casa, por volta de 13h30 da tarde, fui logo almoçar, pois não tinha comido nada desde que sair de casa para o dentista e estava morrendo de fome. Depois de comer um prato de feijão, arroz, bife e salada foi que o dia começou a estragar para mim. O dente, recém tratado voltou a doer. Tomei remédios para dor, passei gelo, anti-séptico bucal que a médica indicou quando liguei para ela contando sobre as dores, mas nada disso adiantou.
Depois de quase duas horas de muitas dores, resolvi voltar para o consultório para que a médica resolvesse meu problema. Fiquei mais 30 minutos dentro de um ônibus lotado até chegar ao meu destino.
Felizmente as dores passaram e eu me dirigir para o ponto de ônibus para retornar à minha casa para depois enfim, ir para faculdade. Mas a sorte hoje não estava do meu lado e por isso, no caminho de volta para casa, enfrentei um longo engarrafamento, provavelmente por uma batida ou por causa das obras que estão acontecendo na região, acabei ficando mais de uma hora preso no ônibus, e só cheguei em casa por volta das 19h. Sendo assim, não fui para a faculdade. Para que não terminasse o dia sem fazer nada de útil, resolvi estudar o que estava devendo dos assuntos da faculdade e também escrever este texto. Antes de dormir, como todos os dias, vou ligar para minha namorada para enfim cair no sono.

Meu dia começou meia-noite


Silmara Miranda

Zero hora do dia 10 de setembro e eu estava a três horas de distância da minha casa. Em Serrinha estava acontecendo uma grande festa que reunia várias bandas de axé e o público estimado era de mais de 20 mil pessoas. Eu não estava no público, bem que queria, mas esse era um dia de trabalho para mim. Estava atrás do palco, fechada em um ônibus já havia duas horas com a banda É o Tchan, com quem trabalho como dançarina. Já desconfiava que teria que esperar um pouco mais para me apresentar. Dito e feito. Duas horas da manhã estava eu lá, sorrindo, mandando beijos, distribuindo e tirando fotos e, é claro, dançando. Tenho que aproveitar meus últimos momentos no grupo, depois de quatro anos vou me despedir. Decisão madura e consciente.

Adoro dançar, mas confesso que nesse dia em específico preferia estar debaixo da minha coberta. A gente não se apresentou em um horário legal, o público já estava cansado da festa que começou às quatro da tarde, já era fim de festa e eu já havia perdido a noite anterior acordada, também dançando em Araras, no interior da Bahia, onde, diga-se de passagem, não existe sinal de nenhum aparelho celular. Como uma pessoa pode viver sem celular hoje? Bom, mas isso foi no sábado.

Terminado o show de Serrinha, mais três horas para chegar a Salvador. Tirei um cochilo e isso só fez aumentar meu cansaço. O ônibus parou no escritório do grupo, que fica no Costa Azul, peguei meu carro na garagem e voltei pra casa morrendo de fome! Ainda bem que fui de carro. Se não tivesse ido teria que esperar a van deixar um por um e chegaria em casa muito tarde. Com a fome que eu estava, acho que não daria certo. Eu fico muito mal humorada quando fico com fome. Não daria certo mesmo.

Na volta com meu carro, até pensei em parar no meio do caminho para comer qualquer coisa bem engordativa, que é a primeira coisa que penso quando fico com tanta fome assim, mas decidi ir direto pra casa. Eu estava toda suada, uma cara horrível, foi melhor mesmo.
Cheguei em casa quase 7h. “Bom dia, tio!”, cumprimentei meu tio, que se preparava para sua caminhada matinal. “Já tá de saída?”, perguntou ele, mesmo sabendo que eu nunca acordo antes de 10h. “Acabei de chegar!”, respondi, devorando um bolo que não sei bem direito do que era, mas estava gostoso. Ou era a fome? Comi mais de um pedaço! Amanhã queimo tudinho na academia.

Pronto, agora é só tomar banho e... sair de novo! Seria a hora de dormir se um caminhoneiro filho da mãe não estivesse batido na lateral do meu carro cinco dias atrás. Eu combinei com o Seu Mário, mecânico da família, de deixar meu carro para consertar às 7h da manhã e, para não interromper meu sono, resolvi deixar o carro lá primeiro e só depois dormir.

Da oficina, peguei um táxi para casa do meu namorado. Vou usar o carro dele enquanto o meu estiver consertando, ele tá viajando. Bom, ainda não falei nele, mas de meia noite até aqui devo ter falado com ele pelo telefone umas 20 vezes!

Chegando na casa dele, quase 8h, eu coloquei o celular no silencioso para nada atrapalhar meu sono e finalmente dormi! Era meio dia quando ouvi o interfone tocando! Eu nem atendi! Olhei para o celular e vi todas as tentativas frustradas dele querendo falar comigo desde as 10h! Ele tava preocupado com o sumiço, tadinho! Depois de falar com ele, peguei o carro emprestado e fui almoçar na casa da minha tia, já era duas horas da tarde. Meu corpo tava todo dolorido! Eu tinha ido pra academia no domingo, isso ajudou também, além dos dois shows. Hoje me dei folga da malhação.

Terminado o almoço, conversei com minha tia, fiz umas ligações e fui para o computador responder e-mail, vê se chegou aquele outro, responder a galera que deixa recado no site e fazer uns deveres da faculdade.

Já eram quase seis horas da tarde quando comecei a me arrumar para faculdade que é do lado da minha casa, ainda bem, isso economiza tempo e paciência. Queria chegar um pouco mais cedo e deixar o carro no estacionamento, um lugar seguro para guardar o carro que não é meu. Por que será que com carro dos outros a gente tem mais cuidado? O meu sempre fica na rua, perto de onde vou, para andar menos. Dessa vez andei um pouco pra chegar no lugar da minha aula da facul, mas o dele tá guardadinho lá! Ah! Do almoço até aqui já falei com ele mais umas 20 vezes...

Praça dos Aflitos

A Avenida Sete de Setembro possui várias ruas em sua extensão. Uma delas, entre a Casa d’Itália e do posto do de gasolina da Petrobrás, que tem o mesmo nome do quartel que lá possui: Aflitos, e além deste quartel há outros prédios, casas, uma banca de revista e uma igreja. Possui também uma pequena praça. Outro caminho para se chegar à Praça dos Aflitos além da Avenida Sete é pela Contorno, subindo a Ladeira dos Aflitos, próximo ao Museu de Arte Moderna.
A praça, com azulejos vermelho e braço, bancos pintados de vermelho, plantas e pequenas árvores ao seu redor, tem como destaque, um poste de luz antigo bem no seu centro, além de outros quatro postes comuns na sua extremidade é bastante conservada, ao contrário da igreja que lá possui, que por falta de cuidados está com sua pintura gasta, pequenas rachaduras em sua extensão e vidros quebrados. Uma escada “esconde” o Bahia Café Hall, que se localiza bem abaixo desta praça.
Quem chega à sacada, dá de vista a uma vista exuberante da baia de todos os santos, com barcos, navios atravessando de ponta a ponta todo o mar. Quando o tempo está ensolarado, o por do sol daí é muito apreciado e bonito.

Recomeçar....

Reinaldo Oliveira

Segunda-feira, 10 de setembro de 2007.

6h: enfim, como toda segunda-feira lembra preguiça, já levanto cansado e sem coragem pra nada. O despertador toca, desligo e deito de novo, mas o choro do meu sobrinho me obriga a levantar e segurá-lo enquanto minha irmã prepara o seu mingau.
6h30: ih! Lembrei do pão. Droga! Tenho mesmo que ir à padaria. Não tenho alternativa, vou comprar o bendito pão e tomo meu café solitário, visto que a minha família continua gozando de seu belo e profundo sono. Ah! Como eu queria também estar naquela cama confortável. Caí na real e vi que já era pra eu estar no ponto.
7h28: vou para o ponto e, do alto da passarela, avisto meu ônibus. Corro feito um desesperado enquanto os outros pensam que sou ladrão, já que estou com a mochila na mão. Ufa! Cheguei no ponto, mas perdi o ônibus. A única alternativa agora é pegar duas conduções.
7h34: ôpa, Barra I, recomeça a batalha por um espaço no buzú lotado, como sempre parecendo uma lata de sardinha. Não tem outra opção, pego este mesmo. Encontro um espaço legal mas, ao levantar meu pé, oxi!? Cadê o espaço onde estava meu pé? Descubro que está sendo ocupado por outro passageiro.
7h58: finalmente chego ao Comércio e tive a sorte de encontrar uma cara que ia pagar inteira que passou com meu cartão pra me dar o dinheiro. Passo e, ao descer na praça da Inglaterra, vou para o prédio em que estagio e, pra variar, o elevador está quebrado.
8h04: chego ao nono andar e começa meu dia de operador de telemarketing. Enquanto call center da Rede FTC, atendo uma série de ligações de bolsistas do Prouni querendo saber respostas.
9h50: demorou. Tava com uma fome de leão. Saio pra um lanche básico e como dois sanduíches e tomo aquele cafezinho, afinal sou viciado em café.
10h: pô! Já?! Nem senti passar dez minutos. Tenho que entrar na sala de atendimento e ficar lá por mais uma hora e quarenta minutos (horário de meu segundo intervalo).
11h40: saio novamente com minha amiga Girlene e, desta vez, fico menos preocupado com o horário, afinal agora será vinte minutos de lanche. Coloco o papo em sintonia com Gil, nome carinho da minha amiga de lanche.
12h: hora de voltar ao atendimento e receber mais uma dúzia de ligações antes de sair para pausa três, na qual não acontece nada de novo.
14h: enfim, acaba o expediente. Vou para o ponto e pego outra vez um buzú lotado, já tá virando rotina na cidade tão louca como Salvador.
15h: chego em casa e vou almoçar, fora de hora, mas fazer o quê? Já faz parte de meu cotidiano. Estudo um pouco pra não cair na mesmice. Afinal, também preciso de leitura.
17h: me arrumo pra ir à faculdade. Não obstante, pego outro ônibus lotado, mas tive a sorte de ver uma negra gata que foi gentil e segurou minha mochila. Pena que ela desceu no Comércio. Adoraria conhecê-la. Pego um pouco de congestionamento e sei que vou me atrasar pra aula.
18h30: encontro com Marcele, porém rapidamente sou arrastado por Rafaela Anunciação, que diz: - vamos pra aula de Leandro.
18h34: inicio mais um dia de estudante pensando na quinta-feira, dia 13, afinal farei 21 anos e vou concluir mais um ciclo de minha vida.

Segunda perdida

DANUTTA RODRIGUES

Depois de um caruru só com vatapá e com muita cerveja, acordei hoje às 8h45min sem a menor vontade de fazer alguma coisa. Diferente de todas as outras segundas-feiras que tive esse ano, fiquei em casa pela manhã pensando nas tarefas que tinha para realizar. Pensei tanto que acabei não fazendo nada!
Ao meio-dia fui almoçar e o assunto que rolava na mesa ainda era a panela de caruru que tinha caído no dia anterior e as confusões inexplicáveis que aconteceram na festa que meu irmão tinha realizado em promessa a São Cosme e São Damião. Fui tomar banho logo após o almoço, pois ainda tinha muita coisa pra fazer hoje, e, mais uma vez tentei articular a melhor forma de cumprir tantos compromissos.
Pensei, mais uma vez fiquei pensando e definitivamente às 15h10min resolvi sair de casa para ao menos fazer alguns pagamentos inadiáveis. Chegando ao shopping Iguatemi, eram exatamente 15h34min, enfrentei uma fila atrás da outra nos respectivos Banco do Brasil e Caixa Econômica, até que enfim consegui fazer alguma coisa de produtiva nesse dia que foi tão teórico na minha vida.
Ainda com vontade de comer caruru, fui pra faculdade resolver problemas acadêmicos que para mim o principal deles é conseguir tirar xerox do material das disciplinas que curso. Chegando lá aproveitei para conversar com alguns colegas e professores para tirar dúvidas em relação às atividades realizadas semana passada, que acabei faltando por problemas pessoais.
Enfim, são 18h05min e encontro o Carlinhos no meio do meu trajeto para a aula de Redação III, e, como sempre, devido a esse encontro e a essa conversa inesperada, chego ao meu destino às 18h28min, mais uma vez atrasada e pensando nas coisas que deixei para fazer amanhã.

O quarto do meu tio

DANUTTA RODRIGUES

750 cd´s, 150 fitas de vídeo, 200 dvd´s, e aproximadamente 500 fitas cassetes; o quarto do meu tio é uma verdadeira relíquia áudio-visual. Ao som do tic tac dos mais de 40 despertadores que ele coleciona, as bandeiras do Bahia e do Palmeiras enfeitam o quarto que é mais um refúgio para esse “cinqüentão” extremamente misterioso. O quadro de pano de uma índia do Pará com o filho no colo e um relógio em forma de pneu, respectivamente pendurados em uma das paredes azuis do local, complementam a decoração diversificada do ambiente.
A cama localizada no centro do aposento, quase não deixa espaço para transitar entre os poucos metros quadrados que o lugar possui. À direita da cama tem uma estante que além de abrigar os mais de 30 potes de sorvete reaproveitados, usados para guardar os seus mais variados pertences, ainda possui um som grande e preto que só funciona AM/FM.
Dotado de mais três estantes dentro desse pequeno local, meu tio ainda coleciona as mais diversificadas latas de alumínio, garrafas plásticas, carrinhos de brinquedo e entre outras coisas que ele inventa para colecionar. Até sacola de papelão tem seu lugar no quarto que mais parece a casa do Snoop, visto de fora aparenta não caber nada, porém quando você entra, parece que está entrando em um outro mundo. Lá é capaz de você se deparar com as mais esquisitas manias de um colecionador nato.
Como se não bastasse o pouco espaço e a quantidade de estantes e pequenas coisas que o lugar possui, ainda tem um baú que ele usa para guardar mais uma de suas coleções: a de sacolas de viagem. Para completar o cenário visualmente poluído, porém extremamente interessante, ao lado da cama tem uma cadeira plástica com uma almofada do Bahia, onde meu tio todos os dias, como num ritual, senta-se e estira suas pernas num outro banco alocado no local. Ao som do seu rádio de bolso e com uma tranqüilidade oposta ao cenário do quarto que construiu ao longo do anos, o “cinquentão” se diverte com as piadas feitas a respeito do seu quarto.

Segunda feira sem internet

Ana Paula Paixão

Segunda-feira. Só de citar o nome já lembra cansaço, preguiça, dia chato. Mas também lembra recomeço. 5h45 – acordo com o celular despertando. Hora de tomar o remédio. Tiro um comprimido da cartela, pego o copo d’água e tomo o antibiótico. Volto a dormir.
9h: hora de acordar, escovar os dentes, tomar um banho bem demorado.
10h: preparo o café e volto pro quarto. Adoro tomar café no quarto. Se minha mãe tivesse em casa reclamaria. Mas, como ela está trabalhando, eu “posso”. Como diz o ditado: Quando o gato não está o rato passeia.
10 e meia: mensagem no celular: “me ligue”. Liguei e procurei saber o que era com uma voz aparentemente fria (só pra impressionar). No fundo estava com o coração saltitante por ter recebido aquela mensagem. Depois do “gelo” do fim de semana ele merecia ouvir minha voz. Acho que agora vai ficar tudo bem entre nós.
11h: Começo a assistir o DVD já que tenho que entregar o filme hoje. “Tudo que uma garota quer”, com Amanda Bynes. Esses dias, desde que meu computador pifou e estou sem Internet, fiquei totalmente viciada em alugar filmes. Será crise de abstinência? Bom, só sei que a Internet me faz falta, preciso tratar logo de consertar esse PC. Apesar de que assistir filmes tem sido muito bom, divertido. Mas falta algo. Internet. E também minha amiga Vivy, que tem assistido todos os filmes comigo. Altas sessões de risada, diversão e pipoca. Ela foi passar o fim de semana em Recife. Mas ficou de chegar hoje.
O filme é ótimo. Conta a história de uma garota que foi criada pela mãe até os 17 anos mas sempre sentiu vontade de conhecer o pai. Daí ela resolve viajar para conhecê-lo e se depara com um mundo totalmente diferente do que sempre viveu. E também com uma suposta futura madrasta que não fica nada feliz com sua chegada. Pra completar a futura enteada do seu pai é uma adolescente mimada e interesseira. O final não conto, claro. Mas vale a pena. Pra mim, que amo comédia romântica valeu.
13h:30: Depois do filme, hora de almoçar. Nem tava muito a fim, to meio sem apetite por causa dessa maldita infecção nas vias respiratórias. Segundo meu otorrino é isso que tenho. Só sei que quero melhorar logo, mesmo que pra isso tenha que fazer quase o impossível: ficar uns 6 meses sem tomar nada gelado. Verão chegando, calor...nada de sorvete, nada de gelo. Será que consigo? Se for pra não passar mais por isso, farei esse sacrifício sim.
14h: Fui no Supermercado. Comprei algumas coisas pra comer, bobagens. Era só pra sair de casa mesmo.
15h: Já cheguei em casa. Fui fazer a atividade de Edição pra amanhã. Colocar infográficos, título e intertítulo em um texto pronto dado pela professora Ana Cristina. Terminei de fazer e fui comer um pouco. Abri um pacote de biscoito e um suco. Fiz meu lanche e quando terminei dei um espirro.Pensei: Será que o suco tava gelado? Nem me lembrei que não podia. Mas acho que não tava tanto. Preciso ficar mais atenta, me acostumar a essa idéia.
17h: Liguei pra locadora pedindo que viessem buscar o filme. A atendente me falou que o motoboy iria demorar mais ou menos 1 hora e meia pra chegar aqui.17h10: Tomo banho e me arrumo.17h45: 6 horas de passaram. Hora de tomar outro comprimido. Engoli rápido, me despedi da minha avó e avisei que o motoboy da locadora passaria lá pra pegar o filme.
18h: Peguei o ônibus. Como todos os dias, o engarrafamento do Rio Vermelho já começou. Se não fosse isso eu, que moro na Amaralina, chegaria na faculdade em 10 minutos. Mas cheguei em 20 minutos aproximadamente. Desci do ônibus e fiz uma caminhada em direção ao ISE, aula de Redação III.
Segunda-feira
O pior dia da semana

Carlos José Costa Correia

Acordei numa segunda-feira nublada, senti um pouco de frio, mas enfim meu celular já estava tocando ao som do despertador e eu precisava me levantar para trabalhar. O que eu não sabia era que há alguns minutos meu estômago iria começar a doer e eu não trabalharia, pelo menos por um período.
Eram 6h55, hora de eu saí para trabalhar e, acreditem, mesmo com a dor no meu estômago, eu me arrumei e forcei a minha primeira refeição. Estava quase pronto pra sair, mas a dor piorou. Começou a chover e eu acabei desistindo.
Chamei minha irmã e fomos para a emergência da clínica mais próxima para eu ser atendido. Infelizmente, a emergência só atende quem chega “morrendo” e eu, graças a Deus, não estava, embora a dor estomacal fosse muito forte. Fui atendido quase meia-hora depois. O médico acabou me passando um medicamento específico e eu fui à farmácia comprá-lo. Era um nome meio esquisito mas o encontrei e voltamos para casa.
Almocei e finalmente fui trabalhar, já que a dor passara e eu não tinha mais justificativa para não começar a famosa “segunda-feira”, mas acho que ainda saí no lucro, pois comecei a metade do dia mais antipático da semana.
Ao chegar na Escola, local do meu trabalho, situado no bairro da Santa Cruz, eu fiz tudo que já é minha rotina de trabalho. Abri os e-mail da escola, imprimi algumas atividades, preparei a freqüência do dia e acho que à tarde até passou rapidinho. Aliás, acho que o fato de eu estar executando algumas ações que me levariam talvez o dia todo e eu não dando conta, me fez achar que a tarde passou rápido.
Enfim chegou às 17h e era a hora de eu ir embora, mas não para casa e sim para a Faculdade, onde eu tenho apenas duas aulas de Redação III. Ao chegar encontrei minha colega Danutta e ficamos conversando até nos darmos conta de que já era a hora de subir para assistirmos aula.
Acordei numa segunda-feira nublada, senti um pouco de frio, mas enfim meu celular já estava tocando ao som do despertador e eu precisava me levantar para trabalhar. O que eu não sabia era que há alguns minutos meu estômago iria começar a doer e eu não trabalharia.

Era a hora de eu sair e acreditem, mesmo com a dor no meu estômago eu me arrumei forcei a minha primeira refeição e estava quase pronto pra sair, mas a dor piorou. Começou a chover e eu acabei desistindo.

Chamei minha irmã e fomos para emergência da clínica mais próxima para ser atendido.

Infelizmente, a emergência só atende quem chega “morrendo” e eu graças a Deus não estava, embora a dor estomacal fosse muito forte. E eu fui atendido quase meia-hora depois. O médico acabou me passando um medicamento específico e eu voltei para casa.

Almocei e finalmente fui trabalhar já que a dor passara e eu não tinha mais justificativa para não começar a famosa “segunda-feira”, mas acho que ainda sair no lucro pois comecei a metade do dia mais antipático da semana.

Ao chegar na Escola, local do meu trabalho, eu fiz tudo que já é minha rotina de trabalho. Abri os e-mail da escola, imprimir algumas atividades, preparei a freqüência do dia e acho que à tarde até passou rapidinho. Aliás acho que o fato de eu estar executando algumas ações que me levariam talvez o dia todo e eu não dando conta, me fez achar que a tarde passou rápido.

Enfim chegou as 17h e era a hora de eu ir embora, mas não para casa e sim para a Faculdade, onde eu tenho apenas duas aulas de Redação III.

Quase morando na faculdade


Por Emerson Santos




Nesta segunda-feira dia 10 de setembro de 2007, eu acordei às 8h e tomei café. Logo depois eu fui à faculdade para tentar fazer a atividade da disciplina de redação III. Não consegui fazer pois estava sem clima, ou melhor, sem inspiração e acabei navegando na Internet, que por sinal, é um vício para jovens da minha idade que adoram bater papo via Messenger, mais não cheguei a entrar no MSN não. Aproveitei para me inscrever em algumas promoções que eu participo sempre para ganhar ingressos de cinema, isso já virou até rotina, uma espécie de ritual diário, assim como entrar no Orkut. Já ganhei duas vezes, mais quero ganhar mais. Chequei meu principal e-mail para ver se tinha alguma novidade, entrei no site da Ânima para ver as vagas de estágio e emprego e em outros sites que costumo entrar. Por volta das 11h40, saí da sala de navegação, peguei o elevador e desci para tirar xerox de um texto de Comunicação Comunitária e depois, fui para casa almoçar.

Quando eu cheguei ao prédio onde eu moro, que fica a alguns pequeninos passos do prédio central da faculdade e em frente ao colégio ISBA, onde se ouve diariamente o barulho de crianças e adolescentes rindo e gritando, interfonei para alguém abrir o portão do prédio pra mim. Chegando à porta, que já se encontrava aberta, o cachorro da minha sobrinha, Tonico, estava me esperando ansioso e querendo que eu fizesse carinho nele. E foi o que eu fiz antes de almoçar, ele deitou, rolou no chão e com os olhos brilhando de tanta alegria, ele inocentemente pedia mais carinho. Só faltava falar. Às vezes, acho até que ele é uma pessoa de verdade, ou melhor, uma criança carente de carinho e muito esperta por sinal.

Almocei mais ou menos às 12h35, descansei um pouco, escovei os dentes e retornei à faculdade para tentar fazer novamente a atividade. Sentei no computador, loguei, abri o Word com e a inspiração chegou, finalmente. Mandei ver, a cada palavra teclada, uma nova frase se formava e o meu texto flui numa velocidade considerável. Comecei a lembrar da primeira vez que eu fui ao local que eu pensei em descrever, a Feira de São Joaquim. Visto que, para o exercício de Redação eu teria que fazer uma descrição de um local qualquer, e foi essa feira, que eu escolhi para descrever. Lembrei de detalhes que eu tinha observado neste dia em que eu fui com os meus colegas de fotojornalismo II, no semestre passado.

Consegui concluir todo o texto, postei e novamente estou eu, navegando em outros sites, como de costume. Quando olhei as horas, vi que já ia dar umas 4h30, voltei para casa, olhei o meu celular para ver se tinha alguma chamada não atendida, já que eu não havia levado, e no seu visor interno estava a indicação de uma chamada não atendida. Era uma amiga minha do interior. Dei dois toques para o celular dela e ela não me retornou. Depois disso, fui lanchar e tomar banho para ir para a faculdade. Quando já estava dentro do banheiro, me preparando para entrar no chuveiro, o telefone fixo toca e uma das minhas irmãs me grita – Emerson? Você pode atender o telefone? E eu abri a porta do banheiro e peguei o telefone, fechei a porta e atendi lá dentro mesmo. Quando eu atendo, era Reinaldo querendo saber onde seria a aula de Leandro hoje, eu respondi – eu não sei não, eu ia ligar para Driely para saber. Arrumei-me, fui ao prédio central e ao entrar na faculdade, leguei pra ela para perguntar. Ela atendeu e me disse que a aula seria no ISE e desligou na minha cara. Fiquei sem entender porque ela desligou tão rapidamente. Quando eu menos espero, ela me surpreende ao me chamar de dentro da faculdade. Logo vi que ela desligou, pois estava me vendo na entrada do prédio e não tinha necessidade de continuar falando ao telefone com uma pessoa no mesmo espaço que ela. Obviamente, claro! Fiquei rindo do episódio corrente e me dirigi ao prédio central, encontrando no caminho Jaqueline, que também, não sabia onde iria ser a aula. Fomos para o ISE e começamos a fazer um outro exercício, desta vez, uma narração do meu dia. Esse, que eu acabo de narrar.

Mais um dia na rotina

Por Gabriela Marotta

As sete e meia o dia começa, com os olhos ainda inchados, levanto, escovo os dentes e vou fazer café para duas pessoas. Eu e minha filha Alice, que dorme até as nove. Com o café pronto, o banheiro é o próximo passo: hora do banho. Enquanto isso, Alice dorme e eu penso: “criança tem é vida boa, mal sabe ela o que a espera com o tempo.”. Logo em seguida, às 10 e pouca, é hora de me preparar para mais uma manhã de brincadeiras junto com a minha filha. É nesse momento que encontro o senhor diabético, Adilson, já sem as duas pernas em sua cadeira de rodas, o homem que cuida de seu filho sozinho, o Mário (que inclui lavar roupas e fazer almoço. O que, convenhamos, se vê pouco entre homens) e mais um bando de senhores de idade, na maioria aposentados, que passam as manhãs sentados nos banquinhos do playground, conversando e colocando “o papo em dia”.

Eu, na verdade não entendo a rotina deles, botar o papo em dia nada mais é do que falar de suas artrites e artroses, dores lombares etc., ou ficar olhando as mocinhas mais novas que ficam passando por ali. Só o senhor diabético que volta e meia me aparece com alguma novidade, a última foi me convidar para tomar cachaça na casa dele (mesmo sem as duas pernas por causa da doença).

Entre 11 e meia e o meio dia, é a hora em que normalmente eu subo com Alice de volta ao meu apartamento, mas antes disso, já se tornou comum deixar o Adilson no nono andar, pois sozinho ele não consegue entrar nem sair do elevador. Parece até bobo, mas eu gosto de ajudá-lo e sinto que ele gosta que eu o ajude. Ele sempre me cumprimenta apertando e beijando minha mão.

Quatro andares acima, eu chego em meu apartamento e sirvo o almoço. Com a barriga cheia e com o sono típico do “depois do almoço” ainda tenho que me arrumar e deixar Alice na casa da avó, pois nos dias de segunda-feira minhas aulas começam às 13:30. É o dia em que fico na faculdade mais tempo, só saio às 20 horas. Ao final das aulas do dia, ainda tenho que esperar o único ônibus que vai de ondina para brotas e que demora até mais de uma hora para passar. Finalmente de volta a minha casa, só consigo pensar em uma coisa: na minha caminha confortável, onde eu descanso para no dia seguinte começar tudo de novo.

Um dia comum

Por Daphne Carrera

Acord