por Pedro Levindo
O Hospital Roberto Santos, público, aparenta, do lado de fora, uma certa calmaria. O prédio é bem-pintado, as instalações são limpas. A Unidade de Tratamento Intensivo é considerada uma das mais modernas da cidade. No anexo onde funciona a emergência, a situação não é muito diferente. Mas essa tranqüilidade acaba quando uma das portas é aberta. Apenas uma fresta basta para se ter idéia do mundo diferente que existe lá dentro. A idéia cristaliza-se na cabeça com os relatos de quem tem a sorte – ou o azar – de sair de lá.
Dona Robéria foi uma dessas pessoas. Usava uma blusa laranja com listras brancas, uma saia preta e uma jaqueta jeans - o frio lá dentro é grande. Saiu amparada, pois sua locomoção, devido aos problemas na vesícula e ao estado debilitado de saúde em geral, está comprometida. Ela anda com a ajuda de uma vizinha, que foi quem a levou ao hospital 18 dias atrás. Foi esse o tempo que a senhora de meia-idade precisou ficar internada para descobrir que a cirurgia de retirada da vesícula, necessária em seu caso, vai ter de ficar para daí a três meses, em dezembro apenas.
A capacidade de atendimento da emergência do hospital é de 75 pacientes por dia. Essa semana, contudo, esse número tem chegado facilmente ao dobro. Os médicos priorizam, naturalmente, os casos mais graves. Dona Robéria, com o semblante cansado, visivelmente debilitada, não teve a sorte de ter o seu caso classificado como grave ou urgente.
Seu estado de ânimo não aparenta revolta, transmite apenas resignação. A revolta ficou a cargo da vizinha e amiga Miriam, que a ajudava a andar. Vestida de forma simples, com um vestido estampado - tão caro a senhora de sua idade - ela mirou a câmera por trás dos óculos grossos e de haste escura e, com o olhar preocupado, disse para a equipe de TV que elas voltariam daí a três meses. “Isso se ela estiver viva até lá”. “Estou indo pra casa, mas tenho certeza que amanhã vou ter que voltar”, completou. Apesar dos pesares, Dona Robéria parece otimista. Resumiu-se, no entanto, a dizer “Vou estar”. Isso, como diz o dito popular, só Deus sabe.
Para quem acredita no Todo-Poderoso, será um caso para Sua providência. Para quem não crê, ou já conhece os meandros da emergência do Hospital Roberto Santos, será apenas mais um caso, onde fica a questão, um tanto quanto prosaica: será que Dona Robéria, daqui a três meses terá de novo a sorte de voltar, e sair, viva, de lá?
sábado, 22 de setembro de 2007
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Proibido para mim!
Karina Oliveira
Agora mais arrumada, perfumada, maquiada e cheia de más intenções, observo meu alvo. Tento controlar-me, para que os outros não percebam que não consigo parar de olhar e, desejar alguém dentro daquela sala... Os movimentos são controlados... Cada olhar, cruzadas de pernas, mordidas nos lábios... Qualquer coisa para chamar sua. Porém, tudo é em vão... Existe um abismo que nos separa. Mas, eu não desisto. Insinuo-me e tento despertar nele o mesmo que estou sentindo... A preocupação em manter o segredo a salvo dos outros, faz com aquele momento torne-se cada vez mais tenso, parecido com os filmes de ação, o mínimo de descuido pode estourar a bomba e os destroços poderão ser visto por todos... Aquela situação sufoca-me e fico num dilema. Contar para as amigas o que está acontecendo, ou guardar este sentimento proibido.
O tempo passa... A vontade de realizar os desejos mais secretos aumenta e deixa-me confusa... Às vezes, me domina e, sem que perceba deixo a mostra. Assim como um pedaço de sua barriga quando levanta o braço para escrever lá no alto... Alto não, pois é baixinho... Então, olho para os lados e tento disfarçar o que alguns perceberam...Tento entrar no clima da aula, mas não tem clima com tanta gente ao seu redor,disputando sua atenção...Por que ele não me nota? Pergunto-me o tempo todo... E o clima está tão bom, já que estamos no verão... Tempo de amar e entregar-se aos amores proibidos... Ele não me nota e, em meio à multidão pareço transparente... O que fazer para despertar sua atenção?
O desespero toma conta de mim... E aquela confusão de sentimentos faz-me pensar sobre o que esta acontecendo... Gritar para todos seria uma boa idéia, mas não quero que todos saibam... Talvez, surrar ao “pé” do ouvido... Não, não... Está tudo errado! Por que o amor é tão confuso, difícil e dói tanto?... Poderia ser que nem pedir uma pizza. Pegar o telefone, escolher e... Ponto! A espera abre o meu apetite e, sinto vontade de devorar... Devorar-te com os olhos, com as mãos e com a boca... O desejo não passa... Continuo tentando satisfazer minhas vontades... Qualquer migalha pode saciar-me. Mas você não percebe, não vê... Então, aprecio outros pratos.
Aniversariante centenária
Silmara Miranda
Há um século atrás nascia Claudionor Vianna Telles Velloso, um metro e cinqüenta de altura e quarenta e nove quilos. Dos oito filhos, dois são conhecidos em todo o país, mas no dia 16 de setembro a notícia era só ela.
Para comemorar o centésimo aniversário de dona Canô, foi realizada uma missa em seu nome por nada menos que o cardeal arcebispo Dom Geraldo Majella Agnelo. Dona Cano merece. É uma defensora e luta por melhoria no bairro em que mora. Por isso, já poderia ser bem querida por todos os moradores, mas a humildade e simpatia por ela distribuídas só fazem aumentar o número de fãs que tem o privilégio de tê-la como vizinha na Avenida Ferreira Bandeira, número 179, pequena Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano. Para quem está de passagem, torna-se uma parada obrigatória para um pedido de fotos com a famosa dona Canô.
Em cem anos de estrada dona Canô já viu tudo acontecer. A chegada dos primeiros automóveis, guerras, prisão do filho na época da ditadura, a morte do marido, conheceu países, ... mas hoje a obrigação maior é com a igreja, quando vai religiosamente às missas na igreja da Nossa Senhora da Purificação.
No dia de seu aniversário, ela estava radiante, e os filhos Maria Bethânia e Caetano Veloso estavam como deveriam de estar, no papel inverso de suas vidas, dessa vez, aplaudindo mais um ano de vida do show de carisma que só dona Canô sabe dar!
Há um século atrás nascia Claudionor Vianna Telles Velloso, um metro e cinqüenta de altura e quarenta e nove quilos. Dos oito filhos, dois são conhecidos em todo o país, mas no dia 16 de setembro a notícia era só ela.
Para comemorar o centésimo aniversário de dona Canô, foi realizada uma missa em seu nome por nada menos que o cardeal arcebispo Dom Geraldo Majella Agnelo. Dona Cano merece. É uma defensora e luta por melhoria no bairro em que mora. Por isso, já poderia ser bem querida por todos os moradores, mas a humildade e simpatia por ela distribuídas só fazem aumentar o número de fãs que tem o privilégio de tê-la como vizinha na Avenida Ferreira Bandeira, número 179, pequena Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano. Para quem está de passagem, torna-se uma parada obrigatória para um pedido de fotos com a famosa dona Canô.
Em cem anos de estrada dona Canô já viu tudo acontecer. A chegada dos primeiros automóveis, guerras, prisão do filho na época da ditadura, a morte do marido, conheceu países, ... mas hoje a obrigação maior é com a igreja, quando vai religiosamente às missas na igreja da Nossa Senhora da Purificação.
No dia de seu aniversário, ela estava radiante, e os filhos Maria Bethânia e Caetano Veloso estavam como deveriam de estar, no papel inverso de suas vidas, dessa vez, aplaudindo mais um ano de vida do show de carisma que só dona Canô sabe dar!
Centenário: uma comemoração cada vez mais rara
Por Emerson SantosOs sinos da igreja tocam com um som diferente, dando o sinal de um novo dia que se inicia na cidadezinha tranqüila, que é Santo Amaro da Purificação. Sob os raios do Sol, que não se intimida em aparecer para iluminar e aquecer esse dia mais que especial, o 100º aniversário de Dona Canô. Com um semblante nos olhos oscilando entre felicidade e cansaço, Dona Canô, uma das matriarcas mais conhecidas do Brasil, não se desanima em dizer que o segredo para se chegar aos cem anos é “procurar ser feliz”.
A comemoração do centenário de vida de Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, foi um marco muito importante para o povo baiano, principalmente para a população da cidade onde reside, pois, ela é considerada a mão dos santo-amarenses. Um exemplo de mulher guerreira e tranqüila, que sempre agarrou os seus sonhos, como faz uma leoa para proteger seus filhotes. Foram muitos e muitos anos de batalha. Sempre lutou para melhorar a cidade. Em Santo Amaro, não há quem não saiba onde fica a residência de Dona Canô, uma casa branca e azul, onde os Veloso residem a mais de sessenta anos.
Até hoje, ela é quem cuida dos assuntos da casa. Organiza a decoração, o cardápio, assina os cheques e paga as contas. Sempre foi vaidosa, raramente é vista com os cabelos soltos. Um santuário que fica estrategicamente montado na entrada de seu quarto é um dos locais mais preferidos de sua casa. Nele, podem ser encontradas várias imagens religiosas, muitas delas são presentes de amigos, como Nossa Senhora Aparecida e o próprio Santo Amaro. A comemoração de um centenário nos dias de hoje, é cada vez mais raro. Dona Canô é privilegiada por isso, visto que, não é todo dia que se chega aos cem anos firme, saudável e forte. Parabéns Dona Canô.
A comemoração do centenário de vida de Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, foi um marco muito importante para o povo baiano, principalmente para a população da cidade onde reside, pois, ela é considerada a mão dos santo-amarenses. Um exemplo de mulher guerreira e tranqüila, que sempre agarrou os seus sonhos, como faz uma leoa para proteger seus filhotes. Foram muitos e muitos anos de batalha. Sempre lutou para melhorar a cidade. Em Santo Amaro, não há quem não saiba onde fica a residência de Dona Canô, uma casa branca e azul, onde os Veloso residem a mais de sessenta anos.
Até hoje, ela é quem cuida dos assuntos da casa. Organiza a decoração, o cardápio, assina os cheques e paga as contas. Sempre foi vaidosa, raramente é vista com os cabelos soltos. Um santuário que fica estrategicamente montado na entrada de seu quarto é um dos locais mais preferidos de sua casa. Nele, podem ser encontradas várias imagens religiosas, muitas delas são presentes de amigos, como Nossa Senhora Aparecida e o próprio Santo Amaro. A comemoração de um centenário nos dias de hoje, é cada vez mais raro. Dona Canô é privilegiada por isso, visto que, não é todo dia que se chega aos cem anos firme, saudável e forte. Parabéns Dona Canô.
Dona Canô - A centenária
Carlos José Costa
Através de trancos e barrancos, novenas e trezenas, lavagens e muitas lavagens, eis que a velhinha mais famosa do Brasil, dona Canô chega aos seus 100 anos. A mãe de Bethânia e Caetano teve sua festa de centenário, muito bem celebrada na sua cidade natal Santo Amaro da Purificação. Mesmo com a aparência de muito cansada, está bem lúcida. Fala sobre qualquer tipo de assunto e não se embaraça nem um pouquinho.
Por morar toda sua vida numa cidade do interior a simplicidade transborda ao redor de dona Canô que se sentiu muito emocionada ao beijar a Nossa Senhora, que fora trazida de São Paulo especialmente para a sua missa de aniversário. As pessoas ao redor pareciam se sentirem irradiadas, talvez pelo símbolo que a considerada matriarca do estado da Bahia, representa.
Ser mãe de dois artistas tão respeitados no mundo das artes, especificamente o da música, também é mais um motivo que faz com que a mesma tenha mais um diferencial em relação a qualquer outra velhinha que venha chegar a completar seus cem anos. Este é um ponto bastante evidente. Os dois, corujas ou não, falaram que Canô sempre foi uma mãe dócil, cuidadosa, maravilhosa.
A festa para conterrâneos da centenária, artistas e outros foi celebrada num hotel fora da cidade que parecia mais existir só ele, no meio de uma grande mata. Afinal é bem a cara do interior mesmo, aquelas cidades pacatas, e que fora do centro só existe mata. E assim foi marcado o centenário de dona Canô repercutido em toda mídia nacional como um marco histórico.
Através de trancos e barrancos, novenas e trezenas, lavagens e muitas lavagens, eis que a velhinha mais famosa do Brasil, dona Canô chega aos seus 100 anos. A mãe de Bethânia e Caetano teve sua festa de centenário, muito bem celebrada na sua cidade natal Santo Amaro da Purificação. Mesmo com a aparência de muito cansada, está bem lúcida. Fala sobre qualquer tipo de assunto e não se embaraça nem um pouquinho.
Por morar toda sua vida numa cidade do interior a simplicidade transborda ao redor de dona Canô que se sentiu muito emocionada ao beijar a Nossa Senhora, que fora trazida de São Paulo especialmente para a sua missa de aniversário. As pessoas ao redor pareciam se sentirem irradiadas, talvez pelo símbolo que a considerada matriarca do estado da Bahia, representa.
Ser mãe de dois artistas tão respeitados no mundo das artes, especificamente o da música, também é mais um motivo que faz com que a mesma tenha mais um diferencial em relação a qualquer outra velhinha que venha chegar a completar seus cem anos. Este é um ponto bastante evidente. Os dois, corujas ou não, falaram que Canô sempre foi uma mãe dócil, cuidadosa, maravilhosa.
A festa para conterrâneos da centenária, artistas e outros foi celebrada num hotel fora da cidade que parecia mais existir só ele, no meio de uma grande mata. Afinal é bem a cara do interior mesmo, aquelas cidades pacatas, e que fora do centro só existe mata. E assim foi marcado o centenário de dona Canô repercutido em toda mídia nacional como um marco histórico.
O diferente de 20 e poucos anos.
Carlos Costa
As vezes me pergunto porque sou tão diferente. Porque não gosto das mesmas coisas que os outros da minha idade gostam? Afinal os 20 e poucos anos de uma pessoa é a fase mais áurea de sua vida, de um modo geral. As pessoas dizem que não me falta nada, mas com certeza me falta muita coisa. Sei disso. Gostaria de me comportar como o Marcos o cara mais famoso da empresa em que eu trabalho. Ele sim tem seus 20 e poucos anos e sabe bem aproveitar. Têm namoradas, é bastante comunicativo, vai à balada, bebe, enfim tem muita lábia. As pessoas olham para ele e sempre diz você é o cara.
Ah, eu também sou comunicativo, na medida do possível, vou à balada, não todo o fim de semana, não tenho namorada e não bebo. Então as pessoas dizem “Ah não, o Caio é diferente.” Por que? Só por que sou quieto e só falo quando me perguntam? E quando falo todos olham como se eu fosse a voz da experiência? Sim sou elogiado, muito elogiado, mas sempre o elogio final tem de ser, ele é diferente. Falo sobre qualquer assunto que me perguntarem e me expresso muito bem. Mas ao me elogiarem me sinto mais velho, mais experiente e acabo sendo diferente.
Vejo outras pessoas que são diferentes, e o pior é que de tanto os outros falarem já me sinto o mais diferente. Paulinha é paraplégica, é minha colega de trabalho também, mas seu humor é têm uma espontaneidade tão grande, que o fato de ela está em uma cadeira de rodas, não abate ela nem um pouquinho. As pessoas não dizem que ela é diferente. Denis, outro colega de trabalho, é gay, fala de sua vida abertamente para os outros, leva até o namorado para o trabalho para apresentar para nós e também nunca ouvi ninguém dizer que ele é diferente. Virgínia adota um visual dos anos 80 até hoje, e olha que ela assim como eu e os outros também têm 20 e poucos anos. As vezes chego até a achar estranho vê-la com aqueles sapatos de salto com plataforma na frente lembrando a época de Dancin´ Days, como ela mesma fala. Mas enfim como os outros ela também não escuta o jargão que me circunda, o de ser diferente.
Sei que as pessoas não são iguais, mas eu não queria ser diferente ou talvez o que me incomode mais é ser o diferente. Sei lá, soa para mim muito estranho, como extra-terrestre ou sei lá o que. Já pensei em seguir o estilo diferente de ser de muita gente, mas acho que tenho medo de me tornar mais diferente ainda.
Carlos Costa
As vezes me pergunto porque sou tão diferente. Porque não gosto das mesmas coisas que os outros da minha idade gostam? Afinal os 20 e poucos anos de uma pessoa é a fase mais áurea de sua vida, de um modo geral. As pessoas dizem que não me falta nada, mas com certeza me falta muita coisa. Sei disso. Gostaria de me comportar como o Marcos o cara mais famoso da empresa em que eu trabalho. Ele sim tem seus 20 e poucos anos e sabe bem aproveitar. Têm namoradas, é bastante comunicativo, vai à balada, bebe, enfim tem muita lábia. As pessoas olham para ele e sempre diz você é o cara.
Ah, eu também sou comunicativo, na medida do possível, vou à balada, não todo o fim de semana, não tenho namorada e não bebo. Então as pessoas dizem “Ah não, o Caio é diferente.” Por que? Só por que sou quieto e só falo quando me perguntam? E quando falo todos olham como se eu fosse a voz da experiência? Sim sou elogiado, muito elogiado, mas sempre o elogio final tem de ser, ele é diferente. Falo sobre qualquer assunto que me perguntarem e me expresso muito bem. Mas ao me elogiarem me sinto mais velho, mais experiente e acabo sendo diferente.
Vejo outras pessoas que são diferentes, e o pior é que de tanto os outros falarem já me sinto o mais diferente. Paulinha é paraplégica, é minha colega de trabalho também, mas seu humor é têm uma espontaneidade tão grande, que o fato de ela está em uma cadeira de rodas, não abate ela nem um pouquinho. As pessoas não dizem que ela é diferente. Denis, outro colega de trabalho, é gay, fala de sua vida abertamente para os outros, leva até o namorado para o trabalho para apresentar para nós e também nunca ouvi ninguém dizer que ele é diferente. Virgínia adota um visual dos anos 80 até hoje, e olha que ela assim como eu e os outros também têm 20 e poucos anos. As vezes chego até a achar estranho vê-la com aqueles sapatos de salto com plataforma na frente lembrando a época de Dancin´ Days, como ela mesma fala. Mas enfim como os outros ela também não escuta o jargão que me circunda, o de ser diferente.
Sei que as pessoas não são iguais, mas eu não queria ser diferente ou talvez o que me incomode mais é ser o diferente. Sei lá, soa para mim muito estranho, como extra-terrestre ou sei lá o que. Já pensei em seguir o estilo diferente de ser de muita gente, mas acho que tenho medo de me tornar mais diferente ainda.
Vasculhando o armário
Por Deny Nascimento


Lágrimas lavam meu rosto e limpam minha alma. Não sou louca e tão pouco passo por um momento de perda, entretanto, essas lágrimas também não são de felicidade. São 9h de uma sexta feira ,dia comum, dia comum para todos , mas para mim um dia inesquecível. Acordei cedo e resolvi mudar a minha rotina. Desliguei os celulares, coloquei uma camiseta velha e enorme que me faz sentir tão segura e tão acolhida como os braços de minha mãe. Sentei , pensei, pensei e percebi que precisava organizar a minha vida. Precisava voltar a ser responsável com os estudos, ser mais companheira dos meus amigos e principalmente: ser fiel a minha liberdade. Refletir que deveria fazer tudo isso foi fácil, porém tornar meus pensamentos realidade com certeza daria muito trabalho. Mesmo assim, contrariada pela normalidade do comodismo, saltei da cama resolvi começar a transformação.
Mas começar por onde? Fui tão desleixada, que minha vida está uma bagunça total. Pensei em ligar para meus amigos ,que por conta da rotina pesada do trabalho eu havia me afastado, afinal, com a ajuda deles, concretizar essa minha metamorfose seria muito mais fácil. Peguei o telefone comecei a discar 3... 3... 8... 4...NÃO ! vou fazer melhor, escreverei cartas pedindo desculpas, como nos velhos tempos. Mas onde estão meus papeis de carta? Hum.... no armário! Abri o bendito armário... estava tão arrumadinho, que 70% das coisas que estavam lá caíram nos meus pés. Era um problema a mais para eu resolver mas ... é a vida.
Sentei no chão catei os papeis e as cartinhas começaram a me chamar a atenção . Comecei a lê-las, uma por uma e a emoção tomava conta de mim. Cartinha de desculpas , de declarações de amor, amizade, rascunhos de cartas para namorado, papeizinhos eu eram trocados no meu das aulas.Eram tantas coisas de uma pessoa tão deferente do que eu sou hoje. Eu sei que transformações fazem parte de nos , mas eu mudei tanto, e em relação aos meus sentimentos, não foi para melhor. Naquela época eu não sofria dos males de hoje, não tinha vergonha de dizer eu te amo, de passar uma tarde inteira papeando e muito menos de fazer o que meu coração pedia. Agora eu sou o inicio do que eu sempre jurei que não seria: uma adulta manipulada pelo sistema.
Chorei muito ao ler trechos de minhas antigas agendas, (não tão antigas assim, de dois três anos atrás), percebi que eu era uma assassina. Assassinei muitos sentimentos e o pior, fiz com que o que de melhor eu tinha, minha ingenuidade, fosse apagada de minha memória. Não consigo entender como pude me transformar desse jeito em tão pouco tempo. Não sei como pude abrir mão dos meus maiores tesouros... Era hora de mudar.
Peguei papel, caneta e repetindo o gesto que era natural a menina que fui a dois anos atrás, deitei-me de bruços no chão e comecei a escrever, as palavras já não eram tão ingênuas como as de antes, mas já havia valido a pena , meu coração já sentia algo. Era uma espécie de dor, medo, arrependimento, felicidade,amor e angustia, e foi e sentimento mais intenso e mais profundo que eu já senti.
O mundo lá fora já não me interessava mais, eu tinha que colocar meus sentimentos em forma de palavras. Passei minha tarde escrevendo ,e ressuscitando o meu eu em mim.
“ ... amiga querida, sei que há muito tempo eu não demonstro o amor que sinto por você. Sei também que tenho sido incapaz de te ligar no meio da madrugada só pra saber se deu certo o seu plano de conquista ... muita coisa mudou. Mas hoje eu resolvi resgatar os meus tesouros, estou fazendo reviver o meu velho eu ... amiga eu te amo.
... sei que talvez o meu resgate de mim mesma não seja o suficiente para que eu acumule forças e a entregue um dia essa carta ... não importam os fins mas os meios dessa minha transformação já valeram a pena."
Mas começar por onde? Fui tão desleixada, que minha vida está uma bagunça total. Pensei em ligar para meus amigos ,que por conta da rotina pesada do trabalho eu havia me afastado, afinal, com a ajuda deles, concretizar essa minha metamorfose seria muito mais fácil. Peguei o telefone comecei a discar 3... 3... 8... 4...NÃO ! vou fazer melhor, escreverei cartas pedindo desculpas, como nos velhos tempos. Mas onde estão meus papeis de carta? Hum.... no armário! Abri o bendito armário... estava tão arrumadinho, que 70% das coisas que estavam lá caíram nos meus pés. Era um problema a mais para eu resolver mas ... é a vida.
Sentei no chão catei os papeis e as cartinhas começaram a me chamar a atenção . Comecei a lê-las, uma por uma e a emoção tomava conta de mim. Cartinha de desculpas , de declarações de amor, amizade, rascunhos de cartas para namorado, papeizinhos eu eram trocados no meu das aulas.Eram tantas coisas de uma pessoa tão deferente do que eu sou hoje. Eu sei que transformações fazem parte de nos , mas eu mudei tanto, e em relação aos meus sentimentos, não foi para melhor. Naquela época eu não sofria dos males de hoje, não tinha vergonha de dizer eu te amo, de passar uma tarde inteira papeando e muito menos de fazer o que meu coração pedia. Agora eu sou o inicio do que eu sempre jurei que não seria: uma adulta manipulada pelo sistema.
Chorei muito ao ler trechos de minhas antigas agendas, (não tão antigas assim, de dois três anos atrás), percebi que eu era uma assassina. Assassinei muitos sentimentos e o pior, fiz com que o que de melhor eu tinha, minha ingenuidade, fosse apagada de minha memória. Não consigo entender como pude me transformar desse jeito em tão pouco tempo. Não sei como pude abrir mão dos meus maiores tesouros... Era hora de mudar.
Peguei papel, caneta e repetindo o gesto que era natural a menina que fui a dois anos atrás, deitei-me de bruços no chão e comecei a escrever, as palavras já não eram tão ingênuas como as de antes, mas já havia valido a pena , meu coração já sentia algo. Era uma espécie de dor, medo, arrependimento, felicidade,amor e angustia, e foi e sentimento mais intenso e mais profundo que eu já senti.
O mundo lá fora já não me interessava mais, eu tinha que colocar meus sentimentos em forma de palavras. Passei minha tarde escrevendo ,e ressuscitando o meu eu em mim.
“ ... amiga querida, sei que há muito tempo eu não demonstro o amor que sinto por você. Sei também que tenho sido incapaz de te ligar no meio da madrugada só pra saber se deu certo o seu plano de conquista ... muita coisa mudou. Mas hoje eu resolvi resgatar os meus tesouros, estou fazendo reviver o meu velho eu ... amiga eu te amo.
... sei que talvez o meu resgate de mim mesma não seja o suficiente para que eu acumule forças e a entregue um dia essa carta ... não importam os fins mas os meios dessa minha transformação já valeram a pena."
O dia se passou, escrevi muitas outras cartas. Resta- me agora o amanhã que me dirá se a minha volta ao passado valeu a pena.
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