quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Ah... um emprego !

Emerson Cunha
Acho que essa já é a terceira ou a quarta entrevista de emprego que faço. Não me recordo mais em quantas fui exatamente, só sei que perdi em todas. A última, até acreditei por um segundo que conseguiria, mas, como sempre, na última etapa fui eliminada.
O que que eu to fazendo de errado? Será que eu não tenho competência suficiente pra trabalhar? É...só pode ser isso! Não guento mais sair de casa pra uma entrevista, e quando tudo parece que vai dar certo e finalmente vou conseguir a bendita vaga...Que ódio que eu tenho daquela menina que na última entrevista que participei não me deixou falar hora nenhuma! Foi por causa dela eu não passei! Mentira. Não foi por causa dela, foi porque eu sou burra mesmo e nunca vou conseguir um emprego!
Queria tanto parar de depender dos meus pais, entrar logo numa faculdade pra minha mãe não ficar falando que eu não faço nada, que eu tenho que estudar mais pra poder entrar na faculdade. Mas como eu vou estudar nessa casa que não para. O telefone vive tocando, sempre chega alguém na minha casa, tem sempre um falando alto, ouvindo som, fazendo barulho... É impossível se concentrar nessa casa.
Essa semana me ligaram pra mais uma entrevista de emprego. Lá no Itaigara. Não sabia como chegar lá, daí eu pedi pro meu namorado me levar lá. A gente até discutiu um pouco porque eu queria que a gente saísse bem cedo pra não correr risco de atrasar, mas ele teimou dizendo que não precisava sair tão cedo porque o ônibus não demorava pra chegar onde nós iriamos. Mas discussões à parte, nos encontramos para ele me levar lá e chegamos no horário certo, sem atraso nem muita espera. Ele ficou comigo lá até começar a entrevista. Queria me esperar, mas eu achei melhor não, porque ele poderia esperar muito, então ele foi assim que eu fui chamada.
Até que não me sai tão mal nessa entrevista. A mulher que me entrevistou perguntou meu nome, onde eu morava, essas coisas básicas de uma entrevista...Pediu também que eu dissesse uma frase, pra avaliar minha dicção. Acho que falei direito. Só me resta esperar, e torcer pra que desta vez eu consiga.

Paparicado por...


Reinaldo Oliveira


Não sei o que acontece com gente grande. Tem horas que eles não percebem que não gosto que me peguem toda hora, me mordam e façam gut, gut, gut. Que saco; parece que sou otário. Ah! Odeio quando pegam em minha cabeça e meu tio Reinaldo faz isso direto pra me pirraçar. Adoro ele e principalmente quando me faz cócegas e minha mãe fala:
-não faz “cosca” nele não. E ele diz: não to fazendo não.
Pra falar a verdade, gosto bastante de ser paparicado por todos eles. Hum... Quando eu tinha três meses, não faz muito tempo, pois, só tenho um ano e um mês, minha tia me acordava na madrugada, pra fazer companhia a ela.
Não gosto quando eles falam mal de meu pai. Sei que ele não é o melhor pai do mundo, vacilou ao deixar minha mãe quando ela mais precisava dele e ainda alega que não é meu pai. Mas, não cabe a nós seres humanos castigá-lo, como diz o ditado: quem faz aqui na terra, paga aqui na terra. Não gosto que falem dele porque, apesar de ser esperto, ainda sou uma criança e não quero crescer revoltado.
Essa história de meu pai é meio doida. Quando minha mãe tava grávida, ele disse uma vez que não era dele. Após meu nascimento, ele ficou todo bobo, parecia mais criança que eu. De repente deixa de ser meu pai de novo. É uma confusão, mas...
Odeio coruja, elas me dão medo. O olhar sinistro delas acho que vai me devorar. Mas minha avó é uma coruja, e adoro minha avó. Ela vai me comer? Não!!! Apesar de ser durona, ela é muito amável.
E, já tava esquecendo de falar de Mauricio, meu outro tio. Este eu não vejo muito não. Só quando ele está de folga. Quase que não o vejo. Mas, quando ele vem aqui pra casa, tiro o atrasado e meu tio Naldo ás vezes se reta comigo. Porque quando Mauricio ou Lú, como o chamamos, vem; deixo Reinaldo escorado. E fico o fim de semana todo no braço de Lú. Rsrsrsrsr não faço isso por maldade, mas, serve para descontar o que ele faz comigo. Às vezes vai pra rua e nem me dá atenção. E no fundo, sinto que ele gosta, pois ele descansa um pouco coitado, fica comigo a semana toda.
Meu tio Nei também é legal. Ele é irmão de meu pai. Gosta de mim e sempre vem me ver. Apesar de meu pai ser barbeiro, sempre corto meu cabelo na barbearia de meu tio.
Será que esqueci de falar de alguém que me paparica? Sei lá. É tanta gente que não dá pra listar todos. Mas só pra citar alguns; Lia, conceição, Cheroso, Marina,..., Bujão.
Não dá pra falar de todos. Mas uma coisa eu admito: adoro ser paparicado.

Adolescente em conflito

Midiã Santana

Mesmo querendo não me sinto bem... Como posso estar namorando alguém e não conseguir esquecer uma pessoa com que eu ficava há quatro anos atrás... Sou a infidelidade em pessoa... Sou má... Amar o errôneo... Sentimento que consome e some... Me faz imaginar que o certo é o que penso, "e quem acredita sempre alcança", ilusão essa de que o fácil é o pior, o fácil sim, às vezes é o melhor... Cabelos cacheados, loiros, desgrenhados... Porque em uma praia ou com o skate no pé, a imagem dele sempre me vem à cabeça... Lembro-me do meu pai, talvez minha incerteza em buscar aquilo que quero seja fruto de tê-lo perdido cedo? Será que a necessidade de alguém mais "maduro", na verdade, é um complexo de Édipo?

Sentimento de vazio e vulnerabilidade. Mesmo com o pé no altar e a casinha de sapê à beira do mar, eu acredito que ele é meu, aquela criatura com falha no dente não pode ser melhor do que eu... Ahhh, a esperança... PALAVRA RIDÍCULA... Esperança, coisa de gente fraca, o momento é agora... Um, dois, três... Como vou cuidar dos bichinhos com um livro em inglês... Medicina veterinária é bem mais complicada do que a humana... Me lembro do dia em que o meu último cachorro morreu, foi bem triste... Cachorro, isso que ele é, um irracional, como ele pode fazer isso comigo, sabendo que o que existe entre a gente é mais do que cumplicidade, é a construção de nossos seres, se eu sou assim é graças a ele e vice-versa... Uma pena ser adolescente e apenas ter questionamentos, onde estão minhas respostas, onde estão aqueles dreads da cor do sol... Era tão bom quando comprávamos vinho São Jorge e nos embriagávamos... Graças a ele tomei minha primeira suspensão... O errado é tão mais gostoso...

Volta ao jardim de infância

Lívia Melo

Turma de Publicidade e Propaganda, primeiro semestre de uma Faculdade qualquer. Amadurecidas pela idade e esquecidas de como era uma sala de aula, quatro moças se sentiam recém saídas de uma caverna e, ao mesmo tempo, em pleno jardim de infância. Com brincadeiras inocentes e muita vontade de aprender, a turma se dividia entre jovens e anciãs. O que fazer no meio de tanta gente capacitada no auge de sua adolescência? Jovens que tão cedo, com pouca idade, têm a oportunidade de ser alguém na vida? Como será acompanhar essa galera fervorosa cheia de gás?

Incapaz e com muito medo é o como se sentia Ivonete. Mesmo com tanta ânsia de aprender, estava ali pra se curar de uma profunda depressão, causada pela perda de sua cara metade. Quanto tempo fora, mãe de família, avó, aposentada, que loucura remeter-se a uma sala de aula, senhora distinta de cabelos grisalhos, sorriso espontâneo, uma simpatia.

Darlene, uma loira engraçada e falastrona, tinha olhos castanhos, baixinha e meio roliça, adorava imitar a maneira dos professores darem aula. Ah! Buscava há tanto tempo um diploma universitário, acompanhar o marido em qualquer de suas reuniões sem se colocar de escanteio por falta de assunto, parecia um sonho! Não ser vista mais como apenas mulher de fulano de tal e sim a publicitária Dona Darlene, como é maravilhoso! Com o marido professor muito bem empregado, fazendo sucesso por onde passa, e sem contar, no leque de amizades bastante ecléticas, queria ser vista pelo que ela representava de fato e não quem ela estava representando. Pra ela, ser uma comunicóloga era inexplicável, afinal, estava tendo um lugar perante a sociedade.

Silvia poderia ser comparada a quase uma Madre Tereza de Calcutá, se não fosse, no final de toda sua bondade, ser observada que a sardinha viria sempre pro seu lado. De quase tudo que falava, metade se desmanchava em choro. Foi eleita líder da sala, com seu jeitinho conseguia o que queria. Muitos sonhos teria realizado se não fosse o que faltava: ser mãe.

Imaginar dia e noite como seria seu rostinho, se seria ele ou ela? Pareceria com quem, mamãe ou papai? Com certeza mimaria muito! Eram os pensamentos de uma jovem com seus 33 anos e inestimável vontade do desejo de ser mãe. Enquanto esse encanto não chega, buscar uma carreira e dar asas à sua imaginação é o que fazia parte do mundo de Silvia.

Já Naza, policial nas horas vagas, tempo é o que lhe faltava, e feito uma menina, pregar peças em seus colegas e cantarolar entre um intervalo ou outro ajudava ela a esquecer metade de seus problemas. Como é suado se dividir em tantas pessoas ao mesmo tempo, ser dona de casa, trabalhar correndo atrás de bandido, tirar plantão, fazer trabalho de faculdade, dar atenção à família, mas não poderia se queixar, pois conseguiu fazer parte da concorrência no mercado de trabalho é bom pra alma. Naza se sentia em casa, mesmo sua vida sendo um tremendo corre-corre, ela estava acostumada, era uma pessoa elétrica.


Para Cassandra, tudo era mais fácil Conhecida carinhosamente pelos colegas como boca de afofo, era uma patricinha, no bom sentido, claro, família classe média, cargo de confiança e estudante dos melhores colégios. Tirava tudo de letra, a não ser o seu “Calcanhar de Aquiles”, as resenhas, das quais ela fugia como o diabo foge da cruz. Ela estava com a bola toda. Não se preocupava nem em época de prova, tudo estava na ponta da língua. Falastrona, para tudo tinha uma história. “Hora, veja só, todo mundo nesta sala gosta de falar muito e somente eu tenho boca de afofo, será que se comunicar demais é tão ruim assim? Não ter medo das reações que provoca nas pessoas, falar o que pensa e estar sempre em contato com tudo e todos?”. Sem se preocupar muito com as opiniões alheias, mandava ver e soltava o verbo.


As dificuldades foram muitas, porém todas tiraram de letra e, no final, fizeram daquele grupo de mulheres experientes, verdadeiras adolescentes em busca de um sonho que já não era mais distante: a independência e o posicionamento na sociedade em ter uma carreira promissora.

Santo Amaro tá que é só alegria!!!

Rafaela Anunciação

- A senhora está alegre? - pergunta a repórter.

- Não sei dizer o que estou sentindo, se alegria, se tristeza, se felicidade...Sei que estou sentindo tudo junto. Não sei explicar.

É assim que Canô Veloso, ou melhor, D. Canô, a pequenina mulher, com um sorriso carinhoso, olhar terno, voz mansa e jeitinho simples de quem mora no interior, define o que estava sentindo num dia tão gostoso, para ela e para aqueles que a conhecem e admiram. Graças a ela, temos o privilégio - para alguns pelo menos - de ouvir a melodia da voz de Caetano e o firme soar das notas cantadas por Maria Bethânia.

Vestida toda de branco, como tradicionalmente, a virginiana mais antiga da família Veloso passeia pelas ruas de paralepípedos desalinhados com a ajuda de alguns amigos e se dirige à igreja Nossa Senhora da Purificação, onde será realizada uma missa de ação de graças pelos seus 100 anos vividos, aparentemente, com muito orgulho.

- Mainha, não encontrei a senhora no caminho! Bença maínha! - fala Caetano, com seu legítimo sotaque de "baianinho arretado de Santo Amaro", bem arrastado e preguiçoso. O abraço é dado logo em seguida e ele precisa quase se ajoelhar para isso.

- Parabéns viu minha mãe!

E ela retribui com um abraço que apresenta um misto de fortaleza, sinceridade, amor e sensibilidade.

E a caminhada prossegue rumo à igreja. Lá, o arcebispo D. Geraldo Magela aguarda a aniversariante para iniciar a celebração. Bênçãos proferidas e pedidos de mais longos e duradouros cem anos concluídos, D.Canô recebe ainda a homenagem de Bethânia que canta junto com o coralzinho da igreja. Emocionada, como não podia deixar de ser, elogia sua mãe com o orgulho de quem ganha um troféu. E realmente ganha, afinal, não é todo dia que alguém pode abraçar uma mãe que completa cem anos.

Gilberto Gil, Regina Casé, Margareth Menezes, Paulo Souto, o governador Jacques Wagner, os representantes da família ACM, marcam presença no aniversário de D. Canô.

A festa é aberta para parentes e amigos íntimos que festejaram com ela toda "intimidade" desse momento.

Minha vida de gato

Acordo tarde, já começa o dia e eu me espreguiçando bastante, adoro dormi na cama dos outros, sou um pouco lento, mais só um pouco, detesto água mais sou muito limpinho, todo mundo quer pegar em mim, mas não gosto muito desse contato o tempo todo, meu banho de língua encanta qualquer um, vivo brincando com a minha bola de lã e quando fico enjoado deito e durmo, como infelizmente não moro sozinho tenho que preservar alguns atos íntimos meus, sou exigente e minha comida tem que estar pronta quando chego do meu passeio diurno, nem gosto de implora por carinho, simplesmente consigo ser dengoso e quando menos esperam, estou deitado no colo ou no sofá de alguém, fico mais próximo de quem mais me dá comida, tempo frio não é comigo, não gosto de sair pra baladas noturnas, é só escurecer que eu já fico deitado no tapete bem quentinho e estirado, sou esperto e faço todos gostarem de mim, pois não dou trabalho, me acho tão esperto e bonito que ficar gastando minha voz de locutor é um desperdício, mesmo sem saber ler esses livros que os humanos lêem, sou bastante inteligente, me tratam tão bem e eu não preciso fazer nada, já o puxa saco do FM, o cachorro que mora na mesma casa que eu vivo, fica o tempo todo no pé pedindo carinho e só recebe carão, sai até na chuva quando os humanos chegam, e se por um acaso tiver um assalto na casa, ele vai ser o primeiro a morrer, vive metendo o focinho onde não é chamado e quer defender Deus e o mundo, até parece! Sou mais eu, se isso acontecer, vai ser o assaltante entrando pela porta e eu saindo pela janela, depois cronômetro um espaço de tempo de três horas pra voltar com segurança e chego como se nada tivesse acontecido, do tipo que fala: Olha o que aconteceu? Nossa que fez isso? Se todo mundo parar pra pensar comigo, vai enxergar que eu não tenho sete vidas a toa.

Sábado também é cotidiano.

O primeiro despertador, como de costume, tocou às 5h40, como também de costume desliguei-o para dormir “só mais um pouquinho”. Então, 20 minutos depois, chegou a vez do segundo e definitivo, aquele que costumo chamar de mãe, já que a minha, todas as noites, toma remédio para dormir por causa do tratamento que está fazendo para a síndrome do pânico. “Doença de rico, chata!”, ela costuma dizer.

Então, quando esse desperta às 6h, de segunda a sábado, de ímpeto levanto-me. Espreguicei-me, olhei para Mustafá, que dormia do lado dele da cama (é sempre o esquerdo), dei um beijo nele e disse:

- Bebê, mamãe ama muito você!

O ventilador continua ligado, pois meu gatinho não gosta de dormir sem o ventilador, não acho justo desligá-lo enquanto ele ainda dorme, até porquê quem tem obrigações ali para cumprir sou eu e não ele (aliás, nem podia, lembro-me nesse momento que ele é um animal). Acendi a luz, peguei a roupa que vou usar, sapatos, acessórios (essa é a parte mais complicada, pois acho que o que completa o meu figurino são os acessórios. E, diga-se de passagem, são umas das minhas “fúteis” paixões), maquiagem, desodorante, hidratante, creme para pentear os cabelos, escova, pente e olho a bolsinha que já tinha arrumado no dia anterior com a revista, uma série de textos que foi emprestado por uma amiga, meu pequeno caderno do banco Bradesco, que levo para onde for. Aí penso que esse caderno serve para todos os tipos de anotações, desde as aulas que assisto na faculdade, de prospecção dos clientes do meu trabalho e até mesmo para anotar as contas que tenho à pagar. Dou um leve sorriso e olho o relógio, já são 6h10, é hora de adiantar.

Vou ao banheiro para fazer as primeiras atividades que faço nele, escovar os dentes, lavar o rosto etc... Saio em direção à cozinha, antes passo na frente do espelho que fica na sala e olho meu rosto: “nossa, que cara de sono”, penso! Ao cruzar o corredor que divide a sala da cozinha e que tem, nas laterais, os quartos da casa, o meu, o da minha mãe e o que era do meu irmão, mas que agora transformou-se na suíte dos hóspedes. Acho um desaforo, minha mãe não deixou que eu trocasse de quarto. Poxa vida, o meu não tem banheiro, eu queria mesmo era ir pra lá. Na verdade, acho que ela tem esperanças que meu irmão volte para casa. Ela ainda não conseguiu aceitar que ele, há três meses, decidiu morar com a esposa e com o filho em um lugar onde tenham privacidade.

Alheia a esses pensamentos em frente ao quarto “dele”, que estava com a porta fechada, fui despertada com essa mesma porta abrindo. Era Júnior, um garoto de 18 anos, que é voluntário, junto com minha mãe, de uma instituição que trata crianças com câncer. Minha mãe tem Júnior como um garoto com quem ela pode contar para tudo. Júnior estava acordando para terminar de limpar o nosso terreno que fica ao lado casa. Ele olha para mim, diz bom dia e vai para o banheiro enquanto eu chego na cozinha para preparar meu café da manhã. Aliás, não gosto desse nome, café da manhã, acho limitado demais, pois não tomo café. Gostaria que o nome fosse suco da manhã, soa até melhor ao dizer.

Abri a porta do freezer e peguei uma polpa de cajá, preparei meu suco sempre com adoçante e, enquanto o liquidificador estava ligando, preparava duas fatias de pão integral com gergelim e queijo minas (gosto muito) e coloquei na sanduicheira. Fui na varanda cumprimentar meus três cachorros, com carinhos na cabeça, e perguntei a Júnior se ele queria tomar café. Ele respondeu que, naquele momento, não. Lembrei que o liquidificador ainda estava ligado, voltei para cozinha desliguei-o. Tirei meu sanduíche, coloquei em um pratinho, peguei o suco que já estava no meu copo cor laranja, que eu adoro, e sentei a mesa da copa. Liguei o rádio, que fica sintonizado na emissora que mais gosto, e comecei a tomar meu café, ou melhor, “suco da manhã”. Naquele instante tocou uma música da qual gosto bastante, chamada Lugares proibidos. Lembrei que, no fim de semana passado, fiquei com o rádio ligado o tempo todo esperando que ela tocasse, pois queria que Sheila (minha amiga) a ouvisse e, é claro, só porquê eu queria muito ela não tocou!

Terminei de comer às 6h25 e fui direto para o banheiro. É claro que não lavei a louça, pois as dorminhocas (minha mãe e irmã) estão em casa e, quando acordarem, vão fazer isso. No banho, levei vinte minutos, adoro tomar banho quente e, às vezes, acabo perdendo noção do tempo. Saí do banheiro e fui para meu quarto. Nessa hora Mustafá acordou, olhou para mim, bocejou e, é claro, começou a miar pedindo que eu lhe trouxesse a ração. Pensei: “que gato folgado”. Voltei para a copa, peguei o pratinho dele com desenhos de cachorrinhos, mas que ele adora, e levei para o quarto. Ele desceu da cama e foi comer enquanto eu começava a me vestir. Em 30 minutos estava pronta para sair de casa, mas não faço isso sem antes entrar no quarto da minha mãe e falar com ela, mesmo que ela não escute. Normalmente, quem responde é minha irmã, que dorme com ela desde que meus pais se separaram há quase sete anos.

Mustafá, mais uma vez, chama minha atenção, dentro do quarto da minha mãe, miando pedindo para que eu abra a porta do banheiro do quarto. Eu, lógico, abro, porque sei que ele vai beber água. Mustafá só toma água do chão do banheiro, não sei porque ele adquiriu essa mania bizarra. Deixei ele lá, fechei a porta do quarto, pois sei que ele vai voltar para a cama e dormir. Dessa vez, ele vai dormir entre minha mãe e minha irmã.

Abro o portão da sala que dá acesso a varanda e brigo com os cachorros, pois eles querem pular em mim. Despeço-me de Júnior e saio de casa às 7h15. Vou para o ponto de ônibus. No entanto, lembro que tenho que passar na casa de Silvia e deixar o alicate de unha que Sheila me emprestou. Quando já estava em frente a casa de Silvia liguei para o celular dela e mandei ela abrir a porta, coitada, eu a tirei da cama. Conversamos um pouco, acendi um cigarrinho e fui para o ponto de ônibus, já imaginando que estava atrasada e que provavelmente o ônibus passara. Começou a chover, pensei: “que droga, até no sábado São Pedro não libera” e ainda para piorar estava sem guarda-chuva, a sorte é que já estava chegando.

No ponto, dei bom dia a um senhor e perguntei se o campo grande já tinha passado, respondeu-me que sim. Não fiquei chateada porque achei que logo outro viria. Fiquei olhando para a praça que fica na frente, olhando os garis recolhendo o lixo de alguma festa inédita que teve lá ontem e que até o momento eu não sabia qual era. Olhei também a estátua de Vinicius de Moraes, dono daquela praça no farol de itapuã. Fui retirada dos meus pensamentos por Valdelice, uma vizinha com a qual não tenho muito contato, mas sempre que nos encontramos temos muito para conversar. Ficamos lá por volta de trinta minutos esperando nossos respectivos ônibus atrasados. Às 8h10 o meu passou, despedi-me dela e vim para a faculdade, pensando que o professor ia me “fuzilar” com os olhos quando eu chegasse.

Sentei-me na cadeira da frente, a que tem apenas um acento. Sei que ela é reservada para deficientes físicos e idosos, mas adoro ficar ali e quando vejo que ela está vazia e que as outras de preferência também estão vou direto para lá. Tirei os textos da bolsinha e comecei a ler alguns sobre jornalismo literário, depois peguei a minha Piauí e li uma matéria sobre um cachorrinho sadomasoquista, dei muita risada.

Quando percebi já estava no Rio Vermelho, guardei meu óculos na caixinha e coloquei a revista na bolsinha, estava perto da faculdade e quando peguei o celular na bolsa para ver as horas, pensei: “que chato, mas estou super atrasada”! Desci no ponto e vim em direção a faculdade, chegando encontrei a colega de Sala Isis, que também estava atrasada. Nos olhamos, demos risadas e comentamos do nosso atraso nos insentando da culpa de chegar atrasada sozinhas! Isis foi direto para a sala e eu passei na biblioteca. Quando entrei, com a maior “cara-de-pau” disse boa tarde, o professor riu e sentei-me no fundo da sala. Perguntei para Isis se ele reclamou com ela, a mesma disse que a cumprimentou com a minha frase. Olhei para o quadro e percebi que ele tinha passado atividades. Sentei-me em frente ao computador e começei a fazer a tividade, esperando o restante do dia pois, como estou falando de cotidiano não poderia esquecer que hoje é sábado e o mundo e os amigos lá foram com toda certeza me esperam...